| 'Bandeira' de Kassab,
AMAs se multiplicam reduzindo espaço de postos já existentes
Sara Duarte
Em São Paulo
Atualizada às 13h30
Médicos sem sala para atender, filas de até uma hora e meia para uma
consulta, pedreiros quebrando paredes enquanto a população aguarda na fila
para receber remédios. O dia-a-dia em alguns postos de atendimento médico
mantidos pela Prefeitura de São Paulo revela contradições do sistema de
saúde da principal metrópole do país.
Esse cenário foi encontrado pela reportagem do UOL em visita a três
unidades da rede de Assistência Médica Ambulatorial. Promessa de campanha do
ex-prefeito José Serra (PSDB), atual governador do Estado, esses
ambulatórios de pronto-atendimento converteram-se na principal bandeira do
prefeito Gilberto Kassab (DEM), a ponto de ele inaugurar até três novas
unidades por semana.
Em maio de 2006, quando o tucano deixou a Prefeitura, elas eram 29. Nesta
sexta-feira, Kassab inaugurou
a de número 80, no Jardim Brasil (Zona Norte), na realidade um anexo à
Unidade Básica de Saúde (UBS) que funciona há 26 anos no local. "Até o final
de abril, pretendemos que o total de AMAs chegue a 110", disse o prefeito,
na inauguração.
Na quarta-feira (26), a reportagem visitou a AMA Vila Guarani (Zona Leste),
inaugurada há dois anos, a AMA Dr. Flávio Gianotti (no Ipiranga, Zona Sul),
aberta há três meses, e a UBS Jardim São Jorge (Zona Oeste), que está em
obras para "abrigar" uma AMA.
Obras desse tipo ajudam a explicar como a prefeitura inaugura tantos
ambulatórios em um prazo tão curto: na maioria dos casos, são "adaptadas" as
unidades básicas de saúde já existentes, em reformas que, de acordo com
Secretaria Municipal da Saúde, custam em média R$ 500 mil cada.
Mais de 50 das AMAs em atividade atualmente são UBS adaptadas. Na maioria
dos casos, o espaço físico é dividido ao meio, e metade fica sendo AMA,
metade UBS. Se há terreno livre no local, é construído um anexo, que é
equipado com consultórios.
O secretário municipal da Saúde, Januario Montone, disse que existe "uma
capacidade física ociosa na rede de postos de saúde de São Paulo". "Se houve
uma readequação, foi porque havia esse espaço. Investir em algo que já se
construiu é mais vantajoso do que começar do zero", declarou.
A expansão da rede de AMAs se dá ao mesmo tempo em que estratégias antes
tidas como prioritárias em São Paulo, como o Programa Saúde da Família (PSF,
programa federal de medicina preventiva que repassa verbas ao município),
perdem importância. Há casos em que o espaço físico utilizado pelos
profissionais do PSF e pelos médicos das UBS, que atendem à população em
consultas com hora marcada, é literalmente invadido pelo novo modelo.
É o que está acontecendo na UBS Jardim São Jorge, situada no bairro de mesmo
nome, na região do Butantã. Até a primeira quinzena de março, toda a área do
prédio era ocupada por equipes do PSF. Na semana passada, os médicos tiveram
de desocupar metade dos consultórios, e o edifício foi dividido ao meio,
para dar lugar à nova AMA Jardim São Jorge.
Márcia Gadargi, assessora da Coordenação Centro-Oeste da Secretaria
Municipal de Saúde, explica que a reforma deve durar de 30 a 40 dias. "Os
equipamentos da UBS passaram para o lado direito do prédio, que continuará
especializado no atendimento pré-agendado. Do lado esquerdo, haverá uma AMA
com 5 consultórios, duas salas de observação, uma para curativos e outra
para inalação", disse. De acordo com ela, nesse prédio híbrido, a AMA e a
UBS serão instituições independentes, mas dividirão a sala de esterilização,
a copa e a farmácia.
