| ÉPOCA - Então as empresas que forem
flagradas na investigação do Banestado com caixa dois no exterior não
poderão ser processadas por lavagem de dinheiro?
Dipp - As remessas não poderão ser tipificadas como lavagem de dinheiro
porque o dinheiro ilícito é proveniente de um crime que não está descrito na
lei. Por isso que está se tentando avançar na legislação. Nós estamos
direcionando nossas baterias para os crimes contra o patrimônio público.
Hoje, a pena para a adulteração de um chassi de automóvel é mais grave que a
de lavagem de dinheiro. A pena para o crime de furto qualificado é maior que
a pena para o crime de sonegação fiscal. A lavagem de dinheiro é a espinha
dorsal dos atos praticados por todas as facções criminosas. O dinheiro só
terá uso se for devidamente reciclado, afastando-se de suas origens
ilícitas.
| ''As ONGs são muito utilizadas (para
a lavagem de dinheiro). Há também as igrejas de fachada, os bingos,
as transações imobiliárias, a criação de avestruzes, de gado, os
bilhetes de loterias...'' |
ÉPOCA - Quais as táticas de lavagem mais recentes?
Dipp - São as mais diversas. As ONGs, por exemplo, são muito utilizadas
porque não são obrigadas a ter registro no Banco Central. Há também as
chamadas igrejas de fachada, de onde se tem notícia de grandes remessas para
o exterior. Tudo que for propício à movimentação de dinheiro em espécie com
maior número de pessoas anônimas torna fácil a lavagem. É o caso dos bingos.
Há também as transações imobiliárias, a criação de avestruzes, de gado, os
bilhetes de loterias. Os lavadores sempre são criativos. Também apelam para
restaurantes, compra de apartamentos de luxo no Nordeste, hotéis.
ÉPOCA - Como se lava dinheiro com gado ou imóveis?
Dipp - As formas são as mais variadas, mas geralmente se costuma
supervalorizar o patrimônio. Se uma pessoa está vendendo um imóvel por R$
500 mil, quem quer lavar dinheiro pode oferecer, na escritura, R$ 100 mil.
Por baixo do pano, paga os outros R$ 400 mil. Depois, revende o imóvel pelo
valor. Pronto: o dinheiro está limpo.
ÉPOCA - Como é possível fiscalizar tudo isso?
Dipp - A primeira grande reação ao problema veio com a criação de uma
comissão no Conselho de Justiça Federal, em 2002. Ela reuniu todos os
envolvidos na fiscalização, na inteligência, na investigação criminal e no
processamento e julgamento dos crimes de lavagem. Foi acertada uma série de
medidas que desembocaram na Estratégia Nacional de Lavagem de Dinheiro, uma
ampliação da comissão inicial. Chegamos à conclusão de que, além de
aperfeiçoamento das leis, precisávamos ter uma ampla cooperação interna
entre os órgãos envolvidos no assunto, do Ministério Público ao Judiciário.
Esse foi o grande mote. Também é preciso uma ampla cooperação internacional,
de acordos bilaterais, para agilizar os processos.
ÉPOCA - Como se dá essa integração na prática?
Dipp - A principal medida foi a criação das varas especiais. Lá, a
Polícia Federal faz perícias técnicas, interceptações telefônicas e trabalha
com a delação premiada. Já há pedidos até de infiltração de agentes nas
organizações criminosas. Há uma especialização nesses Juizados. Quase todas
as capitais já têm um. Lá são julgados todos os inquéritos que digam
respeito a crimes contra o sistema financeiro e lavagem de dinheiro. Isso
possibilita que o juiz, o MP e a polícia se especializem. Essas varas têm
apoio técnico informal do Banco Central. Alguns assuntos altamente técnicos
são analisados hoje por esses juízes, algo impensável há apenas um ano.
ÉPOCA - Essa cooperação pode ser abalada caso o Ministério Público
perca parte dos poderes investigativos?
Dipp - Não tenho dúvidas. Nesses crimes complexos, de alta tecnologia,
de corrupção contra a administração, se o MP não puder continuar à frente
das investigações, certamente esses casos não serão desvendados. Isso não é
apenas manifestação minha, mas dos juízes que integram as varas criminais de
lavagem de dinheiro. É bem verdade que o MP tem de ter alguma regulação. Já
há consenso de que não pode haver investigações sem prazo, sem direito à
ampla defesa.
ÉPOCA - O trabalho das varas especiais já trouxe resultado?
Dipp - O número de inquéritos vem crescendo exponencialmente. São
inquéritos mais rápidos, eficazes, assim como o julgamento. É também uma
garantia para o acusado, porque ele sabe que está nas mãos de quem entende
do assunto. Recentemente, participei do processo de avaliação do Brasil no
Grupo de Combate à Lavagem de Dinheiro (Gafi, que reúne os 40 países mais
ricos do mundo), em Paris. Um dos pontos positivos citados foi a criação
dessas varas. O procurador antimáfia da Itália, Piero Luigi Vigna, quer
conhecer esse sistema, inédito no mundo. |