A vingança da fêmea

Sem o frenesi visual do primeiro, Kill Bill Volume 2 humaniza os personagens. Até os assassinos amam

CLÉBER EDUARDO

 


 

Direto ao ponto. Kill Bill Volume 2, que estréia no dia 8, é o oposto do Volume 1. No lugar do show visual e da avalanche de ação, que garantiam aquele espírito lúdico, farsesco e autoparódico do primeiro, agora as palavras superam os acontecimentos. Quentin Tarantino, que filmou as duas partes como sendo uma, para só depois dividi-las a pedido dos produtores, valoriza os personagens. Eles conversam muito, revelam o que sentem, humanizam suas imagens. Tudo o que ficava no ar, por opção do diretor, é explicado na continuação. Se o primeiro é playground, o segundo é quase um divã.

A soma dos dois filmes narra a jornada de pernadas, duelos de espada, balde de sangue, muito sadismo e situações estapafúrdias empreendida por uma fêmea ferida, A Noiva (Uma Thurman), que se vinga da gangue pela qual quase foi morta. Seu alvo principal é um certo Bill (David Carradine), mas, antes de acertar contas com ele, elimina seus comandados. A motivação para tamanha ira está na perda de seu bebê, ainda em gestação durante a sessão de surra, seguida de tiro na testa, à qual foi submetida por Bill e Cia. Pois é, mas a filha está viva, acredite quem quiser.

Na verdade, não é para crer, mas para topar o jogo, com toda a inverossimilhança contida. Tarantino trabalha no registro do artificialismo espetacular. A violência de seu filme tem o impacto esvaziado pelo escancaramento do truque, pela estilização rasgada e jocosa, que recusa qualquer tentativa realista, na linha ''a violência como ela é''. O diretor se recusa, como outros fazem, a tratar a questão a sério porque, no fundo, tudo vira show audiovisual. Sua honestidade está em assumir a farsa.

Há quem condicione a absorção das duas partes à decifração dos filmes citados e das matrizes homenageadas neles, mas o cineasta tem o mérito de construir uma narrativa independente dessas referências, embora explicite a paixão pelas artes marciais dos anos 70 (dos estúdios Shaw Brothers) e pelos spaghetti westerns. A paixão por certa cultura pop dos anos 70 se revela ainda na trilha sonora de atmosferas lisérgicas. Tarantino inspira-se em repertórios não-eruditos, recicla tudo e faz o resultado parecer criativo. Poucos têm talento para tanto.

O humor do cineasta está em seu estilo calcado no acúmulo de elementos (cenas em preto e branco, tela dividida, imagem congelada, várias linhas narrativas), que nem por isso resulta apenas na convivência de vários filmes em um. Em relação ao primeiro Kill Bill, as cenas são mais bem elaboradas, o ritmo não põe a língua de fora, o impacto plástico e rítmico é substituído por uma arquitetura mais contida, disposta a colocar pele e coração nos personagens, antes só tratados como imagens.

Kill Bill 2 transborda beleza. Ela está na falta de glamour dos atores, Michael Madsen e Uma Thurman, em especial, assim como nas conversas de A Noiva com Bill, a do começo e a do final. Já a seqüência em que, enterrada viva, a heroína rompe o caixão com o dedo é primor de fabulação, sem deixar de ajoelhar para os filmes de zumbis. Tarantino lembra o público de que aquilo, cada cena, é um faz-de-conta. Dos melhores disponíveis no cinema contemporâneo.

 

BELEZA
A Noiva (Uma Thurman) continua atrás de quem matou seu bebê quando estava grávida. Bill (David Carradine) é seu alvo principal. Na cena ao lado, ela tenta escapar de um caixão

Fotos: divulgação
 

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