Montadoras americanas enfrentam crise
intensa
Público rejeita carros de GM e Ford, que vendem cada vez menos
Danny Hakim
Em Detroit
Em apenas poucas semanas, os grandes planos que supostamente conduziriam a
General Motors e a Ford ao seu segundo século de existência desmoronaram.
As vendas da GM caíram acentuadamente neste ano, levando a grandes cortes de
produção e então ao alerta de que perderia US$ 850 milhões no primeiro
trimestre. Na semana passada, a Ford reduziu suas projeções de ganhos,
abandonando a meta base de lucro de seu plano de recuperação de três anos.
As ações da Ford caíram para o valor mais baixo em quase dois anos. Nesta
quinta-feira (14/04), em outro grande golpe, os sindicatos se recusaram a
permitir uma redução do invejável plano de saúde da GM para os funcionários. Se
isto não bastasse, as ações da GM caíram para o valor mais baixo em 12 anos.
As duas grandes gigantes do setor automotivo ofereceram muitas explicações, do
grande aumento dos custos da saúde até o preço elevado da gasolina e o aumento
das taxas de juros. Mas consumidores e especialistas no setor disseram que a GM
e a Ford perderam a direção por um motivo bem mais básico: não há pessoas
suficientes que gostem de seus carros.
"Eu ainda odeio comprar um carro estrangeiro", disse T.J. Penn, um empreiteiro
de pintura e placas de gesso que caminhava pelo pátio da Toyota nesta semana, em
Ann Arbor, Michigan. "Mas a qualidade e a confiabilidade torna difícil não
comprá-los."
Apesar dos empréstimos sem juros e descontos no valor de vários milhares de
dólares, a GM e a Ford estão perdendo terreno em vendas para concorrentes
perenes como a Toyota e novos rivais como a Hyundai, que estão acertando na
fórmula de produção de carros, construindo uma reputação de qualidade,
confiabilidade e apelo mais consistentes.
Mais preocupante, se Detroit transformou a picape em um produto de consumo
popular, as montadoras asiáticas agora estão entrincheiradas no mercado de
veículos utilitários esporte e seus sites estão concentrados nas picapes.
A GM e a Ford estão tendo tanta dificuldade para atrair o verdadeiro consumidor
americano que cerca de um terço de suas vendas vão para seus próprios
funcionários, parentes e amigos, ou para empresas de aluguel, com margem de
lucro minúscula.
No passado, tanto a GM quanto a Ford se saíram melhor quando ofereceram algo que
outros não tinham. Henry Ford criou um carro para as massas, o Modelo T, que era
feito de forma bem mais eficiente e tinha preço mais barato do que os carros
concorrentes.
A GM, o primeiro conglomerado automotivo, lutou para competir com a Ford até um
executivo despontar nos anos 20, Alfred P. Sloan Jr., que acreditava que a
amálgama de marcas da empresa --incluindo Chevy, Buick e Cadillac-- poderia ser
organizada para oferecer algo que a Ford não podia, muitas opções de escolha.
Hoje, ambas as empresas se encontram no temível meio, não oferecendo nem um
valor atrativo e nem uma beleza atraente, com exceção da nova versão popular do
Ford Mustang ou a ressuscitada linha Cadillac da GM. As montadoras podem
compensar muita coisa produzindo automóveis sedutores, e no momento os analistas
vêem algo como uma grande tempestade se aproximando, que exige um plano de
sobrevivência.
"Se eu estivesse no estúdio deles, eu estaria trabalhando 24 horas por dia em
modelos que me empolgassem quando eu passasse pela porta", disse Gerald Meyers,
um professor da Universidade de Michigan e ex-executivo-chefe da American
Motors, que foi comprada pela Chrysler. "É preciso haver empolgação no instante
em que o comprador passa pela porta. A decisão de olhar e comprar acontece muito
rapidamente."
