Lula tem culpa

ACM diz que o presidente se cercou de gente incompetente e desonesta e por isso está ‘‘patrocinando indiretamente’‘ toda a corrupção

Wálter Nunes


 
Durante os últimos quatro anos, o senador Antonio Carlos Magalhães chegou a parecer em alguns momentos um político em fim de carreira. Já não lembrava o homem poderoso e influente que xingava colegas e dava ordens a presidentes, sem ouvir um piu de volta. O primeiro grande tropeço aconteceu em 2001, quando foi acusado de violar o painel de votações do Senado. Renunciou para não ser cassado. Foi também acusado de grampear desafetos na Bahia. Seu coração andou fraquejando, a tentativa de aproximação com o governo petista não surtiu o efeito desejado e, por fim, seu candidato perdeu a eleição em Salvador. Mas bastou o governo Lula entrar em crise para ACM ganhar fôlego novo.

Ele voltou a ser procurado por políticos para dar palpite. Jornalistas andam atrás dele, pedindo informações. Osenador do PFL acorda todo dia às 8 horas da manhã e não deita antes das 2 da madrugada. Presidente da Comissão de Constituição e Justiça do Senado, conselheiro oficial da Fiesp, principal entidade patronal do país, ACMpassa grande parte do dia garimpando informações que comprovem corrupção no governo do PT. Anda especialmente interessado na Petrobrás, onde já mandou muito. Nesta entrevista, o pefelista abre seu saco de maldades para atacar o PT e diz que o presidente Lula tem culpa na crise.

 

ANTONIO CARLOS MAGALHÃES

Dados pessoais
Nascido em 27 de setembro de 1927, em Salvador. É casado e teve quatro filhos, entre eles Luís Eduardo Magalhães, ex-presidente da Câmara, morto em 1998
 

Carreira
Formado em Medicina, foi deputado estadual, federal, governador, presidente de estatal e ministro de Estado. Cumpre seu segundo mandato como senador

Fotos: Frédéric Jean/ÉPOCA

ÉPOCA - O senhor acha que o presidente Lula sabia dos fatos que estão sendo denunciados agora?
Antonio Carlos Magalhães -
Olha, acho que do tal mensalão ele foi avisado. Talvez ele não soubesse a origem do mensalão. O que Lula não podia fazer - e essa é a desgraça da vida dele - era confundir o governo com o PT. Ele não pode confundir, senão ele é responsável por Delúbio Soares, por Marcos Valério, por Fernando Moura, por Sílvio Pereira etc. Ele tinha pelo menos de saber quem ele botava junto dele. E a prova disso é que o presidente está tirando agora. Está tirando agora por quê?

ÉPOCA - O deputado Roberto Jefferson (PTB) isenta o presidente Lula de responsabilidade no caso do mensalão. O senhor acha que, se realmente se comprovarem os supostos casos de corrupção, é possível isentar o presidente de culpa?
ACM -
Nem isentar nem culpar. Na realidade a culpa que ele tem é ter escolhido e loteado o Brasil com pessoas incompetentes e algumas corruptas - como está sendo provado agora. O governo do presidente Lula está patrocinando indiretamente, porque seus membros praticam, a corrupção ativa, visível, baseada no loteamento de cargos para aliados e derrotados que se uniram para fazer um governo em que o Lula não tem a menor ingerência.

 

ÉPOCA - Então o senhor acha mesmo que existe um esquema de corrupção no governo?
ACM -
Há uma máquina. Eu não diria generalizada, porque não vou atacar o Palocci (ministro da Fazenda), não vou atacar o Furlan (ministro do Desenvolvimento), não vou atacar o Márcio Thomaz Bastos (da Justiça), não vou atacar o Roberto Rodrigues (Agricultura) e, pela honestidade, o Ciro Gomes (Integração Regional). Este eu só ataco porque está sendo um mau ministro. Agora, muitos outros são desonestos mesmo.