Consultas desmarcadas
A reportagem visitou as obras da AMA Jardim São Jorge e constatou que a
reforma tem afetado a rotina de médicos e pacientes. A sala do vigia, por
exemplo, virou sala de marcação de consultas. Em meio a pintores e pedreiros
em atividade, pessoas formam fila aguardando a vez de ser atendidas.
| O
termo AMA (Assistência Médica Ambulatorial) foi criado na
gestão do prefeito José Serra (PSDB) para designar
ambulatórios de pronto-atendimento. São postos de saúde
destinados a resolver ocorrências de baixa complexidade, que
não envolvam risco de morte ou de lesão irreversível no
paciente. Na cidade de São Paulo, se uma pessoa sofre uma
fratura, um acidente de trânsito ou um ferimento à bala, é
transferida para um pronto-socorro. Já sintomas de mal-estar
repentino, como uma dor de cabeça, uma febre ou uma crise de
hipertensão, são tratados na AMA. A diferença desse serviço
para o de uma unidade básica de saúde (UBS) é que o paciente
não precisa agendar consulta com antecedência. |
| ENTENDA A DIFERENÇA
ENTRE AMA, PRONTO-SOCORRO E UBS |
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"De uma hora para outra, os médicos tiveram de se adaptar a espaços
menores e até desmarcar consultas por falta de lugar para atender. Eu mesma
fiquei sem consultório, e recebi um grupo de pacientes no pátio", disse ao
UOL uma médica da UBS, que prefere não se identificar. "Por causa da
reforma, os funcionários pedem para a gente procurar a AMA de outro bairro,
o Jardim Paulo 6º", declarou Cláudio Freitas, representante da comunidade
local no conselho gestor do posto de saúde.
Abaixo-assinado
Exibindo um abaixo-assinado com 1.817 assinaturas, Freitas explica que há
anos a população do Jardim São Jorge pede a instalação de um posto de saúde
24 horas no local. "A cada administração, mudam o nome do serviço e dizem
que vai melhorar. Na época da (Luiza) Erundina, era hospital de
pronto-atendimento. Aí veio o (Paulo) Maluf e transformou em PAS. A Marta
(Suplicy) chamou de UBS e colocou as equipes do Programa de Saúde da
Família. Agora vai ser AMA, aberta das 7h às 19h. Queremos que funcione dia
e noite, para não termos de levar criança ao pronto-socorro só por causa de
uma febre", afirma.
De fato, o propósito de um ambulatório de pronto-atendimento é desafogar as
filas dos pronto-socorros (leia quadro). Mas da forma como as AMAs estão
sendo feitas, talvez não resolvam o problema. A reportagem apurou que,
atualmente, o critério da Prefeitura para transformar um posto de saúde em
AMA é o espaço. Somente prédios de grandes dimensões ou que tenham terreno
disponível para a construção de uma edícula ganham roupagem nova. Dessa
forma, podem ocorrer distorções: uma região carente, que não tenha espaço
"adequado" para receber a AMA, fica sem o serviço.
Ao visitar a AMA Dr. Flávio Gianotti, instalada em um gigantesco ambulatório
de especialidades no bairro do Ipiranga, a reportagem se deparou com
corredores vazios e sem filas. De acordo com a gerente da AMA, Cilene
Trajano, a unidade realiza de 160 a 185 atendimentos por dia, em geral de
pacientes jovens com gripe e febre e idosos com pressão alta ou dor no
peito.
"Se a pessoa tiver uma crise de pressão alta, vem aqui e recebe medicação.
Se detectarmos que tem problema cardíaco, nós a encaminhamos de volta à UBS
perto da sua casa, para dar continuidade ao tratamento", afirma Cilene. Como
essa AMA não tem ortopedista ou sala de gesso, se alguém chegar com suspeita
de fratura, tirar o raio-X e for detectada uma fratura, é preciso chamar uma
ambulância e encaminhar o paciente a um hospital.
No outro extremo da cidade, a AMA Vila Guarani, na Mooca (Zona Leste), os
corredores estão sempre cheios. De acordo com a gerente da unidade, Lêssemi
Rinaldi, o prédio era uma UBS grande, de dois pavimentos, e o piso de baixo
virou AMA. "Realizamos 450 atendimentos por dia e a espera para ser atendido
varia de uma hora a uma hora e meia", afirma. E isso não ocorre porque falta
pessoal. É que a AMA Vila Guarani recebe pacientes de toda a região da
Mooca, um público potencial de 45 mil pessoas, que não encontrou atendimento
perto de casa.
