
HAVANA (AFP) - Raúl Castro, nomeado presidente de Cuba neste domingo, aos 76 anos, não tem o carisma de seu irmão Fidel, mas é o homem forte do esteio militar do regime, além de ser um realista, com o dom de organizador e gerador de consensos.
Estes 19 meses de governo provisório, em conseqüência de uma grave crise de saúde do comandante Fidel Castro, deram-lhe uma imagem de firme partidário da polêmica e da mudança, no lugar da do general enérgico e duro juiz mantida por décadas.
Raúl foi o general que implementou, nos anos de 1960, unidades militares que concentraram homossexuais e outras pessoas malvistas pelo governo, assim como o político que liderou o fechamento de uma revista de intelectuais, em 1971.
Há 10 dias aplaudiu e abraçou, publicamente, Antón Arrufat, um dos escritores marginalizados na política de censura das décadas 60 e 70, após ouvir seu discurso, em que criticou aquela época, na Feira do Livro.
Na simbólica festa de 26 de julho, Raúl pediu que se repare o mal feito e soltou a língua dos cubanos, estimulando-os a falar dos problemas "com sinceridade e valentia", "sem medo de qualquer tipo". Aos dirigentes, pediu que aprendam a ouvir.
Mais de cinco milhões de pessoas se reuniram em debates que duraram mais de dois meses, mas "sem impugnar o sistema", disse Raúl, em uma de suas raras aparições em público. Pragmático, pediu paciência e realismo para solucionar os problemas, já que "é preciso fabricar consensos".
Em dezembro, levantou preocupação em setores imobilistas, ao afirmar que o sistema "tem de se democratizar mais" e que, dentro do Partido Comunista, "é bom que haja diferenças", ainda que "não antagônicas".
Ele defendeu o sistema de partido único, mas advertiu: "se somos um partido, temos de ser o más democrático que existe".
Para as autoridades do governo, ele é, antes de tudo, um "fidelista". Segundo o chanceler Felipe Pérez Roque, "não há, no pensamento político de Fidel e Raúl, um milímetro de diferença".
Com bases de apoio no Partido Comunista, do qual é segundo-secretário, atrás de Fidel, e nas Forças Armadas, as quais comanda desde 1959 como ministro, Raúl tem, de acordo com analistas, poder e legitimidade para ser a "figura da transição" e liderar as mudanças e a transferência de comando para uma nova geração.
Os cubanos o vêem como um dirigente com os pés no chão, mais preocupado com os problemas diários da população do que com a política internacional, como fazia Fidel.
Em junho de 2007, surpreendeu os cubanos ao aparecer na televisão, quando, junto com seus quatro filhos (Débora, Mariela, Alejandro e Nilsa) e oito netos, depositou no sepulcro a urna com as cinzas de sua esposa, Vilma Espín, a mulher de mais alto escalão político em Cuba, ao lado de outro nicho com seu próprio nome.
Seu filho Alejandro é coronel do Ministério do Interior e seu braço direito. Mariela, uma reconhecida sexóloga, é defensora dos gays. Seu genro Luis Alberto Domínguez controla as finanças das Forças Armadas e seu neto Raúl Domínguez Castro é um inseparável companheiro.
De estatura mediana, sagaz, com andar decidido, gestos enérgicos e clareza de discurso, Raúl goza de aparente boa saúde, embora reconheça o peso da idade.
Nascido em 3 de junho de 1931, em Birán (sudeste), filho de pai galego, Angel Castro, e da camponesa Lina Ruz, Raúl é o quarto de sete irmãos, que esteve sempre e até agora, na retaguarda de Fidel.