ÉPOCA - Mas ele tinha como saber?
ACM -
Quando se escolhe um ministério com um número de derrotados enorme, não se pode esperar boa coisa. O derrotado é um amargurado. Amargurado não tem ânimo para o trabalho, é um perseguidor de sua base, que o derrotou. Então a retaliação existe em todos os Estados onde os ministros foram derrotados. Não pode funcionar assim.

ÉPOCA - E o José Dirceu (ex-chefe da Casa Civil), saberia dos supostos esquemas?
ACM -
Eu não posso garantir que ele sabia, mas é muito difícil que ignorasse.

ÉPOCA - Por que o senhor rompeu com Dirceu?
ACM -
Eu não rompi com o Dirceu. Não nos vimos mais, o que foi salutar para ele e para mim.

 

ÉPOCA - O que o senhor, que já passou por tantos governos, acha que Lula está fazendo errado?
ACM -
Quem ganhou a eleição não foi o PT, foi o Lula. O que ele ainda pode fazer é construir um ministério com pessoas capazes e fazer um governo que reabilite também administrativamente este atual, que não fez nada, a não ser manter a inflação em termos normais.

ÉPOCA - O senhor sugere que o presidente vire as costas para o PT?
ACM -
Sem rachar com o PT ele não vai governar. Ele já sentiu isso. Se você procurar saber se o ministro Roberto Rodrigues está atuando bem, as respostas serão positivas. Ele é do PT? O doutor Márcio Thomaz Bastos é do PT? O único ministro petista que se salva é o Palocci. Bendita crise de Santo André que ergueu o Palocci, senão a situação seria pior.

ÉPOCA - O senhor acredita em tudo o que Roberto Jefferson vem dizendo?
ACM -
Não tenho nenhuma dúvida da corrupção nos Correios. Acho que ainda há corrupção em outros órgãos, inclusive na Petrobrás. Só que eles (o governo) não deixam abrir. Vão fazer tudo para não abrir porque a Petrobrás é um gigante. Na hora que se mexer na Petrobrás você vai ver resultados muito tristes. As informações chegam até os parlamentares, mas eu preciso das provas. Tenho por enquanto coisas miúdas, gastar dinheiro à toa, em Carnaval, em forró, que não é dever de quem tira petróleo.

ÉPOCA - O senhor conviveu com vários presidentes. Dá para comparar Lula com os anteriores?
ACM -
Olha, o Fernando Collor tinha um grande discurso, mas na prática era um fracasso. O Lula tem um discurso fraco que ele pensa que é bom para a massa, e talvez o seja. Mas é um discurso que não impressiona a ninguém. O último discurso dele seria melhor que ele não tivesse feito. Mas de qualquer maneira tem um tom de humildade que ele não tinha anteriormente. Esse tom é indispensável para que ele possa governar um grupo de razoável capacidade.

ÉPOCA - Como o PFL deve ir para 2006?
ACM -
O PFL tem um candidato próprio, Cesar Maia, e vamos trabalhar por ele. Se ele crescer a ponto de disputar bem a Presidência da República, iremos juntos. Senão vamos fazer uma união, o mais próximo sem dúvida é o PSDB, seja com o Geraldo Alckmin (governador de São Paulo), seja com o Aécio Neves (de Minas Gerais) ou com o próprio Fernando Henrique.

ÉPOCA - Em sua opinião, quem vai ser o candidato tucano?
ACM -
Se o Lula estiver muito fraco, o candidato será o Fernando Henrique. Na minha ótica, se o Lula estiver razoável, o candidato será o Alckmin. E se tiver de ser outro, vai ser o Aécio. E se for para perder, vão procurar alguém do Nordeste.

 

ÉPOCA - O governo conseguirá controlar a CPI dos Correios?
ACM -
Olha, os fatos vão ser muito mais fortes do que a vontade do governo e dos governistas. Quando o fato existe, você não pode encobrir. Até porque a imprensa não deixaria. Conseqüentemente, a CPI vai refletir a verdade dos fatos, e não a vontade do governo.

