PMDB também lança candidato a presidente
da Câmara e embola ainda mais o cenário


 

Hoje, o PT. Amanhã, o PMDB. Os dois partidos anunciarão ao mundo que terão candidatos a presidente da Câmara dos Deputados.

No PT está tudo encaminhado para a unção de Arlindo Chinaglia (SP) como o nome da sigla. Estaremos todos diante de uma situação esdrúxula. Chinaglia é líder do governo Lula. Mas Lula tem dito a todos que deseja Aldo Rebelo (PC do B-SP) reconduzido ao cargo de presidente da Câmara.

Em resumo, o governo Lula tem um líder na Câmara que encaminha sua candidatura contra o nome preferido do Palácio do Planalto.

Já no PMDB a história é bem outra. A sigla elegeu o maior número de deputados em outubro. Terá 89 cadeiras. Pela tradição, a maior bancada lança sempre um candidato. Em tese, é quem deve ganhar.

Amanhã, o PMDB fará uma reunião de sua bancada. No mínimo, haverá uma declaração forte de que a sigla terá candidato próprio a presidente da Câmara. No máximo, o nome do candidato já será anunciado nessa própria reunião.

Os nomes possíveis são Eunício Oliveira (CE) e Geddel Vieira Lima (BA). Eunício foi líder do PMDB na Câmara e ministro das Comunicações de Lula. É, digamos, um lulista de primeira hora. Geddel foi fernandista e serrista até quando pôde. Depois, sucumbiu ao PT por conveniências políticas locais –na Bahia, o PSDB é raquítico e não serve como aliado. Geddel é, portanto, um cristão-novo no petismo.

Nos últimos dias, os jornais têm anunciado uma conversa avançada entre Geddel e Arlindo Chinaglia. Algo como: Geddel abre mão de candidatura se for a favor do PT. Como o nome do PT é Arlindo, a leitura foi que Geddel já entrou na disputa com o pé no freio. Pior, o noticiário avançou dizendo que o peemedebista deseja, ao final do processo, uma vaga de ministro –o que ele nega publicamente, mas sem forças para impedir a propagação da versão.

"Acabou de entrar, nem bem chegou e já é candidato a presidente da Câmara e a ministro, em nosso nome? Vamos com calma!", dizem os governistas do PMDB sobre Geddel.

O fato a ser dito é o seguinte: a eleição para a presidência da Câmara está enroladíssima. Não há sinal de pacificação à vista.

Vive-se um paradoxo. Os deputados todos dizem que a Câmara é independente, mas só enxergam uma pessoa no planeta Terra capaz de aparar todas as arestas: Lula. Só que aí haveria uma interferência direta de um Poder (o Executivo) sobre o outro (o Legislativo).

Hoje, Chinaglia desponta como o favorito. O petista tem a seu favor o fato de ter construído uma sólida relação de confiança com os líderes dos outros partidos (sobretudo a trinca mensaleira: PP, PTB e PR, o ex-PL). Está, em certa medida, emparedando Lula com o fato consumado de hoje.


Mas Chinaglia tem três fraquezas principais. Primeiro, sua candidatura está sendo ligada ao grupo de José Dirceu, que pretende uma anistia da Câmara (é uma certa injustiça, pois Chinaglia não é do grupo dirceusista no PT nem baseia sua campanha nessa plataforma).


O segundo problema de Chinaglia é o fato de não ser um deputado popular no baixo clero. Até Virgílio Guimarães (PT-MG) tem mais simpatia do que ele entre os desconhecidos do salão verde.

Finalmente, o terceiro "defeito" do petista é talvez uma de suas virtudes. Saiu na frente, posicionou-se e está constrangendo o Planalto além da conta (mais por arrogância dos gênios do Palácio do que outra coisa). Se Chinaglia vencer, será necessário dizer que Lula teve de recuar. Em política, todos detestam esse verbo –"recuar". Por essa razão, o petista mais à frente talvez tenha de ser apresentado a alguma alternativa que libere o lugar para um terceiro nome dentro do próprio PT. Dureza...

Para concluir, como PT e PMDB estão se posicionando fortemente nessa disputa, só há uma saída à vista para Lula, se é que o presidente continuará a insistir com o nome de Aldo Rebelo. A solução para Lula será chamar PT e PMDB para conversar e dizer, com todas as letras: "Eu quero reeleger o Aldo. Vou compensar vocês em troca do apoio que derem a ele". Por "recompensar", entenda-se, ministérios e outros cargos relevantes.

O risco: não haver cadeiras suficientes para contentar todos os desiludidos nessa história. A cada dia que passa, mais e mais políticos vão se julgar no direito de receber compensações do Planalto em troca de apoio a quem quer que venha a ser o candidato governista à presidência da Câmara.