O PSICOPATA

 

 

O psicopata é bem conhecido pela cultura popular, um assíduo freqüentador de manchetes de jornais e de programas sensacionalistas. Mas o que o senso comum não sabe é o que se passa em sua alma. De origem grega, psyché, alma; path, sofrimento, a psicopatia indica o doente da alma ou enfermo mental. Alguns acham mais adequado o termo sociopatia, mas muitos deles são conhecidos como ‘serial killers’ – assassinos em série. Além destes, muitos outros criminosos coléricos têm características inerentes a esse distúrbio psíquico. O traço que distingue esse enfermo dos psicóticos é que o psicopata é muito perverso. Ele está sempre atualizado e antenado com a realidade, mas seu superego – aquele sensor que todos temos em nossa mente – está ausente, e isso o priva de qualquer culpa.

A Organização Mundial de Saúde inclui em sua classificação de patologias essa doença, sob a expressão “distúrbio da personalidade dissocial”. Estes pacientes não conseguem se submeter a regras sociais, a convenções e não levam em conta o que sentem os outros. Eles estão sempre centrados em si mesmos, nas suas necessidades, revelam emoções sem nenhuma densidade, carecem de uma autopercepção, controlam muito mal os seus impulsos, não lidam bem com frustrações e partem para a agressão com facilidade, são irresponsáveis, não exprimem remorso nem ansiedade relativamente ao seu comportamento. Manipulam habilmente as outras pessoas e demonstram um cinismo perturbador, revelam-se incapazes de amar. Além disso, os psicopatas mentem, roubam, enganam, fraudam, abandonam suas famílias, põem em risco suas vidas e as dos outros. Quem espera encontrar um psicopata apenas nas expressões ferozes e nos crimes absurdos, pode se surpreender ao observar um outro estilo, o da criatura charmosa e simpática, que parece ser regido pela razão, mas que não hesita em cometer um assassinato quando isso atende às suas conveniências.

Há algumas polêmicas de foro judicial, sobre como tratar criminosos psicopatas. Alguns sustentam que, mesmo doentes, eles estão conscientes do que fazem e poderiam evitá-lo. Geralmente este paciente não tem recuperação e quando dá início a uma série de assassinatos violentos, não cessa mais de cometê-los, portanto só uma prisão perpétua pode contê-lo. Ele não tem condições de conviver socialmente, pois não aprende com seus erros nem com os castigos aplicados. Os psicopatas procuram dissimular seu comportamento quando se dão conta de que a sociedade não o aceita, mas isso não significa que eles se modificaram.

Normalmente eles são muito inteligentes e sabem como esconder os traços de sua personalidade. No cotidiano, estes indivíduos não revelam possuir outros distúrbios psíquicos, e mostram-se até calmos e aparentemente normais no relacionamento social. Falam bem e muitas vezes tornam-se líderes de suas comunidades. Mesmo após um longo convívio, são poucos os que conseguem enxergar seu aspecto sombrio. Assim, eles conseguem eficazmente manter uma vida dupla.

Na verdade, uma boa parte das pessoas com este distúrbio consegue se conter e não se tornar um criminoso – alguns políticos corruptos, líderes inescrupulosos, seres agressivos e que cometem abusos, entre outros. Esta doença pode ser diagnosticada precocemente. Ela tem início na infância ou na adolescência e persiste ao longo da vida – é possível detectar essa enfermidade em torno dos 15 ou 16 anos. É só lembrar dos casos de adolescentes ou até mesmo crianças que promovem massacres nas escolas ou matam a própria família.

