| Minoria recorre ao STF para derrubar
aumento de 91%
Ao menos 13 congressistas contra salário de R$ 24,5 mil devem entrar
com ação conjunta
Fernando Gabeira articula ida ao Supremo hoje para contestar aumento dado
na última quinta no salário dos próprios parlamentares
SILVIO NAVARRO
LETÍCIA SANDER
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
Um grupo de ao menos 13 parlamentares anunciou que contestará hoje na
Justiça o reajuste de 91% nos salários de deputados e senadores, que deverá
acarretar um gasto extra de R$ 1,7 bilhão anual aos cofres públicos em
função do efeito cascata nas Assembléias estaduais e Câmaras municipais. A
partir de fevereiro, os congressistas receberão R$ 24,5 mil por mês.
Liderado pelo deputado Fernando Gabeira (PV-RJ), o grupo prometeu entrar
hoje com um mandado de segurança no STF (Supremo Tribunal Federal) para
tentar suspender o aumento. O PPS anunciou que também ingressará com uma
Adin (Ação Direta de Inconstitucionalidade) no Supremo.
Outra possibilidade é unificar as duas ações, recolhendo a assinatura do
maior número possível de congressistas para um ato de protesto. Segundo
Gabeira, ao menos 13 parlamentares (nove deputados e quatro senadores) -de
um total de 594- são favoráveis ao protesto. O número deverá subir ao longo
da semana.
"O desgaste está sendo muito grande, esse aumento vai ter que cair. Amanhã
[hoje] estarei em Brasília especialmente por conta desse assunto. O
Congresso não pode ficar contra o Brasil", disse Gabeira.
"Estou confiante na luta no campo jurídico, até porque tudo foi feito na
véspera do Natal, contando com o esvaziamento do Congresso", completou o
deputado reeleito.
Presidente do PPS, o deputado Roberto Freire (PPS-PE) também protestou. "É o
canto de cisne de uma legislatura que foi um desastre: aumentar em 91% o
subsídio dos parlamentares e reajustar o salário mínimo em 8%", disse.
Votação contestada
O argumento central da ação judicial é que o reajuste deveria ter sido
votado em plenário, com a manifestação de todos os parlamentares. A decisão
sobre o aumento foi tomada na última quinta-feira em reunião a portas
fechadas de integrantes da Mesa Diretora da Câmara e do Senado e líderes
partidários.
A justificativa da cúpula do Congresso para elevar os salários é que o ato
conjunto das Mesas, que deverá ser publicado nesta semana no "Diário do
Congresso", regulamenta um decreto legislativo de 2002, que prevê a
equiparação com o salário dos ministros do STF.
O aumento salarial também desencadeará ao menos duas ações populares nesta
semana. Uma delas será proposta pelo jurista Fábio Konder Comparato,
coordenador do Fórum de Cidadania da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil)
para a Reforma Política. A outra deverá ser protocolada por um grupo de
advogados de Curitiba.
Repúdio ao aumento
Comparato argumentará que o aumento ignorou dispositivos constitucionais e
violou o patrimônio público e a moralidade da administração pública. "O
objetivo não é só ganhar, é expor publicamente esta situação de absoluta
imoralidade para que o povo saia da passividade e exija respeito", afirmou o
advogado.
Também houve reação de repúdio de diversas entidades, como CNBB (Conferência
Nacional dos Bispos do Brasil) e CUT (Central Única dos Trabalhadores). No
caso da igreja, a recomendação da entidade foi para que os padres abordassem
o assunto nas missas.
Os presidentes da Câmara dos Deputados, Aldo Rebelo (PC do B-SP), e do
Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), têm se esquivado de falar sobre o assunto
desde a semana passada. Procurados ontem pela Folha, ambos não se
manifestaram. Tanto Renan quanto Aldo se articulam para serem reeleitos e
continuarem à frente das Casas.
De acordo com os cálculos dos técnicos da Câmara, o impacto anual do
reajuste será de R$ 157 milhões. No Senado, serão R$ 16 milhões. Desse
montante, uma parcela será para custear parlamentares aposentados e
pensionistas.
|