ÉPOCA - Qual o impacto da descoberta de uma nova imagem do PT
para a sociedade?
Maria Celina - Não se sabe ainda qual o impacto que o atual
governo vai ter sobre o eleitorado. Mas sabemos que muitos jovens que
votaram com a estrelinha na mão estão decepcionados. Para onde esse
voto vai migrar? Para o PFL, para os tucanos? Até pode ser, mas acho
difícil. Vai aumentar a quantidade de voto nulo provavelmente. Mas
alguns podem migrar para legendas como o PSOL. Fato é que na próxima
eleição os políticos vão ter de convencer o eleitor de que é
importante votar. De um lado o partido do governo está encrencado. O
governo em si. Por outro lado, no Legislativo também há feridas e
denúncias de corrupção para ambos os lados. A classe política sabe que
precisa dar uma resposta à sociedade. Essa resposta pode vir da CPI,
da postura do governo e das ações da polícia. Um desenlace de
governabilidade, de manutenção da ordem.
ÉPOCA - Como a senhora avalia a postura de intelectuais que
sempre defenderam o PT?
Maria Celina - A crise está chamando a atenção para a necessidade
de se discutir mais o país. A academia está inerte nesse debate. A
vida inteligente do governo acabou, e a academia está silenciada. De
um lado, porque grande parte dela era ou é petista e está abalada. E
tem a parte que não votou em Lula, mas que fica constrangida porque,
quando fala, parece provocação. A academia foi muito contaminada por
toda a disputa ideológica. Mas precisamos tratar disso. O que está
acontecendo no país? Não estou falando de intelectuais irem para o
governo, mas de fazermos uma reflexão maior sobre o impacto dessa
crise na política brasileira, na cultura, nos jovens. É nosso papel. A
imprensa tem de correr atrás de informação, e nós, de pensar no que
aconteceu no país.
ÉPOCA - Que questões acha importante levantar na discussão?
Maria Celina - Como se explica que um partido de esquerda chegue
ao poder e provoque uma decepção tão grande? Como se explica
sociologicamente? Como se explica que uma nação continental como o
Brasil tenha escolhido um governo com pessoas sem nenhuma experiência
administrativa? Porque se quer mudança. Mas é uma aposta arriscada.
Você não entrega a administração de sua empresa a alguém que tenha
apenas boa-fé. Ninguém vira professor, jornalista, administrador da
noite para o dia. A academia está emocionada e paralisada. Qualquer
debate vai ajudar o país. Não podemos ficar pensando que tudo é
denuncismo, é armação. Também tem outro lado que até entendo, que é de
uma postura defensiva de quem não quer aceitar, que não acredita na
dimensão da crise. Uma série de fatos é imputada como armação,
golpismo, denuncismo. Demonstrar indignação é conspirar, é ser contra.
Informar é golpismo. A gente precisa repensar isso. Há golpismo? Claro
que há. Há setores que querem desestabilizar o presidente. Mas existem
os fatos. Enfim, a polícia investiga, a CPI e o Ministério Público
também, jornalistas apuram e informam. E nós? Temos de refletir a
respeito.
ÉPOCA - O presidente foi ingênuo?
Maria Celina - Não! Ao contrário. Ele tem uma inteligência de
assimilar coisas, novidades e de, inclusive, mudar de idéia, como no
caso do agronegócio e do sindicalismo. Dizia que a CLT era o AI-5 dos
trabalhadores e acabou sendo um defensor da CLT. Ele tem grande
capacidade de ver oportunidades, escutar e abraçar novas causas.
ÉPOCA - Mas ingênuo no sentido de que, uma vez informado do
mensalão, não teria tido a malícia esperada para lidar com o caso.
Maria Celina - Ele também não foi ingênuo aí. Os presidentes são
bem informados. Por assessores, secretários, amigos, inimigos,
ministros. Dentro do Palácio, em geral, não só no Brasil, sempre
existe aquela figura que é os olhos e os ouvidos do rei. Desde a Idade
Média há literatura sobre isso. Há um livro famoso sobre essa ocasião,
Discurso sobre a Servidão Voluntária, que fala exatamente de como as
pessoas gostam de se submeter ao poder. Uma forma de estar bem com o
poder e crescer junto ao poder é dar informações ao príncipe. Faz
parte do poder, portanto, que as pessoas próximas ao governante dêem
informações, façam fofocas, intrigas. A vida palaciana, desde
Cleópatra, é assim.
ÉPOCA - Quem são os olhos do presidente Lula?
Maria Celina - Quem está em torno, os mais próximos, como Luiz
Gushiken, José Dirceu, Gilberto Carvalho, além de parlamentares e
sindicalistas que têm relações muito antigas com o presidente.
ÉPOCA - E o serviço de Inteligência?
Maria Celina - Seu cliente principal é o presidente da República.
Se pegarmos arquivos de Getúlio, veremos que eles têm acesso a
relatórios, naquela ocasião, do Dops. Receber os relatórios dessas
instituições, até hoje, é normal para os presidentes. O acesso é em
primeira mão.
ÉPOCA - Até que ponto a senhora acha que o presidente foi
blindado e poupado de saber o que ocorria a seu redor?
Maria Celina - Mas ele sabia. Ele está abalado com as denúncias
devido ao efeito-surpresa. Ninguém levou muito a sério a possibilidade
de esse esquema de loteamento da máquina pública acabar em conflito.
Achou-se que, na medida em que o Brasil tem essa vocação de se
apropriar do que é público, isso não criaria celeuma. Não se contava
com essa cisão do Roberto Jefferson, mas, sim, com a cumplicidade que
essas coisas, de loteamento, de uso da máquina, têm no Brasil.
ÉPOCA - Quais os presidentes mais atentos?
Maria Celina - Há dois estilos de presidentes na História. Getúlio
Vargas e Juscelino Kubitschek. Getúlio tinha o estilo do Geisel, de
acompanhar a administração, ler tudo, anotar. Juscelino era um
presidente que gostava de executar, acompanhar a finalização de obras.
Mas ambos são estilos envolvidos com a gestão pública.
ÉPOCA - Em que estilo se enquadra o presidente Lula?
Maria Celina - Há presidentes sem aptidão para administrar. É o
caso de Lula. O presidente (Emílio Garrastazu) Médici não
tinha gosto pelo dia-a-dia da gestão, mas estava cercado de pessoas
poderosas. Já o presidente Lula delegou poderes a pessoas com pouca
experiência de administração da máquina pública. A capacidade
gerencial ficou na área econômica, mas também não é inovadora.
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