Psicopata: você conhece um

Estudo mostra que pessoas com desvio de caráter e comportamento problemático podem sofrer de "psicopatia comunitária"

PAULA MAGESTE

 


 


 

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Adolescentes rebeldes, maridos que não param no emprego, mulheres permanentemente endividadas, jovens que não conseguem concluir nenhum curso. Há 15 anos, o consultório do neurologista carioca Ricardo de Oliveira Souza era a última esperança de famílias às voltas com 'pessoas-problema'. O médico conta que seus diagnósticos iniciais eram depressão, transtorno bipolar ou distúrbio de déficit de atenção. 'Cheguei a dizer a uma mãe que o problema do filho dela era falta de limite', arrepende-se. Infelizmente, o veredicto de muitos desses casos é bem mais complexo e deverá causar polêmica - como todas as descobertas relacionadas ao cérebro - a partir do momento em que for apresentado à comunidade científica durante a conferência Neurologia da Violência e da Agressão, de 10 a 12 de junho, no Rio de Janeiro.

Oliveira vai compartilhar com colegas do mundo todo os resultados preliminares de seus estudos sobre o mapeamento das emoções no cérebro, realizado em parceria com o neurorradiologista Jorge Moll Neto. O trabalho é inédito e foi mostrado a ÉPOCA com exclusividade. Oliveira vai apresentar o conceito de 'psicopata comunitário', aquele indivíduo que pode não ser um serial killer, mas causa estrago por onde passa. 'É gente que nunca foi presa, mas que tem muito em comum com os psicopatas mais perigosos, desde traços de comportamento até o funcionamento de circuitos cerebrais', alerta. Podem estar nessa categoria tipos como o malandro golpista 171, o sujeito que não tem emprego e vive de rolo, aquele que cultiva amizades por interesse e descarta as pessoas depois de obter o que deseja, o sujeito que vive de explorar a tia velhinha, o executivo inescrupuloso que desfalca a firma. Este último, também conhecido como psicopata corporativo ou do colarinho-branco, será o tema da conferência, no Rio, de um dos maiores especialistas do mundo, o canadense Robert Hare.

Comportamentos que parecem falhas morais podem ser doença

Pouco depois de receber os pacientes-problema em consultório, Oliveira começou a dar atendimento psiquiátrico no Instituto Philippe Pinel e pôde acompanhar de perto psicopatas clássicos, aqueles que violam repetidamente os direitos alheios, sem remorso. Em casos extremos, matam a sangue-frio, com requintes de crueldade, sem medo nem arrependimento. 'Comparei com meus pacientes e vi que existia uma semelhança', conta. Para tirar a prova, Oliveira aplicou o teste de verificação de psicopatia (PCL) elaborado por Hare, e utilizado pelo FBI para diagnosticar serial killers. Constatou que muitos freqüentadores de seu consultório preenchiam vários quesitos do teste, até então utilizado quase unicamente em criminosos. 'Percebi que aquelas pessoas-problema também eram psicopatas. Não faziam picadinho de ninguém, mas agiam de maneira agressiva, sem moral, como parasitas, prejudicando muita gente.'

Nos últimos cinco anos, Oliveira e Moll avançaram nesse mapeamento. Os dois classificaram os principais tipos de agressividade encontrados em 279 pessoas com distúrbios neuropsiquiátricos. Por meio de um teste desenvolvido por Moll, batizado de Bateria de Emoções Morais (BEM), e com a tecnologia da ressonância magnética funcional, concluíram que o cérebro de alguns indivíduos responde de forma diferente da de uma pessoa normal quando levado a fazer julgamentos morais, que envolvem emoções sociais, como arrependimento, culpa e compaixão. Diferentes das emoções primárias, como o medo, que dividimos com os animais, as sociais são mais sofisticadas, exclusivas dos humanos - têm a ver com nossa interação com os outros. Os resultados preliminares do estudo sugerem que os psicopatas têm muito pouca pena ou culpa, dois alicerces da capacidade de cooperação humana. Mas sentem desprezo e desejo de vingança. 'As imagens mostram que há pouca atividade nas estruturas cerebrais ligadas às emoções morais e às primárias e um aumento da atividade nos circuitos cognitivos. Ou seja: os psicopatas comunitários, assim como os clássicos, funcionam com muita razão e pouca emoção', traduz Oliveira.

