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Divulgação
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O HERÓI
Pedro Cardoso fica em dúvida: age em seu benefício ou a favor dos
pobres? |
Um filme mostra fôlego para existir além da tela e
após a sessão quando, mesmo sem estourar nas bilheterias, torna-se
motivo de discussões entre espectadores com opiniões opostas. Assim
acontece com Redentor. Embora conte com um público abaixo da
expectativa, com menos de 200 mil espectadores em quatro semanas, a
sombria comédia social - que não possui nenhuma religiosidade além do
Cristo Redentor como personagem - anima mesas de bar e fóruns
na internet.
Há quem o considere um fracassado projeto de
comédia acessível (ainda que cinema popular hoje, no Brasil, seja
destinado quase exclusivamente à elite econômica). Há ainda quem o
acuse de ser publicitário, talvez por ter iluminação e finalização
caprichadas. E existem os que valorizam a habilidade da paródia
operística sobre a convivência entre classes, filmada de forma a
enaltecer o simbolismo e a artificialidade em sua visão cínica sobre o
papel da classe média na redenção dos pobres.
Redentor é o primeiro longa-metragem de
Cláudio Torres, filho do casal Fernando Torres-Fernanda Montenegro e
irmão da atriz Fernanda Torres, esta também roteirista do filme e
presente com os pais no elenco. Seus 40 minutos de Traição, no
qual participou com o episódio ''Diabólicas'', eram os mais bem feitos
da Conspiração Filmes, produtora da qual é um dos 16 sócios e dez
diretores. Ao contrário de alguns de seus parceiros, Torres não se
limita a fazer bonitinho e bem feito. Ele transforma o visual
elaborado em energia estética e desconforto.
Redentor trata da crise moral de um
jornalista de classe média, Célio Rocha (Pedro Cardoso), ressentido
pela perda do apartamento da família. De repente, surge uma
encruzilhada. Ele pode se beneficiar da aliança com um rico amigo de
infância, Otávio Sabóia (Miguel Falabella), filho do homem responsável
pelo fim do sonho do condomínio próprio. Ou também pode denunciá-lo
por suas sujeiras como empreiteiro. Enquanto engasga com a dúvida,
recebe a intervenção divina. Esta o leva a tomar o partido dos pobres.
Inicia-se uma jornada pela redistribuição de renda, durante a qual vai
preso e faz milagre.
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''Redentor é filho do Collor. Os
diretores vindos de comerciais foram beneficiados pela abertura
para a importação de equipamentos de finalização. Collor acabou
com o cinema e o ajudou a renascer''
CLÁUDIO TORRES |
A religião não comparece como questionamento. ''Não
acho que Deus exista, mas gostaria de que existisse'', afirma Torres.
''Deus na história é só a consciência do personagem, porque a
diferença entre certo e errado virou ética individual. Isso gera
confusões sobre o conceito de justiça. E a questão social no Brasil -
mostro no filme - depende de a elite e a classe média abrirem a
mala.''
Em nome da obra, Torres matou o pai no filme,
justamente aquele que, em sua formação, sempre foi mais formal, o bom
exemplo. Na cena da morte, Torres, o filho, gritava para Torres pai:
''Morre! Fecha o olho''. Dificuldade maior foi a hora de editar a
cena. Sentiu mal-estar. Quem liberou foi a mãe: ''Na arte, pode tudo.
Mata mesmo!''
Cláudio Torres primeiro foi empresário da noite.
Trabalhou com alguns de seus atuais sócios na boate Dr. Smith, em
Botafogo. Tornou-se diretor de arte, fez cenário para shows e teatro,
desenhou storyboard para publicidade e cinema. Passou para a direção
de clipes e documentários musicais quando se tornou um dos fundadores
da Conspiração Filmes, em 1991. Sua revelação na atividade veio com
''Diabólicas'', seu episódio em Traição.
A linguagem artificial e sombria, tanto em
''Diabólicas'' como em Redentor, é sintoma de sua formação,
desenvolvida em frente a filmes de terror. Torres não procura a
verdade na rua, como é comum nas experiências do cinema moderno
(neo-realismo, Nouvelle Vague, Cinema Novo). Prefere levar a realidade
para o estúdio, assumir a farsa e buscar a verdade no mundo recriado.
A senha são os primeiros movimentos da ópera O Guarani, ainda
nos letreiros iniciais, seguidos de palmas enquanto são creditados os
patrocinadores. Não haverá ópera alguma na história. Trata-se apenas
de uma forma de mostrar que se seguirá um espetáculo assumido como
total encenação.
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Eduardo Monteiro/ÉPOCA
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ESTILO
Cláudio Torres prefere levar o mundo para o estúdio a ir com a
câmera para a rua |
''Gosto do falso, de ficção científica, de sair da
realidade. Mas filmo em estúdio também porque é mais fácil para manter
controle sobre a filmagem. Sofro com imprevistos gerados por sol e
chuva'', explica o diretor. Ao construir personagens simbólicos e
tratar a realidade como paródia, Cláudio Torres propõe o encontro do
Cinema Novo com a chanchada (as do cinema e as dos programas de TV, na
linha TV Pirata). Suas influências mais determinantes vão desde
os santos de casa, como Joaquim Pedro de Andrade (Macunaíma) e
Arnaldo Jabor (Tudo Bem), até os modelos estrangeiros, como
Terry Gilliam e seu ídolo máximo, Stanley Kubrick. Ele se orgulha de
ter visto 2001: Uma Odisséia no Espaço mais de 20 vezes.
Mesmo com um estilo pouco convencional, Torres jura
que, na associação com a Globo Filmes e no contato com Daniel Filho
(''o olho artístico'' da produtora), não teve de ceder nada. ''Achava
que o Daniel, pela fama de autoritário, era um monstro. Então deixei
claro que o filme deveria ser doido e sombrio, não uma comédia suave
com Pedro Cardoso e Miguel Falabella. Ele topou e, no roteiro e na
montagem, deu sugestões, sempre positivas.'' O mais importante é que,
na tela, a guerra de classes, tratada com ironia, aquece os debates. |