Os custos crescentes da saúde também são um fardo esmagador porque a GM e a Ford
fornecem cobertura para 1,7 milhão de americanos, ou mais de 0,5% da população
total. Os preços de matéria-prima, gasolina e as taxas de juros também estão
subindo.
As duas empresas dominam no momento cerca de 45% do mercado doméstico, o centro
chave de lucro, uma queda em comparação a 58,4% uma década atrás, segundo o
informativo "Ward's Automotive", apesar de terem adquirido marcas européias como
Saab, Volvo e Jaguar neste ínterim.
A mãe de Penn trabalhava na "empresa do Ford", se referindo à empresa que era de
controle familiar. A idéia de comprar carros importados "estava fora de questão,
mas então eu tive um Subaru Forester, e era um grande carro". Agora ele tem uma
minivan Toyota Sienna e disse que está considerando trocar sua picape Ford F-150
por uma Tundra da Toyota.
"Muito disto se deve à engenharia e eles rodam por muito tempo", ele
acrescentou. "Parece que a tecnologia japonesa nos carros vale mais."
Muitos analistas vêem a prescrição para o sucesso na Chrysler, uma divisão da
montadora alemã DaimlerChrysler. A recente recuperação da empresa foi resultado
de ótimas vendas de uns poucos produtos-chave, particularmente o que se destaca
nas ruas, o sedã Chrysler 300 estilo Bentley.
"Por anos os carros americanos eram como o homem da Marlboro --havia um ideal de
liberdade, espaço, luxo e abundância", disse Clotaire Rapaille, um importante
consultor sobre o que faz os consumidores comprarem carros.
"As marcas estão sendo diluídas até se tornarem genéricas", ele acrescentou. "E
as pessoas sempre disseram que, se quisessem comprar carros genéricos, os
japoneses e coreanos os fazem melhor."
O que é pior é que os carros asiáticos nem mais são genéricos. Uma das
montadoras mais lucrativas, a Nissan, é agora amplamente considerada uma das
empresas de design mais ousado.
A GM e a Ford têm insistido nos últimos anos em fazer o que o vice-presidente da
GM, Robert A. Lutz, chama de carros "tenho que ter". Mas burocracias
entrincheiradas e pressões intensas para cortes de custos não produzem
facilmente elegância automotiva.
Os carros podem fracassar em sensibilizar várias frentes sensoriais. O novo sedã
Five Hundred da Ford foi criticado por utilizar o motor do envelhecido Taurus,
que carece de vigor; uma avaliação na revista "Car and Driver" lamentou que o
carro "apenas verte adiante". O jornal "Detroit Free Press" criticou o novo
Pontiac G6 da GM, um sedã anunciado como esportivo e excitante, pela "sensação
entorpecida" atrás do volante.
A pressão vem da BMW e da Mercedes, que agora vendem carros a partir de cerca de
US$ 30 mil, e das montadoras asiáticas que oferecem uma variedade de veículos
por menos de US$ 20 mil.
"Você quer empregar seu dinheiro em algo que lhe dará um retorno", disse
Nathaniel Nix, um pastor de 37 anos de uma igreja em Ypsilanti, um subúrbio de
Detroit, em uma entrevista nesta semana em uma revenda da Toyota. Nix, que foi
vendedor de carros tanto da Ford quanto da Toyota há mais de uma década, disse
que o maior valor de revenda da Toyota e a qualidade mais consistente tornam os
Toyotas um bom investimento.
E se as montadoras japonesas "eram tediosas" no passado, ele disse que agora
"estão fazendo um trabalho fantástico na área de estilo".
Nix está procurando um carro porque seu filho de 16 anos, que também se chama
Nathaniel, bateu o Corolla da família. Nathaniel está pressionando seu pai por
um xB, um utilitário esporte da nova marca jovem da Toyota, Scion, que parece um
forno de microondas sobre rodas.
Nathaniel gosta de carros americanos?
"O Cobra GT 67, o Boss 302 e o velho Charger", disse ele, fazendo uma lista de
antigos carros potentes de Detroit.