 

LISTA DE SINTOMAS
Elaborada pelo canadense Robert Hare, ela é um instrumento importante de diagnóstico (seu uso isolado, no entanto, não basta para determinar se alguém é psicopata ou não)

Desembaraço/charme superficial
Sentimentos insuflados de importância pessoal
Busca por estimulação/sensibilidade à monotonia
Mentira patológica
Manipulação e chantagem
Ausência de remorso ou culpa
Emoções superficiais
Ausência de empatia com os outros
Estilo de vida parasita
Controles comportamentais precários
Promiscuidade sexual
Problemas graves de comportamento na infância
Ausência de objetivos de longo prazo
Impulsividade
Irresponsabilidade
Incapacidade de se responsabilizar por suas ações
Casamentos/relacionamentos de curta duração
Delinqüência juvenil
Violação de condicional
Versatilidade criminal

#Q:Psicopata: você conhece um - Continuação:#

É claro que todo mundo tem seu dia de fúria e um pecado para esconder - uma trapaça no jogo, uma mentira, uma baixaria no trânsito. Estar agressivo e violento é muito diferente de ser agressivo e violento ou, em última análise, um psicopata. A doença se caracteriza pela repetição, desde a infância ou há pelo menos dois anos, de atos anti-sociais que lesam os outros, sem remorso nem culpa. 'O psicopata assassino é frio e calculista, mas o comunitário é afável, agradável, sedutor, carinhoso. A gente consegue reconhecê-lo quando algo dá errado e ele fica agressivo', destaca Oliveira.

Essa ampliação do conceito de psicopatia para além dos muros das prisões leva a uma conta pouco animadora. Se a doença, em sua forma mais crônica, afeta 3% da população masculina e cerca de 1% da feminina (mais que o diabetes, com 1% a 2%), os psicopatas comunitários devem ser bem mais numerosos. Além disso, eles passam muito bem por cidadãos comuns com pequenos problemas de conduta ou falhas de caráter. Principalmente em sociedades mais permissivas, como a do Brasil, que, não por acaso, durante muito tempo foi a terra do jeitinho. 'Não acredito que existam mais psicopatas comunitários aqui do que nos Estados Unidos, mas, num sistema que reprime a violência, eles vão ter menos oportunidades', pondera Oliveira. 'Eles fazem a festa justamente onde a estrutura social não é muito definida: em mudanças de regime, como paladinos da justiça; nas igrejas, como sedutores líderes religiosos; na política, nos ambientes ligados ao misticismo.'

 

MAPEAMENTO DAS EMOÇÕES
Indivíduos normais e psicopatas comunitários foram submetidos
ao teste Bateria de Emoções Morais (BEM) enquanto
eram colhidas imagens de seu cérebro por meio de
ressonância magnética funcional

Quando uma pessoa normal (à esq.) faz julgamentos morais, ativam-se as áreas pré-frontais (laranja e roxo), responsáveis pelos aspectos cognitivos - frios e racionais - do julgamento. Também são ativados o hipotálamo (azul), relacionado às emoções básicas, como raiva e medo, e o lobo temporal anterior (vermelho), ligado às emoções morais, tipicamente humanas. Resultados preliminares mostram que, no cérebro do psicopata (à dir.), diminui sensivelmente a ativação das áreas relacionadas tanto às emoções primárias (azul) quanto às morais (vermelho) e aumenta a atividade nas áreas pré-frontais (laranja e roxo), ligadas aos circuitos cognitivos, de razão pura
Infográficos: Letícia Alves