Na quarta-feira, a doméstica Izilda de Moraes e seu marido, o aposentado
Hamilton, procuraram a AMA Vila Guarani porque ela estava com alergia
respiratória. "Primeiro tentamos ir à AMA Vila Diva, que é perto de nossa
casa, mas não conseguimos. Passamos por uma triagem para pegar senha e nos
informaram que o tempo de espera seria de 3 horas", explica Hamilton.
"Descontinuidade"
Para especialistas ouvidos pelo UOL, os problemas na rede AMA
refletem a falta de planejamento para a malha de serviços de saúde de São
Paulo. "Cada prefeito que chega ao poder tem um projeto diferente, que rompe
com o que se estava fazendo até então. Essa descontinuidade tem um efeito
dramático sobre a política de saúde pública da cidade", disse o médico Paulo
Elias, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo.
De acordo com Luis Fernando Rolim Sampaio, diretor do Departamento de
Atenção Básica do Ministério da Saúde, sempre que existem dois modelos
diferentes concorrendo num mesmo território, surgem conflitos. "Entre
esperar três meses por uma consulta numa UBS e ser atendido na hora na AMA,
qualquer pessoa vai preferir a segunda opção. O risco é o paciente crônico,
que tem de voltar periodicamente para controlar hipertensão e diabetes, não
procurar mais ao médico que o acompanha", afirmou. "Quem faz tratamento
preventivo é médico de saúde da família ou posto de saúde."
Tanto Elias quanto Sampaio afirmam que se não houver integração entre os
serviços das AMAs, das UBS e o Programa Saúde da Família, há desperdício de
dinheiro público. "Se a cada vez que você procura o serviço, é atendido por
um médico diferente, não tem como acompanhar seu histórico, e vai ter de
repetir uma série de exames. Então o problema não é só a Prefeitura promover
maior acesso a serviços de saúde. Também deve haver preocupação com a
eficiência do gasto do dinheiro público", conclui Sampaio.
Outro lado
A Secretaria Municipal da Saúde promete que, quando todas as AMAs estiverem
em funcionamento, São Paulo passará a contar com uma oferta de 1,1 milhão de
consultas adicionais mensais - cada unidade teria capacidade para fazer até
10 mil consultas por mês. A entidade afirma que, em 2007, apenas 5% dos
pacientes atendidos pelas AMAs necessitariam de encaminhamento para
especialistas - o que o sistema não prevê.
"As pessoas atendidas pelas AMAs em outras gestões não contavam com outra
opção de atendimento. Elas dependiam apenas dos pronto-socorros dos
hospitais ou da possibilidade de encaixe de consulta numa UBS. O que a
Prefeitura fez foi criar um serviço capaz de absorver este fluxo
espontâneo", diz a Secretaria da Saúde.
A secretaria rebate, também, a acusação de que a aceleração na inauguração
de AMAs em um ano em que o prefeito Gilberto Kassab pretende disputar a
reeleição tenha fins políticos.
"O processo de implantação de AMAs sempre fez parte do programa de trabalho
desta administração. Desde 2005, esses serviços vêm sendo instalados. Num
primeiro momento, o investimento foi mais lento até para ver como seria o
funcionamento desta nova estrutura e como a população o aceitaria. Era
preciso conhecer os resultados. À medida que os técnicos confirmaram o êxito
da experiência, o projeto se fortaleceu e a própria população passou a
cobrar maior rapidez na instalação dos novos serviços".
O vereador Carlos Apolinário, líder do DEM (partido de Kassab) na Câmara
Municipal, afirmou que a discrepância observada no funcionamento das
unidades "é normal". "É evidente que um posto de saúde na periferia vai ter
sempre mais movimento que outro em um bairro nobre, onde as pessoas têm
plano de saúde", disse. Para ele, também não existe nenhum problema no fato
de a maior parte das AMAs serem prédios reformados, e não equipamentos
novos. "A Prefeitura poderia montar uma AMA em um prédio de 200 anos ou em
uma lona de circo. O que se está inaugurando é um serviço novo, e o que
conta é a qualidade do atendimento que a população recebe", afirma. |