RENATO RUSSO
- Não entendo as
letras deste grupo. Tem algum sentido, por exemplo, Meu filho vai ter nome de
santo? / Quero o nome mais bonito
A adolescente responde: - Todo mundo é coberto de boas intenções quando tem
filhos, mãe. Desejam sua felicidade. Tentam escolher os melhores nomes. A letra
fala justamente disso. De como as pessoas depois se perdem, cometem erros que
não queriam. E pais e filhos se tornam tristes e sozinhos. Sem que ninguém tenha
culpa. Ou que todo mundo a tenha.
Renato
Manfredini Junior nasceu no dia 27 de março de 1960, às 4 horas, no Humaitá,
Zona Sul do Rio de Janeiro. Teve uma infância comum. Soltava pipa, brincava de
pique, andava de carrinho de rolimã onde morava, na Ilha do Governador, bairro
da Leopoldina. Certa vez, perguntado por uma repórter do Jornal do Brasil se era
uma criança introspectiva, respondeu em tom maroto: "eu aproveitava os dias de
chuva".
Filho de pai economista do Banco do Brasil e de mãe professora de inglês, Renato teve uma infância tranqüila, em uma família de classe média alta, onde pôde adquirir uma boa amplitude cultural. Principalmente, depois da estada fora do Brasil. Aos sete anos de idade, ’Juninho’, como era chamado na época, mudou-se para Nova Iorque, porque o Renato pai iria fazer um curso, logo sendo matriculado em uma escola local. Juninho e Carmem Teresa, sua irmã caçula, puderam então ampliar seus conhecimentos na língua de Shakespeare.
Depois de retornar para o Rio, a família foi morar em Brasília. Ali começaria a fase mais traumática até então. Em 1975, com 15 anos, Renato ficou impossibilitado de andar. Sofria de epifisiólise, uma doença rara que ataca os ossos. Passou por diversos tratamentos e operações. Voltaria a caminhar já aos 17 anos.
Nome artístico - Apesar da complicação natural da situação, Renato acabou aproveitando o tempo para ler. Ele chegou a criar uma banda fictícia, na qual o cantor/alter ego se chamava Eric Russel. O sobrenome artístico era uma homenagem coletiva ao filósofo Jean-Jacques Rousseau, ao pintor naîf Henri Rousseau e ao filósofo Bertrand Russell. Esta mistura filosófica e artística daria origem também ao ’Russo’ do Renato.
Antes de realizar o sonho, porém, o futuro músico ainda seria professor de inglês, programador de rádio e jornalista. Lecionando na Cultura Inglesa, foi escolhido pela entidade para recepcionar o Príncipe Charles quando o monarca inaugurou uma das filiais do grupo. E lá estava Juninho com seu inglês perfeito.
Andava com uma certa ’Turma da Colina’. Rapazes que se reuniam em um conjunto de prédios construídos para abrigar professores e funcionários da UnB. Um enclave de liberdade em uma Brasília sombria. Embaladas por maconha e garrafões de vinho, diversas bandas de punk rock surgiram do núcleo cultural.
O trovador solitário
"Muita gente achava ele chato, mas Renato era o catalizador. Era quem unia
aquela gente toda. Quem fazia com que as coisas acontecessem", dizia Renato
Rocha, o então futuro baixista da Legião Urbana.
Freqüentavam festas, escutavam discos importados. O gosto geral era pelo punk. "De 76 a 78 eu ouvia muito rock progressivo. Aí o progressivo acabou. Genises e Yes perderam componentes. Comecei a ouvir Beach Boys, Jefferson Airplane, Bob Dylan e Leonard Cohen. Então, os jornais passaram a falar mal de toda essa gente. Apontavam para o Sex Pistols. Eu ficava curioso", disse Renato Russo em entrevista à revista Bizz.
Com essas influências, e mais The Clash e Eddie And The Hot Rods, Renato, que ainda não se chamava Russo, formou o Aborto Elétrico em 1978, banda que reunia os músicos Fé Lemos e André Pretórios. Renato tocava baixo, Fê era baterista e André ficava na guitarra e no vocal. Chegaram a fazer sucesso nas festinhas de Brasília. Mas André, filho do embaixador da África do Sul, teve que se alistar. "Foi para África lutar contra os negros", lamentou o músico.
Em uma discussão, Fê jogou uma baqueta no Renato. Neste momento, o grupo chegava ao fim. Surgiu então o Trovador Solitário: Renato Russo, um banquinho e um violão. Mas sua fase Bob Dylan não duraria muito. "Sempre gostei de ’tchurma’. Desde pequeno era ligado em filmes de ’tchurmas’", dizia o futuro vocalista.