O estudo de Oliveira e Moll será publicado no fim do ano, e os pesquisadores pensam em criar uma cartilha para ajudar o cidadão comum a reconhecer e se proteger dos até então incógnitos psicopatas comunitários. 'A defesa é negar empréstimos, não deixar que ocupem posições de decisão, não os mandar fazer pagamentos nem lhes confiar objetos de valor', diz Oliveira. Em termos científicos, outro desdobramento seria um teste diagnóstico para detectar precocemente indivíduos com potencial agressivo e violento. 'Pessoas com tendências anti-sociais poderiam ser identificadas e até reabilitadas antes de causar danos', afirma Moll. Mais controvérsia à vista: conhecer os circuitos danificados no cérebro do potencial psicopata permitiria fazer intervenções cirúrgicas e desenvolver drogas que estimulassem regiões específicas, alterando seu comportamento. 'Isso é muito delicado, e cabe à sociedade discutir que uso será dado a essas novas ferramentas', pondera o neurorradiologista.

O conhecimento é bom, mas o cenário que ele desenha lembra momentos pouco inspirados da História, como os primórdios da Psiquiatria, com a onda de lobotomias e a política de higienização dos nazistas. Lembra também Minority Report, livro de ficção científica de Philip K. Dick, transformado em filme por Steven Spielberg, em que se prendia o assassino antes de ele cometer o delito. 'Vai haver uma grande polêmica, uma discussão ideológica com argumentos de nazismo para baixo', reconhece Oliveira. 'Mas a possibilidade de identificar precocemente um psicopata é reconfortante para o cidadão normal, que sai para trabalhar e quer voltar vivo para casa.'

 

''A família adoece''
O depoimento do pai de uma psicopata comunitária

''Tenho três filhas, e todas foram criadas nos melhores colégios do Rio de Janeiro, com amparo religioso. A do meio ia muito bem até entrar na faculdade. Largou um curso, começou outro, que largou também. Saía à noite todo dia, bebia, levava multas de trânsito, punha os pontos na carteira de todo o mundo. Também não queria saber de trabalhar. Inventou de morar num sítio, e eu achei que era um momento de crescimento pessoal dela, de independência. Mas depois tive de resgatá-la, pois só participava de raves e se drogava. Voltou a morar aqui, vivia de biscate e de baladas. Acordava todo dia às 3 da tarde. Uma vez, trouxe dois pivetes de rua para casa. Colocou em risco a vida de todos nós. Eu resolvi tirar o carro dela e aí ela ficou agressiva comigo. Ela sempre se irrita quando eu a contrario. Procuramos os Narcóticos Anônimos, psicoterapia, tudo, para ver onde tínhamos errado. Fomos vendo que independia de nós. Nossas outras filhas têm vida normal. A do meio se acha normal, diz que a sociedade é que é complicada. Agora estamos tentando outro tratamento. Fiquei assustado com o diagnóstico de psicopata comunitária, porque ela é muito doce e cativante. Mas aceito qualquer coisa que possa reverter esse quadro.''

#Q:Os comportamentos agressivos-violentos:#

TIPOS DE COMPORTAMENTO AGRESSIVO-VIOLENTO

Todo o mundo sente raiva, é agressivo ou perde o controle de vez em quando. O que diferencia a pessoa normal da psicopata são a intensidade e a freqüência das crises, a desproporção entre o motivo da explosão e a violência da reação. Os comportamentos ao lado são síndromes (conjuntos de sintomas) que podem ter diversas causas - de uma simples noite maldormida a depressão. Mas, nos casos extremos, indicam psicopatia


1) Síndrome de descontrole episódico: o sujeito tem pavio curto, rompantes que podem ser motivados por coisas tão irrelevantes quanto uma colher que cai no chão. Durante o surto, ele perde o controle, grita, ofende, vai na ferida, é mordaz. É capaz de agressão física e até de matar alguém. Depois da crise fica cansado, envergonhado, moralmente arrasado. No caso das mulheres, há um subtipo, o descontrole verbal episódico: elas falam sem parar, de forma agressiva. Também chamado de distúrbio exclusivo intermitente, antes era conhecido como embriaguez patológica, porque a crise pode ser deflagrada por pequenas doses de álcool. Há tratamento com inibidores de recaptação de serotonina (drogas da família do Prozac).
Exemplos: Renato Mendes, vivido por Fábio Assunção, em Celebridade; pitboys, que não necessariamente procuram briga, mas reagem violentamente por muito pouco

