Lei de crimes digitais sofre críticas durante audiência
pública no Senado
Paulo Mario Martins
do UOL News, em Brasília
A audiência pública que discute
o projeto de lei de crimes digitais está sendo marcada pelas críticas
que o projeto recebe por parte dos especialistas convidados a debatê-la
em sessão conjunta da CCJ (Comissão de Constituição, Justiça e
Cidadania) e da CCT (Comissão de Ciência, Tecnologia, Inovação,
Comunicação e Informática) do Senado Federal nesta quarta-feira (4) em
Brasília
Representante do Ministério das Comunicações no Comitê Gestor da
Internet no Brasil, o consultor jurídico Marcelo Bechara criticou
duramente o substitutivo aos projetos que tratam de crimes cibernéticos,
agora há pouco durante audiência pública no Senado sobre o tema. "A
proposta merece e deve ser melhorada", afirmou.
Ele apontou falta de clareza na tipificação dos crimes previstos no
projeto, o que poderia trazer prejuízos quando o caso chegasse à
Justiça. "Não dá para ter um crime que o magistrado vai ter que analisar
por analogia. Quando estamos falando de matéria penal, estamos falando
da liberdade do cidadão", declarou.
Bechara também reprovou o artigo do projeto que atribui
responsabilidades civis aos provedores de internet. "Já existe dentro do
Direito Civil responsabilidades suficientes. Os textos [do projeto]
estão extensos e isso pode causar confusão", disse.
A punição para o internauta que propaga "códigos maliciosos"
involuntariamente também foi alvo de críticas do consultor jurídico.
"Difundir códigos maliciosos pode acontecer com qualquer um de nós. Isso
é extremamente temerário. O foco tem que ser no internauta que teve dolo
e não na vítima", ressaltou.
"O que temos que fazer é ter uma norma precisa, clara e que condene e
puna o agente, aquele que vai usar a internet para ter algum proveito ou
para prejudicar outrem. Não podemos correr o risco de para matar um
macaco, botar fogo na floresta inteira", comparou Bechara.
Primeiro representante defende aprovação
Primeiro a falar na audiência pública, o juiz de Direito Fernando Neto
Botelho defendeu a proposta relatada pelo senador Eduardo Azeredo
(PSDB-MG). "Recomendo sua aprovação como está", disse.
Ele ponderou que as penas previstas para os infratores não devem ser
motivo de preocupação. "Não podemos nos espantar com penas de prisão
máximas e mínimas porque não levarão os infratores ao recolhimento,
sendo réu primário eles vão ter a sua privação da liberdade convertida
em multa ou indenização", declarou.
Outro convidado a defender a aprovação imediata do projeto foi o chefe
de perícia de informática da Polícia Federal, Paulo Quintiliano. Ele
considerou que uma lei sobre crimes digitais é bem-vinda. "Sentimos
falta de uma lei que contemple essa questão. Hoje existem muitas
condutas [crimes] que não podemos fazer nada", afirmou.
"Desde 1996, esperamos ansiosos por uma lei que trate dos crimes
cibernéticos. Em vários países já há leis que tratam desse assunto",
acrescentou Quintiliano.
Inclusão digital será prejudicada, diz Abranet
A inclusão digital ficará prejudicada se houver punição aos internautas
que propaguem "códigos maliciosos",em razão dos aumentos de custos que o
usuário terá caso o projeto de lei de crimes digitais for aprovado da
maneira como está.. Essa foi a opinião apresentada por Eduardo Parajo,
presidente da Associação Brasileira de Provedores de Internet (Abranet),
Eduardo Fumes Parajo, durante audiência pública sobre o tema no Senado.
Segundo estimativa da Abranet, o custo anual com softwares anti-vírus -
ferramenta necessária para evitar a propagação dos "códigos maliciosos"
- seria de R$ 65,00. "Como incluir as classes D e E, que não têm
recursos?", indagou.
Parajo também criticou o artigo que obriga os provedores de internet a
denunciarem à polícia crimes cometidos por usuários. "Não vejo nos
provedores o papel de polícia para canalizar denúncia e repassar à
polícia. Não é um ônus que nos compete", afirmou.
NIC.br pede mais debate sobre o assunto
O diretor-presidente do Núcleo de Informações e Coordenação (NIC.Br),
Demi Getschko, pediu agora há pouco mais debate em torno do substitutivo
aos projetos que tratam de crimes cibernéticos, em tramitação no
Congresso. "Sou favorável a uma discussão mais ampla para que detalhes
que possam ser melhorados sejam aprimorados. Porque uma vez promulgada a
lei, ela pode depois fugir da intenção de que foi feita", disse durante
audiência pública no Senado sobre o tema.
Ele apontou ainda que é preciso pensar no futuro ao se elaborar a lei.
"Nós temos um novo universo florescendo. Muitos conceitos que temos hoje
poderão mudar. Temos que pensar grande quando pensarmos em legislar
sobre isso para não sufocar o crescimento da rede", declarou.
Getschko também criticou o texto do projeto que prevê punição a
internautas que propagarem "códigos maliciosos" involuntariamente.
"Visitantes não podem ser tratados como agentes na rede que podem
praticar um dano ou calúnia", defendeu.