"E quanto aos novos?" perguntou seu pai.
"Hm", pensou seu filho por um momento. "Não, nenhum."
Enquanto a GM e a Ford perdem o interesse dos compradores americanos, a taxa de
desemprego no Estado de Michigan [onde ficam as sedes de GM e Ford], em 7,5%,
atualmente é a mais alta do país.
"Não é possível perder participação de mercado como a GM está perdendo, sabe
como é", disse Kenneth Shelton, um operador de máquinas de 49 anos na fábrica
Willow Run da GM, em Ypsilanti. A fábrica, que já produziu bombardeiros na
Segunda Guerra Mundial e coberturas para mais de 83 campos de futebol neste
subúrbio de Detroit, conta com apenas 3.800 trabalhadores no momento, em
comparação a cerca de 12 mil há duas décadas.
Shelton e sua esposa, Joy, se conheceram 20 anos atrás no relógio de ponto. Ele
estava batendo seu cartão para entrar, ela estava batendo para sair. Na época,
Willow Run era "como uma cidade que não parava nunca", disse Joy, 48 anos, uma
inspetora de qualidade. "Estava sempre agitada, com todos apenas trabalhando,
trabalhando, trabalhando, trabalhando. Era muito diferente de agora."
Agora, disse o marido dela, "eles nos atingem diariamente nos jornais. Nós
lemos. Nós lemos. Nós prestamos atenção".
"Empregos como este, onde é possível encontrar algo assim?"
Um sentimento crescente de frustração também é evidente nas salas dos
executivos. O presidente e executivo-chefe da GM, Rick Wagoner, que recusou os
pedidos de entrevista nas últimas semanas, sacudiu sua alta administração
norte-americana no mês passado, e sua empresa está cada vez mais no limite. Na
semana passada, a GM retirou seus anúncios do "Los Angeles Times", o maior
jornal em um dos mercados mais fracos da GM [Califórnia], após um colunista ter
dito que Wagoner devia ser demitido.
Os problemas da Ford vieram à tona na semana passada, quando a companhia reduziu
suas projeções de ganhos e abandonou a meta base de lucro de seu plano de
recuperação de três anos; suas ações caíram para o valor mais baixo em quase
dois anos.
Apesar da maioria em Wall Street não achar que a falência está no horizonte,
porque as empresas contam com reservas adequadas de dinheiro, os analistas
também não vêem nenhum caminho claro de recuperação. Os preços em elevação da
gasolina estão pesando nas vendas dos principais produtos de Detroit, como os
Explorers da Ford e os Chevrolet Suburbans da GM.
Em seu alerta de lucros na semana passada, a Ford citou como fator chave "a
perspectiva de preços mais altos e sustentados da gasolina". Alguns analistas
temem que a Toyota e a Honda estejam mais bem posicionadas para suportar os
preços da gasolina, porque têm melhores ofertas de carros de passageiros e estão
mais avançadas no desenvolvimento de carros elétricos híbridos eficientes em
combustível.
O aumento das taxas de juros reduzem os lucros dos empréstimos para carros.
Operações no exterior custam mais do que o retorno. E ambas as empresas estão
flertando com cotações de junk bonds, que elevariam os custos de empréstimo em
bilhões de dólares.
"No momento, nós não sabemos se estaremos aqui por mais cinco anos", disse
William Murphy, um metalúrgico de 70 anos da fábrica Willow Run da GM. A GM fez
recentemente um investimento de US$ 300 milhões na fábrica, então é provável que
ela não desapareça. Mas se isto acontecer, Murphy disse que suas quase quatro
décadas de senioridade viriam a calhar. "Eu serei aquele que apagará as luzes."
Murphy, um homem grande vestindo macacão e que é saudado pelos companheiros como
Murph, falou enquanto tomava um sorvete italiano antes do início do seu turno,
sentado no carro de sua irmã. Um Hyundai.