2) Indivíduo continuamente agressivo: encrenqueiro, tende a reagir com agressão a tudo. É um perigo no trânsito, porque procura confusão, provoca, pode até matar. Esse tipo e o descontrolado episódico são passionais: seus atos são profundamente carregados de ódio e ira.
Exemplos: skinheads (foto) e integrantes de gangues, que saem procurando briga
3) Agressividade fria: é o comportamento do psicopata clássico, capaz de cometer atrocidades sem nenhum medo, culpa nem remorso. Calculista, premedita seus crimes. É sádico, tem prazer na dor do outro.
Exemplos: Fernandinho Beira-Mar, Elias Maluco (foto), Nero, Calígula, Bonnie & Clyde
4) Irritação defensiva: ocorre quando a pessoa tem dor ou dorme mal, por exemplo, e responde de forma ríspida a qualquer estímulo. É o padrão mais freqüente de agressão. Pode ser sintomático de uma distimia, uma depressão contínua e discreta. Chamada também síndrome do mau humor crônico. Tratável com antidepressivos.
Exemplo: o Zangado da Branca de Neve
Fotos: divulgação TV Globo, Getty Images, O Globo e reprodução

O Cérebro do Psicopata

Renato M.E. Sabbatini, PhD

Introdução

 

Almas Atormentadas, Cérebros Doentes

Emocionalmente Insensíveis

Para Saber Mais

O Autor

 

 
Introdução

A maioria das pessoas é incapaz de entender como uma personalidade antisocial e criminosa, tal como a de um "serial killer" (assassino serial), é possível, em um ser humano como nós.

Não são apenas os assassinos seriais, mas uma grande proporção de criminosos violentos em nossa sociedade (em torno de 25% dos prisioneiros) mostram muitas características do que a psiquiatria chama de "sociopatia", um termo melhor e mais preciso do que psicopatia. A DSM-IV, o importante manual de diagnóstico usado por psicólogos e psiquiatras, define um distúrbio mais geral, denominado mais apropriadamente, "distúrbio da personalidade antisocial" (DPA) e lista suas principais características, que podem ser facilmente reconhecidas em indivíduos afetados. A Organização Mundial de Saúde também definiu sociopatia em sua classificação de doenças CID-10, usando o termo "distúrbio da personalidade dissocial".

Os sociopatas são caracterizados pelo desprezo pelas obrigações sociais e por uma falta de consideração com os sentimentos dos outros. Eles exibem egocentrismo patológico, emoções superficiais, falta de auto-percepção, pobre controle da impulsividade (incluindo baixa tolerância para frustração e limiar baixo para descarga de agressão), irresponsabilidade, falta de empatia com outros seres humanos e ausência de remorso, ansiedade e sentimento de culpa em relação ao seu comportamento anti-social. Eles são geralmente cínicos, manipuladores, incapazes de manter uma relação e de amar. Eles mentem sem qualquer vergonha, roubam, abusam, trapaceiam, negligenciam suas famílias e parentes, e colocam em risco suas vidas e a de outras pessoas. O pesquisador canadense Robert Hare, um dos maiores especialistas do mundo em sociopatia criminosa, os caracteriza como "predadores intra-espécies que usam charme, manipulação, intimidação e violência para controlar os outros e para satisfazer suas próprias necessidades. Em sua falta de consciência e de sentimento pelos outros, eles tomam friamente aquilo que querem, violando as normas sociais sem o menor senso de culpa ou arrependimento."

