| ÉPOCA - O que o senhor, que já passou
por tantos governos, acha que Lula está fazendo errado?
ACM - Quem ganhou a eleição não foi o PT, foi o Lula. O que ele
ainda pode fazer é construir um ministério com pessoas capazes e fazer
um governo que reabilite também administrativamente este atual, que
não fez nada, a não ser manter a inflação em termos normais.
ÉPOCA - O senhor sugere que o presidente vire as costas para o
PT?
ACM - Sem rachar com o PT ele não vai governar. Ele já sentiu
isso. Se você procurar saber se o ministro Roberto Rodrigues está
atuando bem, as respostas serão positivas. Ele é do PT? O doutor
Márcio Thomaz Bastos é do PT? O único ministro petista que se salva é
o Palocci. Bendita crise de Santo André que ergueu o Palocci, senão a
situação seria pior.
ÉPOCA - O senhor acredita em tudo o que Roberto Jefferson vem
dizendo?
ACM - Não tenho nenhuma dúvida da corrupção nos Correios. Acho que
ainda há corrupção em outros órgãos, inclusive na Petrobrás. Só que
eles (o governo) não deixam abrir. Vão fazer tudo para não abrir
porque a Petrobrás é um gigante. Na hora que se mexer na Petrobrás
você vai ver resultados muito tristes. As informações chegam até os
parlamentares, mas eu preciso das provas. Tenho por enquanto coisas
miúdas, gastar dinheiro à toa, em Carnaval, em forró, que não é dever
de quem tira petróleo.
ÉPOCA - O senhor conviveu com vários presidentes. Dá para
comparar Lula com os anteriores?
ACM - Olha, o Fernando Collor tinha um grande discurso, mas na
prática era um fracasso. O Lula tem um discurso fraco que ele pensa
que é bom para a massa, e talvez o seja. Mas é um discurso que não
impressiona a ninguém. O último discurso dele seria melhor que ele não
tivesse feito. Mas de qualquer maneira tem um tom de humildade que ele
não tinha anteriormente. Esse tom é indispensável para que ele possa
governar um grupo de razoável capacidade.
ÉPOCA - Como o PFL deve ir para 2006?
ACM - O PFL tem um candidato próprio, Cesar Maia, e vamos
trabalhar por ele. Se ele crescer a ponto de disputar bem a
Presidência da República, iremos juntos. Senão vamos fazer uma união,
o mais próximo sem dúvida é o PSDB, seja com o Geraldo Alckmin
(governador de São Paulo), seja com o Aécio Neves (de Minas Gerais) ou
com o próprio Fernando Henrique.
ÉPOCA - Em sua opinião, quem vai ser o candidato tucano?
ACM - Se o Lula estiver muito fraco, o candidato será o Fernando
Henrique. Na minha ótica, se o Lula estiver razoável, o candidato será
o Alckmin. E se tiver de ser outro, vai ser o Aécio. E se for para
perder, vão procurar alguém do Nordeste.
ÉPOCA - O governo conseguirá controlar a CPI dos Correios?
ACM - Olha, os fatos vão ser muito mais fortes do que a vontade do
governo e dos governistas. Quando o fato existe, você não pode
encobrir. Até porque a imprensa não deixaria. Conseqüentemente, a CPI
vai refletir a verdade dos fatos, e não a vontade do governo.
ÉPOCA - O fato de o presidente do Senado, Renan Calheiros
(PMDB), se reunir com o presidente Lula para discutir cargos pode
atrapalhar a independência do Senado?
ACM - O Renan tem sido um presidente competente e hábil, de modo
que eu não sei se ele vai fazer uma confusão entre a presidência do
Senado e o partido. Se ele fizer, vai cometer o mesmo erro do Lula com
o PT, e nós não vamos deixar.
ÉPOCA - O senhor sempre foi governo ou aliado dele. Sente-se
confortável na oposição?
ACM - Eu nunca me senti tão bem quanto agora na oposição. Posso
dizer a você que quem disser que eu gosto mais de governo está
enganado.
ÉPOCA - Este governo é bom para a oposição?
ACM - Este governo é ótimo para se fazer oposição. O carinho com
que sou recebido nos lugares é uma demonstração clara de que eu estou
no caminho certo.
ÉPOCA - A crise se arrasta há mais de um mês e a popularidade do
presidente até agora não foi atingida...
ACM - Vai atingir, vai atingir. Isso é uma coisa lenta e gradual.
Com a votação que teve, não será de uma hora para outra. Ele vai cair
à medida que os fatos apareçam e o comprometam. No momento nós estamos
iniciando um jogo que tem 90 minutos.
ÉPOCA - O senhor já viu muitas crises, já foi inclusive motivo
de crise com aquele caso da violação do painel do Senado. Até que
ponto o senhor acha que vamos chegar com esta crise no governo Lula?
ACM - Olha, faço questão de falar. No caso da violação do painel
do Senado não há uma prova concreta. Daí eu ter tido praticamente uma
unanimidade no Supremo Tribunal Federal (STF) em relação a esse
assunto. Apenas um voto contra de um ministro recém-chegado que não
tinha talvez o conhecimento da situação. Esse é um assunto que eu não
aceito culpa. A crise do governo Lula é diferente. Uma coisa é ter uma
crise porque o sujeito A ou B disse que você não devia ter bulido no
painel, outra coisa é a corrupção.
ÉPOCA - O PFL baiano perdeu a eleição para prefeito de Salvador.
Depois disso, falou-se muito que o senhor estaria perdendo força na
Bahia.
ACM - Nós perdemos várias eleições em Salvador anteriormente, e o
carlismo sempre foi a força maior. Agora nós perdemos porque todos se
uniram - PT, PDT, PSDB. Todos se uniram contra o nosso candidato. Aí é
impossível ganhar. Sobretudo com o dinheiro inacreditável que os
ministérios da Saúde e dos Transportes e a Petrobrás colocaram nas
eleições baianas.
ÉPOCA - Como está sua relação com o governador da Bahia, Paulo
Souto (PFL), e o deputado federal José Carlos Aleluia (PFL)?
ACM - Com o Zé Carlos Aleluia eu não tenho nenhuma intimidade
maior. Nós nos respeitamos, eu admiro o mérito que ele tem, mas nunca
tive nenhuma coisa com ele. Embora eu não possa dizer que todas as
atitudes dele eu aprove, como pode ser que ele não aprove as minhas. E
o Paulo Souto é um sujeito que tem apreço por mim, até porque seria um
monstro se não tivesse, levando em conta que a vida pública dele
começou comigo. Eu o peguei para secretário, fiz dele superintendente
da Sudene (Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste), além de
secretário. Fiz ele vice-governador, fiz governador, fiz senador. Daí,
se você achar que o Paulo Souto tem diferença contra mim,
evidentemente que você não está me atacando, está atacando o Paulo
Souto. Desejo sempre manter uma boa relação com ele, que é um bom
quadro, e não vou dizer que tenha sido um amigo fraterno, mas um bom
amigo.
ÉPOCA - O que o senhor enxerga para seu futuro?
ACM - Eu sou senador por mais cinco anos. Depois, se tiver vaga
para o Senado, eu vou disputar.
ÉPOCA - Fernando Moraes está escrevendo sua biografia. Quando
ele termina?
ACM - Eu não sei. Eu acho que cada dia surge um fato. Então tem de
esperar isso. Eu só não quero que ele queira fazer um livro póstumo.
Se a idéia dele é fazer um livro póstumo, ele é capaz de morrer antes.
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