Parada Gay espera ter atraído 3,5 milhões

Luís Felipe Soares
Do Diário do Grande ABC

Considerado um dos maiores eventos populares do ano, a 13ª edição da Parada do Orgulho LGBT de São Paulo parou ontem mais uma vez a Avenida Paulista. A via foi interditada durante quase todo o dia para que 3,5 milhões de participantes - na expectativa dos organizadores - pudessem levantar a bandeira Sem Homofobia, Mais Cidadania - Pela Isonomia dos Direitos. A escolha remete à tramitação no Senado do PLC (Projeto de Lei Complementar) 122/06, que torna a homofobia crime no Brasil.

Desde cedo, as vias de acesso já mostravam lentidão, com trânsito complicado. Estacionar o carro era praticamente impossível. Havia locais cobrando em média R$ 20 por vaga.

A parada estava programada para começar às 10h, horário que deu início à interdição da avenida, mas a festa de abertura ocorreu somente por volta das 12h.

Hino nacional - Uma apresentação musical, incluindo versão para o hino nacional, da transexual Mariana Munhoz, mestre-de-cerimônias do evento, abriu as festividades.

O mar de gente foi formado pelos mais diversos tipos de personagenss. Era possível encontrar figuras bem extravagantes, fantasiadas de super-heróis, plumas, máscaras, cabelos pintados e roupas mais do que incomuns. Foi o caso do publicitário Caio Souza, 30, que driblou o frio paulistano para ficar somente de calça e um par de asas. "Adoro me produzir e aproveito o dia da parada para extravasar todos os demônios", explica.

Mas os mais discretos também marcaram presença. Foi o caso do casal Douglas Ferraro, 27, e Thiago Cardoso, 22, que participam pela segunda vez e veem a festa de forma mais abrangente. "A parada significa um momento em que o homossexual pode se expressar sem problemas, nem que seja apenas por um dia", diz Cardoso. Segundo Ferraro, "eventos como este crescem cada vez mais. Espero que isso signifique também que o preconceito diminua".

Em família - Diferente do que a maioria da população imagina, nem só de gays vive a festa. Muitas famílias passavam pela rua aproveitando toda a agitação. "Não é perigoso, pelo contrário. É um pouco de Carnaval que podemos aproveitar no meio do ano, inclusive com os pequenos", relata a dona de casa Nanci Júlio, 40, referindo-se à companhia dos filhos Ana, 14, Any, 9, e Paulo, 5. "Achava meio esquisito, mas a alegria deles acabou me trazendo nesses últimos 5 anos."

Pela primeira vez, a aposentada Maria Conde Oliveira, 77, trouxe a irmã Florides Conde, 80, para conferir de perto a transformação da Avenida Paulista em pista de dança. Para ela, "a festa é supermovimentada e a turma é bem comportada. Via sempre pela TV e quis ver de perto este ano. Mas não volto outra vez não."

A multidão dividiu espaço com um total de 20 trios elétricos, incluindo o carro da ONG ABCD''S (Associação Brotar pela Cidadania e Diversidade Sexual), que trazia, entre outros convidados, a modelo Júlia Paes e o performático Léo Áquila. Todos os carros traziam possante equipamento de som com repertório dançante e cheio de energia.

Por volta das 14h, em questão de minutos a multidão pareceu ter duplicado de tamanho. O espaço ficou pequeno para que as pessoas pudessem transitar (desnecessariamente, já bastava se deixar empurrar pelo fluxo que seguia os trios). Um empurra-empurra ocorreu em frente ao Masp, causado pela chegada de uma ambulância ao local.

A parada teve seu fim por volta das 18h, quando os últimos carros chegaram à Praça Franklin Roosevelt.

Com o término da agitação, foi hora de os garis mostrarem serviço. Muito papel, latinhas e copos plásticos precisavam "desaparecer" até as 21h, quando terminaria a interdição do local.

Serra defende união homossexual, durante a Parada Gay de São Paulo

Da EFE

São Paulo, 14 jun (EFE).- O governador de São Paulo e líder nas pesquisas para a eleição presidencial no país no próximo ano, José Serra, defendeu hoje a união estável de pessoas do mesmo sexo durante a 13ª Parada do Orgulho Gay, que segundo seus organizadores, reuniu mais de três milhões de pessoas.

Em um encontro com líderes das comunidades homossexuais e com os organizadores da maior manifestação gay do mundo, Serra afirmou que é "propício" à união estável entre pessoas do mesmo sexo e adiantou: "Temos um projeto sobre isso, está realmente andando porque o apoiamos".

Os ativistas pediram ao político do PSDB um respaldo para que o Senado aprove a lei que tipifica a homofobia como crime e que já foi aprovada em primeira instância pela Câmara dos Deputados.

Alguns senadores fazem objeções aos artigos que proíbem pastores, sacerdotes e líderes religiosos a condenar o homossexualismo em programas de rádio e televisão, além da normativa judicial contra a discriminação homossexual em manifestações públicas.

A organização do evento previa a participação de 3,5 milhões de pessoas, mas fontes da Polícia Militar (PM) indicaram extra-oficialmente à Efe que o número chegou a cerca de três milhões de pessoas.