Os sociopatas são incapazes de aprender com a punição, e de modificar seus comportamentos. Quando eles descobrem que seu comportamento não é tolerado pela sociedade, eles reagem escondendo-o, mas nunca o suprimindo, e disfarçando de forma inteligente as suas características de personalidade. Por isso, os psiquiatras usaram no passado o termo "insanidade moral" ou "insanité sans délire" para caracterizar esta psicopatologia. Um sociopata clássico foi Donatien-Alphonse-François de Sade (1740-1814), um nobre francês cuja preferências sexuais perversas e novelas (tais como Justine) originaram o termo sadismo.

O indivíduo sociopata geralmente exibe um charme superficial para as outras pessoas e tem uma inteligência normal ou acima da média. Não mostra sintomas de outras doenças mentais, tais como neuroses, alucinações, delírios, irritações ou psicoses. Eles podem ter um comportamento tranqüilo no relacionamento social normal e têm uma considerável presença social e boa fluência verbal. Em alguns casos, eles são os líderes sociais de seus grupos. Muito poucas pessoas, mesmo após um contato duradouro com os sociopatas, são capazes de imaginar o seu "lado negro", o qual a maioria dos sociopatas é capaz de esconder com sucesso durante sua vida inteira, levando a uma dupla existência. Vítimas fatais de sociopatas violentos percebem seu verdadeiro lado apenas alguns momentos antes de sua morte.

O mais assustador é o fato que entre 1 e 4% da população é sociopata em maior ou menor escala. Claro, a maioria das pessoas com DPA não é criminosa e é capaz de se controlar dentro dos limites da tolerabilidade social. Eles são considerados somente como "socialmente perniciosos", ou têm personalidade odiosas, e cada um de nós conhece alguém que se ajusta a esta descrição. Políticos corruptos e cínicos, que sobem rapidamente na carreira, líderes autoritários, pessoas agressivas e abusadoras, etc., estão entre eles. Uma característica comum é que eles se engajam sistematicamente em enganação e manipulação de outros para ganhos pessoais. De fato, muitos sociopatas não-violentos e adaptados podem ser encontrados em nossa sociedade. Um estudo epidemiológico do NIMH registrou que somente 47% daqueles que eram caracterizados como tendo DPA tinham uma história de processo criminal significativo. Os eventos mais relevantes para estas pessoas ocorrem na área de problemas de trabalho, violência doméstica, tráfico e dificuldades conjugais severas. Muitas pessoas evitam indivíduos com este distúrbio de personalidade porque eles são irritáveis, argumentadores e intimidadores. Seu comportamento frequentemente é rude, impredizível e arrogante.

A sociopatia é reconhecida precocemente em um indivíduo: ela começa na infância ou adolescência e continua na vida adulta (o diagnóstico é possível em torno de 15 a 16 anos). Crianças sociopatas manifestam tendências e comportamentos que são altamente indicativos de seu distúrbio. Por exemplo, eles são aparentemente imunes a punição dos pais, e não são afetados pela dor. Nada funciona para alterar seu comportamento indesejável, e consequentemente os pais geralmente desistem, o que faz a situação piorar. Os sociopatas violentos mostram uma história de torturar pequenos animais quando eles eram crianças e também vandalismo, mentiras sistemáticas, roubo, agressão aos colegas da escola e desafio à autoridade dos pais e professores.

No entanto, apenas uma pequena fração dos sociopatas se desenvolve em criminosos violentos, estrupradores e assassinos seriais. Em casos mais severos, a doença pode evoluir para canibalismo e rituais sádicos de tortura e morte, frequentemente de natureza bizarra. Há um amplo consenso que estas formas extremas de sociopatia violenta são intratáveis e que seus portadores devem ser confinados em celas especiais para criminosos insanos por toda a vida.Um sociopata típico deste tipo foi retratado por Dr. Hannibal "O Canibal" Lecter no filme e livro "O Silêncio dos Inocentes".

