"Violação de Privacidade" vasculha memória dos mortos
 


Divulgação

Por Kirk Honeycutt

BERLIM (Hollywood Reporter) - Não há nada que possa salvar o filme "Violação de Privacidade", nem mesmo uma boa edição, atividade que se presta a fazer o personagem principal na memória de seus clientes mortos.

Este primeiro trabalho confuso e pouco interessante do roteirista e diretor Omar Naim traz Robin Williams numa performance pouco inspirada e Mira Sorvino compreensivelmente confusa quanto a quem deve representar.

Em seus filmes mais recentes, Robin Williams deixou claro seu desejo de afastar-se do gênero cômico maluco. Em "Insônia" e "Retratos de Uma Obsessão", ele foi elogiado pela crítica por representar personagens obscuros, feridos e donos de segredos sombrios.

Agora ele nos traz mais um personagem no mesmo estilo, mas o efeito já não é tão forte. Mais uma vez o ator representa um homem silencioso e que aparece pouco, com rosto inexpressivo, fisicamente rígido e falando de maneira exageradamente precisa.

Desta vez o personagem se chama Alan Hackman, um homem que se dedica a recortar a vida dos mortos: ele é "cortador", ou seja, um profissional que edita implantes de memórias de clientes mortos, reduzindo suas vidas a uma versão censurada que pode ser exibida nas cerimônias fúnebres dos clientes.

Vale a pena parar para analisar a premissa: quem em sã consciência iria querer que alguém analisasse cada momento pessoal de sua vida?

Outra coisa, será que o "cortador" não levaria uma vida inteira para assistir à vida toda de outra pessoa? Bom, talvez ele pudesse acionar o botão de "fast-forward" durante as horas de sono do cliente, mas mesmo assim...

Seja como for, Alan possui um talento especial: ele é capaz de vasculhar as memórias de pessoas decadentes ou malévolas, cortando fora os pedaços lamentáveis e encontrando alguns momentos capazes de redimir o "demônio", fazendo com que pareça um anjo.

SIMPLISTA DEMAIS

Mira Sorvino é Delila, a relutante namorada de Alan -- e não se pode culpá-la pela relutância. Afinal, quem gostaria de namorar um sujeito que, basicamente, passa sua vida assistindo à vida dos outros?

O último cliente morto importante de Alan, um advogado da empresa que o emprega, chama a atenção de Fletcher (Jim Caviezel), chefe de um grupo político que se opõe radicalmente à tecnologia dos cortadores, vista como invasão de privacidade.

Presumindo que a vida do advogado morto contenha dados importantes sobre a empresa, Fletcher quer a qualquer custo ter acesso a essas imagens. Então, quando Alan está vasculhando a memória do advogado, ele de repente vê alguém que guarda relação com seu próprio segredo sombrio: a culpa que Alan sente pela morte de um amigo de infância, que, vamos descobrir, pode não ter morrido, afinal.

Enquanto isso, Alan tenta reacender a chama de seu romance com Delila. E isso traz à tona outro segredo sujo dele.

Nenhuma das subtramas chega a ser realmente interessante. Fletcher e seus capangas parecem aguardar às margens do filme, prontos para transformá-lo em suspense, mas Naim não consegue despertar muito interesse por esse aspecto da história.

Mas, se o diretor queria fazer um filme de ficção científica que enfatiza os personagens, ele fracassou também nesse intento.

Atribuir tudo em que um homem se transformou a um único incidente ocorrido em sua infância é excesso de simplismo. Mesmo assim, o incidente não chega a explicar por que ele virou cortador, nem por que não consegue que suas relações amorosas dêem certo.

O mundo criado pelo designer James Chinlund e o diretor de fotografia Tak Fujimoto é sombrio, mas não chega a ser futurista. A trilha sonora de Brian Tyler se esforça arduamente para criar suspense onde esse elemento está em grande medida ausente.