A caminhada começou na Avenida Paulista em frente ao Museu de Artes de São Paulo (Masp) e terminou na praça Roosevelt com um ato que terminou oito horas depois do grande desfile, o qual contou com 20 trios-elétricos e milhares de pessoas, em sua maioria disfarçadas.

A parada necessitou de resguardo terrestre e aéreo de 1.200 policiais, 900 banheiros públicos, 140 postos de primeiros socorros e 16 ambulâncias.

A cidade recebeu no fim de semana cerca de 400 mil turistas, 5% deles estrangeiros, e que deixaram para os cofres do setor cerca de R$ 200 milhões, segundo dados da SPTuris.

O lema da edição deste ano foi "Sem Homofobia, Mais Cidadania Pela Isonomia dos Direitos!" e homenageou os 30 anos do movimento homossexual no Brasil, que já ganhou o reconhecimento patrimonial e direitos de previdência social para cônjuges do mesmo sexo, entre outras reivindicações. EFE

Sem trios de boates, política avança na Parada Gay de SP

Sindicatos e entidades de defesa do ambiente e da saúde utilizam evento para divulgar ideias e atrair simpatizantes

Moacyr Lopes Junior/Folha Imagem
 

Bandeira do movimento gay é estendida na avenida Paulista

DANIEL BERGAMASCO
DA REPORTAGEM LOCAL

Sem trios de boates GLS, a Parada Gay de São Paulo reforçou o tom político em sua 13ª edição, realizada ontem, do meio-dia ao início da noite.
Foi a primeira vez em muitos anos que, em meio a reclamações sobre a tarifa de R$ 10 mil para desfilar, nenhuma casa noturna participou do evento.
A produção do clima de festa ficou, então, nas mãos dos carros de militantes. Eram grupos engajados não apenas em causas especificamente gays, mas em defesa do ambiente e da igualdade racial, além da promoção de igrejas e sindicatos.
A lei estadual antifumo (que proibirá o cigarro em locais fechados de São Paulo a partir de agosto) foi uma das "marcas" divulgadas no desfile. Frases em defesa da lei estampavam camisetas e bolas infláveis gigantes, em várias cores, que eram rebatidas entre a multidão. Também havia cartazes sobre o tema no trio da drag queen Salete Campari, um dos mais festejados do desfile, com artistas como Rogéria e Leão Lobo e grande presença de go-go boys (dançarinos sem camisa, em geral de sunga branca).
Em quase todos os 20 trios que atravessaram a parada (do parque Trianon, na avenida Paulista, até a praça Roosevelt, no centro, passando pela rua da Consolação), esses rapazes descamisados, as drag queens e outros artistas dividiam espaço com mensagens de engajamento. Um dos poucos exemplares de trio majoritariamente festivo, sem ativismo evidente, era o patrocinado pelo Disponível.com, site de relacionamentos voltado para o público GLS.
Com 17 cm de salto nas botas vermelhas, a drag queen Cindy Cristal se preparava para atravessar a parada no carro da CTB (Central dos Trabalhadores do Brasil). "Adoro participar dessa coisa mais cívica."
Ao seu lado, Wagner Fajardo, da CTB, explicava a que veio o trio da central, que fazia a sua primeira participação no evento. "Já somos a quarta central sindical do país, atrás de CUT (Central Única dos Trabalhadores), Força Sindical e UGT (União Geral dos Trabalhadores). Viemos mostrar que defendemos os direitos de todos os trabalhadores, gays ou não."
Representante da UGT, também em seu primeiro desfile, Cleonice Caetano celebrava a oportunidade. "A parada foi positivíssima para nós. O importante é mostrar aos trabalhadores que eles têm a quem procurar para garantir seus direitos."
A CUT também tinha trio elétrico, assim como sindicatos como os de telemarketing (Sintratel), de enfermeiros (Seesp) e de professores (Apeoesp).
Já a Comunidade Cristã Nova Esperança chamava a atenção pela militância no chão, com muitos representantes e cartazes. "Estamos aqui para mostrar que gay não é só boate mas também espiritualidade", dizia Esdraz Xavier, auxiliar de pastor na igreja.
Entre personalidades da política estiveram lá o prefeito Gilberto Kassab (DEM), o governador José Serra (PSDB) -que defendeu a união entre pessoas do mesmo sexo- e a ex-prefeita Marta Suplicy (PT).

Abaixo-assinado
Espinha dorsal do evento, o ativismo gay ficou parado em boa parte do evento. Com o tema "Não Homofobia", um caminhão de som na avenida Paulista convidava o público a participar de um abaixo-assinado que defende projeto de lei federal que torna crime discriminar homossexuais.
"Queremos sair daqui com um milhão de assinaturas", bradava um representante ao microfone. O grupo contava com a célebre lotação do evento, que neste ano voltou a tornar caóticos alguns pontos de passagem, como a esquina do Masp, onde houve um grande empurra-empurra. A Polícia Militar decidiu não divulgar estimativa de multidão. A organização esperava 3,5 milhões.