Os próprios sociopatas se descrevem como "predadores" e geralmente são orgulhosos disto. Eles não têm o tipo mais comum de comportamento agressivo, que é o da violência acompanhada de descarga emocional (geralmente raiva ou medo) e nem ativação do sistema nervoso simpático (dilatação das pupilas, aumento dos batimentos cardíacos e respiração, descarga de adrenalina, etc). Seu tipo de violência é similar à agressão predatória, que é acompanhada por excitação simpática mínima ou por falta dela, e é planejado, proposital, e sem emoção ("a sangue-frio"). Isto está correlacionado com um senso de superioridade, de que eles podem exercer poder e domínio irrestrito sobre outros, ignorar suas necessidades e justificar o uso do que quer que eles sintam para alcancar seus ideais e evitar consequências adversas para seus atos. Por exemplo, em Justine, o personagem que incorpora o Marquês de Sade diz que tudo é justificado quando o objetivo é a gratificação de seus sentidos, e que a ele é permitido usar outros seres humanos da forma como ele desejar para aquele propósito.

O fato dos sociopatas possuirem pouca empatia para o sofrimento dos outros tem sido demonstrado experimentalmente em muitos estudos, os quais têm mostrado que eles exibem um processamento anormal de aspectos emocionais da linguagem, e que geralmente eles possuem resposta fisiológica fraca (no sistema nervoso autônomo) a imagens, palavras e situações de alto conteúdo emocional. Como acontece com os predadores, os sociopatas são capazes de uma atenção extremamente alta em certas situações.

O distúrbio sociopático também está altamente associado com a incidência de abuso de drogas e alcoolismo. De fato, esta associação piora os aspectos do comportamento sociopático, assim considera-se que eles são mutuamente reforçadores.

O DPA é relativamente fácil de diagnosticar. O mesmo Dr. Hare desenvolveu uma escala de avaliação, chamada Psychopathy Checklist-Revised (PCL-R), que é útil para este propósito, particularmente na avaliação de criminosos (a população forense). Você pode testar a si próprio usando uma escala on-line disponível no Internet Mental Health.

Sociopatas violentos ocasionam um alto preço para a sociedade humana. Nos EUA, mais da metade dos policiais mortos por criminosos eram vítimas de sociopatas. O DPA é comum entre dependentes de drogas, mulheres e crianças, gangsters, terroristas, sádicos, torturadores, etc. Além disso, "os psicopatas são aproximadamente três vezes mais propensos a recidivar - ou quatro vezes mais propensos a recidivar violentamente do que os não sociopatas", de acordo com um estudo recente. Citando novamente o Dr Robert Hare: "É enorme o sofrimento social, econômico e pessoal causado por algumas pessoas cujas atitudes e comportamento resultam menos das forças sociais do que de um senso inerente de autoridade e uma incapacidade para conexão emocional do que o resto da humanidade. Para estes indivíduos - os psicopatas - as regras sociais não são uma força limitante, e a idéia de um bem comum é meramente uma abstração confusa e inconveniente".

Além disso, sob situações de stress, tais como em guerras, pobreza geral e quebra da economia, surtos epidêmicos ou brigas políticas, etc., os sociopatas podem adquirir o status de líderes regionais ou nacionais e sábios, tais como Adolf Hitler, Stalin, Saddam Hussein, Idi Amin, etc. Quando eles alcançam posições de poder, eles podem causar mais danos do que como indivíduos.

Qual é a causa da sociopatia? Como o cérebro está envolvido? Como isto pode ser prevenido e tratado?

Estas são questões importantes para a humanidade, para a lei e medicina. A curva ascendente da violência sem sentido, frequentemente por pessoas jovens (a medida que o tempo passa, mais e mais jovens...), impõe um senso de urgência em obter respostas para elas.

Neste artigo exploraremos o que a neurociência sabe sobre este distúrbio misterioso.