ÉPOCA - O fato de o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB), se reunir com o presidente Lula para discutir cargos pode atrapalhar a independência do Senado?
ACM -
O Renan tem sido um presidente competente e hábil, de modo que eu não sei se ele vai fazer uma confusão entre a presidência do Senado e o partido. Se ele fizer, vai cometer o mesmo erro do Lula com o PT, e nós não vamos deixar.

ÉPOCA - O senhor sempre foi governo ou aliado dele. Sente-se confortável na oposição?
ACM
- Eu nunca me senti tão bem quanto agora na oposição. Posso dizer a você que quem disser que eu gosto mais de governo está enganado.

ÉPOCA - Este governo é bom para a oposição?
ACM -
Este governo é ótimo para se fazer oposição. O carinho com que sou recebido nos lugares é uma demonstração clara de que eu estou no caminho certo.

ÉPOCA - A crise se arrasta há mais de um mês e a popularidade do presidente até agora não foi atingida...
ACM
- Vai atingir, vai atingir. Isso é uma coisa lenta e gradual. Com a votação que teve, não será de uma hora para outra. Ele vai cair à medida que os fatos apareçam e o comprometam. No momento nós estamos iniciando um jogo que tem 90 minutos.

ÉPOCA - O senhor já viu muitas crises, já foi inclusive motivo de crise com aquele caso da violação do painel do Senado. Até que ponto o senhor acha que vamos chegar com esta crise no governo Lula?
ACM -
Olha, faço questão de falar. No caso da violação do painel do Senado não há uma prova concreta. Daí eu ter tido praticamente uma unanimidade no Supremo Tribunal Federal (STF) em relação a esse assunto. Apenas um voto contra de um ministro recém-chegado que não tinha talvez o conhecimento da situação. Esse é um assunto que eu não aceito culpa. A crise do governo Lula é diferente. Uma coisa é ter uma crise porque o sujeito A ou B disse que você não devia ter bulido no painel, outra coisa é a corrupção.

ÉPOCA - O PFL baiano perdeu a eleição para prefeito de Salvador. Depois disso, falou-se muito que o senhor estaria perdendo força na Bahia.
ACM -
Nós perdemos várias eleições em Salvador anteriormente, e o carlismo sempre foi a força maior. Agora nós perdemos porque todos se uniram - PT, PDT, PSDB. Todos se uniram contra o nosso candidato. Aí é impossível ganhar. Sobretudo com o dinheiro inacreditável que os ministérios da Saúde e dos Transportes e a Petrobrás colocaram nas eleições baianas.

ÉPOCA - Como está sua relação com o governador da Bahia, Paulo Souto (PFL), e o deputado federal José Carlos Aleluia (PFL)?
ACM -
Com o Zé Carlos Aleluia eu não tenho nenhuma intimidade maior. Nós nos respeitamos, eu admiro o mérito que ele tem, mas nunca tive nenhuma coisa com ele. Embora eu não possa dizer que todas as atitudes dele eu aprove, como pode ser que ele não aprove as minhas. E o Paulo Souto é um sujeito que tem apreço por mim, até porque seria um monstro se não tivesse, levando em conta que a vida pública dele começou comigo. Eu o peguei para secretário, fiz dele superintendente da Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), além de secretário. Fiz ele vice-governador, fiz governador, fiz senador. Daí, se você achar que o Paulo Souto tem diferença contra mim, evidentemente que você não está me atacando, está atacando o Paulo Souto. Desejo sempre manter uma boa relação com ele, que é um bom quadro, e não vou dizer que tenha sido um amigo fraterno, mas um bom amigo.

ÉPOCA - O que o senhor enxerga para seu futuro?
ACM -
Eu sou senador por mais cinco anos. Depois, se tiver vaga para o Senado, eu vou disputar.

ÉPOCA - Fernando Moraes está escrevendo sua biografia. Quando ele termina?
ACM -
Eu não sei. Eu acho que cada dia surge um fato. Então tem de esperar isso. Eu só não quero que ele queira fazer um livro póstumo. Se a idéia dele é fazer um livro póstumo, ele é capaz de morrer antes.