Legionatários - Renato decidiu então formar uma base de baixo/ bateria - ele e Marcelo Bonfá - e chamar integrantes de bandas locais para a voz e a guitarra. Sempre com uma formação diferente. Daí o nome Legião Urbana. Mas esta idéia inicial não deu certo.
Mudanças aconteceram e logo já contavam com um guitarrista fixo, Eduardo Paraná, que só queria solar. Contudo, o objetivo era fazer um som mais elaborado que o do Aborto. Chamaram também o tecladista Paulo Paulista Guimarães. Com esta formação, fizeram a primeira apresentação do grupo, em setembro de 1982.
O virtuosismo de Paraná e Paulista empurraram os dois para fora da banda. Renato Russo passou então a contar com a guitarra de Ico Ouro Preto (irmão de Dinho, futuro vocalista do Capital Inicial). Mas esse também não durou muito. Finalmente, Dado Villas-Lobos assumiria a guitarra.
Um dia de 1984 veio a notícia-bomba: Renato Russo havia cortado os pulsos. A comoção foi geral. Mas o próprio tratava de falar que o gesto não passava de um "acidente". "Cortei os pulsos mas não para me matar nem nada. Foi frescura, eu estava bêbado", explicava. Fôra uma besteira para chamar a atenção de algum rapaz. Renato era carente, capaz de se apaixonar com a maior facilidade. E de se frustrar com mais facilidade ainda.
Segundo o jornalista Arthur Dapieve na biografia do músico, da série Perfis do Rio, a inatividade de Renato Russo criava um problema. Ele havia perdido alguns movimentos das mãos. Não poderia tocar baixo durante algum tempo. O músico também estava querendo ter mais liberdade para cantar e cuidar dos interesses da Legião. Foi assim que o baixista Renato Rocha entrou em cena. A banda começou a se apresentar fora de Brasília.
Nessa época, os Paralamas do Sucesso já haviam gravado e faziam sucesso. Com o exemplo dos amigos da Capital Federal, "os legionários" acreditavam que era uma questão de tempo para que estourassem também. Renato sonhava acordado. Chegou a dizer para os pais que seria o líder da maior banda do país. Uma fita demo da Legião Urbana tocava na Rádio Fluminense do Rio, mãe da renascença do rock brasileiro nos anos 80.
Qaundo começaram a ficar badalados em Brasília, as propostas de gravadoras apareceram. O primeiro convite foi feito, porém, pelo trabalho errado. Chegara a gravadora EMI Odeon uma demo de Renato quando este ainda assinava ’Trovador Solitário’. Gostaram do estilo Bob Dylan e do vozerão Elvis Presley. Mas não iriam ter interesse em outro trio de Brasília cujo cantor usava óculos.
No entanto, o grupo não sabia dessas histórias. Chegou a ir ao Rio para gravar outro demo no final de 1983, que não foi aproveitado. No início de 1984, novamente vieram à cidade carioca, desta vez para um compacto. Os produtores queriam Geração Coca-Cola como um rock country. Quando os meninos descobriram a intenção, saíram pela escada abaixo. Na saída, trombaram com outro produtor da casa, Mayrton Bahia. Foi a salvação. Um tal de deixa disso que fez com que os ânimos se acalmassem.
Fama
inesperada
No quarto de hotel
locado pela gravadora em Copacabana, em 1984, houve um encontro lendário,
inédito e muito louco entre Raul Seixas e Renato Russo. "Falavam em um dialeto
que não era português, inglês ou nada parecido. Dava para ver raios no quarto",
jura Bonfá. Rauzito tinha encontrado Marcelo, Dado e Renato no corredor. "Vocês
têm aquele disco marrom lá?" Era a senha para a maconha. Passaram a noite
fumando, distraídos por papos para lá de psicodélicos.
Após dois meses em Brasília, tiveram a notícia de que o produtor do disco seria o jornalista José Emílio Rondeau. Com ele, chegaram a um acordo entre o que a gravadora desejava e o que os meninos aceitavam fazer. Pouco tempo depois seria lançado o disco Legião Urbana. Havia quem dissesse na EMI que o objetivo era vender Paralamas e empurrar Legião. Mas o vinil estrapolou as espectativas, vendeu de início 50 mil cópias.
Juninho agora já era Renato Russo. E nos tempos que se seguiriam teriam muito dinheiro, bebida, criatividade, brigas e amor. Como em Pais e Filhos, quarto disco da banda, uma sucessão de erros e acertos que ninguém entende porque acontecem, mas que acabam tornando as pessoas infelizes. Pouco antes de sua morte, no dia 11 de outubro, falou para dona Maria do Carmo, com ar tristonho: mãe, só fui feliz na infância.
