TATHIANA BARBAR
da Folha Online
O procurador Pedro Barbosa Pereira Neto, autor das denúncias contra Paulo Maluf
por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e formação de quadrilha, afirmou hoje
que o ex-prefeito "admitiu negando" ter enviado remessas de dinheiro não
declaradas para contas bancárias no exterior.
Pereira Neto acompanhou hoje o primeiro depoimento em juízo de Maluf sobre as
denúncias, acatadas pela juíza da 2ª Vara Federal Criminal de São Paulo, Sílvia
Maria Rocha. Maluf foi interrogado na Justiça Federal de São Paulo. O processo
corre sob sigilo de Justiça.
Após o depoimento, Maluf se recusou a dar entrevistas. Disse apenas que "em
respeito a decisão da juíza, que decretou segredo de Justiça, nada ia declarar".
Pereira Neto também evitou comentar detalhes do depoimento. "O processo corre
sob segredo de Justiça e ainda vou analisar o interrogatório. O Ministério
Público trabalha com a hipótese de que ele [Paulo Maluf] praticou um crime e vai
provar a acusação", disse.
Segundo o procurador, Maluf respondeu a todas as perguntas da juíza. Ainda de
acordo com ele, Maluf declarou formalmente que o procurador é seu inimigo
pessoal. "Ele declarou formalmente que sou seu inimigo pessoal, uma estratégia
de defesa para tentar tirar o Ministério Público do processo."
Pereira Neto afirmou também que ainda nesta semana recorrerá à decisão da
Justiça Federal de São Paulo, que negou no último dia 30 o pedido de prisão
preventiva de Maluf.
Até hoje, Maluf só havia sido ouvido pela Polícia Federal ou pelo Ministério
Público e recorria ao direito constitucional de falar somente em juízo.
Paulo Maluf chegou com 30 minutos de antecedência à Justiça Federal, por volta
das 14h, acompanhado de seus advogados, José Roberto Leal de Carvalho e Ricardo
Tosto. O depoimento durou cerca de 45 minutos.
A juíza Sílvia Maria Rocha afirmou, por meio de sua assessoria, que os advogados
de Maluf têm três dias para apresentar a defesa prévia do ex-prefeito.
Investigações
As investigações contra o ex-prefeito começaram em junho de 2001, quando a
Promotoria teria descoberto indícios da existência de ao menos US$ 200 milhões
em contas bancárias de Maluf e de seus familiares em Jersey, um paraíso fiscal
no canal da Mancha.
Os promotores Silvio Marques e Sérgio Turra sustentam que Maluf teria desviado
recursos da construção da avenida Água Espraiada --atual jornalista Roberto
Marinho-- e do túnel Ayrton Senna, durante sua gestão na Prefeitura de SP
(1993-1996). O esquema teria continuado na gestão Celso Pitta (1997-2000).
Silvio Marques disse que Maluf recebia de 20% a 30% do valor de cada obra. As
duas custaram, segundo promotores, US$ 1,2 bilhão.
Segundo o promotor, a maioria do dinheiro passava pelos Estados Unidos via
Banestado e seguia até a Suíça. A Promotoria afirma ter recebido documentos de
Jersey, Estados Unidos e Suíça, que estão sob sigilo.
Acusações
A Procuradoria da República dividiu as acusações contra o ex-prefeito em duas
ações penais que, mais para frente, deverão ser juntadas.
A acusação do primeiro processo é por evasão de divisas --e é sobre isso que
Maluf falou hoje. Sobre a segunda ação, na qual Maluf foi denunciado sob
acusação de lavagem de dinheiro, evasão de divisas (na condição de co-réu) e
formação de quadrilha, ele só será interrogado em março.
Além de Maluf, são réus no processo penal por lavagem de dinheiro o filho
Flávio, a mulher dele, Jacquelline, a filha Lígia, e o marido dela, Maurílio
Curi. Todos foram obrigados a entregar seus passaportes como garantia de que não
sairão do país.
Segundo o Ministério Público, os Maluf movimentaram cerca de US$ 446 milhões na
Suíça de forma não declarada no Brasil. O ex-prefeito afirma que não tem contas
fora do país e se diz perseguido politicamente.
Outro lado
Procurada pela reportagem, a assessoria de Paulo Maluf afirmou que o ex-prefeito
não vai se pronunciar sobre as declarações do promotor nem comentará detalhes do
depoimento.
Com Folha de S.Paulo