Em 1988, alegando não poder enganar mais seu público, Renato Russo assumiu publicamente ser homossexual. "Isto faz parte da minha vida, não é um problema", costumava dizer. E realmente não era. Problemático eram seus relacionamentos afetivos.
O cantor teve duas
grandes paixões. A primeira foi em 1990, quando conheceu em um bar de Nova
Iorque, o americano Robert Scott, viciado em anfitaminas. O relacionamento durou
dois anos e o rapaz chegou a morar com Renato no Rio de Janeiro. Numa temporada
americana, chegaram a compartilhar durante um mês e meio sessões de heroína.
"Acho que vou ficar uns dez anos escrevendo músicas do tipo meu amor partiu",
comentou na época.
Para sair da depressão, Renato gravou em 1994 o disco solo The Stonewall Celebration Concert, no qual interpretava canções populares americanas. O álbum comemorava 25 anos do surgimento do moveimento gay nos Estados Unidos e trazia no encarte uma recordação deixada por Scott.
A outra paixão de
Ranato foi o carioca Cristiano, um garoto de periferia com que o artista se
relacionou até meados de 1995. O rompimento aconteceu durante a gravação do
segundo disco solo Equilíbrio distante, só com canções italianas.
No final de 90, o
poeta buscou a alto-internação para tratar do alcoolismo. Colocou fogo na
clínica em protesto pela proibição de tocar violão para os outros pacientes na
festinha de fim de ano. Era também uma maneira de pressioná-los a deixar ele
passar o dia 24 de dezembro em casa com os pais. O "acidente" não teve
importantes conseqüências e o obstinado Renato pôde ter um Natal em família.
O músico comprou um apartamento em Ipanema, Zona Sul do Rio. Andava muito deprimido, tenso, irritadiço e bebendo como um louco. Tinha certeza de que estava com Aids. Faltava coragem para fazer o exame. Talvez por isso, quando recebeu o resultado que comprovava suas desconfianças, tenha tido uma reação, se não conformada, fatalista.
Poucas pessoas ficaram sabendo da notícia. Seu pai, Rafael Borges, Dado, Bonfá e Denise Bandeira, atriz e grande amiga de Russo. Embora admirasse Cazuza, não seguiria os passos do colega. A idéia era manter tudo em segredo. Até seis anos depois, quanto veio a falecer, existiam algumas suspeitas, mas nada foi confirmado em público.
Com 20 quilos a menos que os 65 habituais, barba comprida, Renato Russo morreu à 1h15min, no dia 11 de outubro de 1996, naquela que seria uma inesquecível sexta-feira para os milhares "legionatários" espalhados pelo país. O artista perdera a luta de seis anos contra a Aids.
"Ele se
entregou", desabafou sua mãe, Maria do Carmo, logo após a cremação do corpo, no
dia seguinte, no Cemitério do Caju, no Rio. "Nos últimos tempos ele não cansava
de repetir: ’Mãe eu não sou daqui’ " Estava atormentado e com crises de
depressão.
Nas últimas semanas de vida, Renato não saía de casa, recusava-se a comer, afastou-se dos amigos. Trancou-se no seu apartamento em Ipanema (zona sul carioca), em companhia apenas de seu pai e de um enfermeiro. Não queria mais tomar o doloroso coquetel de drogas. "Quando eu tomo o coquetel, é como se estivesse comendo um cachorro vivo. E o cachorro me come por dentro", disse a um amigo.
À tarde, vizinhos repararam que a música, sempre alta no segundo andar do prédio da Rua Nascimento Silva, havia cessado. E os fãs não deixaram de reparar: a frase URBANA LEGIO OMNIA VINCIT (A Legião Urbana tudo vence, em latim), estampada no encarte de todos os discos da banda, estava ausente de A Tempestade, seu último álbum.
Brigas - O criador da "geração coca-cola" deixou o mundo sem fazer as pazes com a cidade onde foi criado e onde iniciou sua carreira. Desde 1998, quando um show do Legião Urbana terminou em confusão, Renato Russo se negava a cantar na capital do país. "Não toco mais em Brasília", repetia várias vezes para os amigos. Para completar, ele passou pelo constrangimento de ser vaiado ao dar uma canja num bar durante a apresentação de uma banda de blues.
Sua mãe recebia ligações diárias de fãs. "É incrível o carinho que eles têm pelo meu filho. Sentem muita falta dele e me pedem todo tipo de coisa. Um dia, uma menina me ligou desesperada pedindo os óculos do Júnior. Infelizmente, nem que eu cortasse em pedacinhos de todos os tapetes e das cortinas da casa dele não daria para atender a todo mundo".