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epidemia da Insônia São muitos os distúrbios que tornam insatisfatório o descanso noturno, às vezes de maneira discreta, outras, dramática. De qualquer forma, é cada vez maior o número de pessoas que sofrem com noites maldormidas. por Chiara Palmerini Tradução: Alessandra Pavesi |
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Nunca foi fácil lutar contra a insônia. No século XVII, pessoas com
distúrbios do sono recebiam uma prescrição inusitada do médico e poeta gaulês
William Vaughan: "corte, na extremidade de seu gorro de dormir, um buraco pelo
qual o vapor possa sair". A receita sugere que todos os remédios disponíveis já
haviam sido experimentados. Atualmente, a Classificação Internacional De
Distúrbios Do Sono (Cids) enumera cerca de 90 distúrbios, numa lista que contém
desde os mais comuns, como a insônia, até os mais raros, quase desconhecidos.
Entre 10% e 20% das pessoas afirmam dormir pouco e mal. Nesse universo, há mais
mulheres que homens e mais idosos que jovens. A insônia parece ser uma
verdadeira epidemia nos países industrializados, muito difícil de curar, se for
verdade que - como afirma Elio Lugaresi, um dos pioneiros da medicina do sono e
diretor do Instituto de Clínica Neurológica da Universidade de Bolonha, Itália -
"cada insone é um problema em si". Marcel Proust, por exemplo, não podia ir para
a cama se suas ceroulas não estivessem presas na cintura por um determinado
alfinete, conta o pesquisador da Universidade de Cambridge Paul Martin em
Counting Sheep: The Science And Pleasures Of Sleep And Dreams. Junto com o
alfinete, proust perdia o sono.
Regras elementares, geralmente bem conhecidas dos insones - não beber café e
dormir sempre no mesmo horário -, e os fármacos, especialmente aqueles de última
geração, podem funcionar quando o distúrbio ainda está no começo. A insônia
crônica, porém, escreveu Jean-Anthelme Brillat-Savarin, advogado e gourmet
francês do século XVIII, é "uma verdadeira maldição". Muitos especialistas
concordam.
NOITES DE PESADELO
Dificuldade para dormir à parte, o sono é também o berço de fenômenos
realmente bizarros. Os vídeos dos pacientes submetidos a polissonografia no
laboratório da clínica neurológica de Bolonha ao longo dos anos mostram um
repertório daquilo que pode acontecer durante a noite. Homens e mulheres,
crianças, adultos ou idosos levantam-se repentinamente, pulam da cama, agitam-se
até arrancar os eletrodos, contorcem-se em estranhas danças envolvendo pernas e
braços ou imitam gestos da vida cotidiana. Sempre dormindo.
A medicina do sono, que começou a explorar esse mundo desconhecido somente a
partir dos anos 60, desvelou muitos aspectos em um ritmo impensável. "Naquele
tempo - conta Lugaresi -, em muitos ramos da medicina era necessário revolver
toneladas de terra para encontrar a pepita de uma descoberta. No estudo do sono,
bastava apenas raspar o terreno para descobrir uma jazida."
Um distúrbio que somente há alguns anos foi reconhecido como problema médico, o
segundo mais difundido depois da insônia, é a apnéia obstrutiva, chamada também
"síndrome de Pickwick". O nome vem de um personagem de Charles Dickens, o gordo
e guloso Joe, que era tomado por uma sonolência invencível durante o dia. A
pessoa que sofre desse mal pode acordar, sem dar-se conta, até cem vezes por
noite.
Devido a uma asfixia momentânea, pára de respirar por um intervalo que vai de
poucos segundos a mais de um minuto, até o momento em que dispara um mecanismo
fisiológico de alarme. Então arqueja, retoma o fôlego e volta a dormir até a
crise seguinte. Esse contínuo quase despertar torna o sono fragmentado e
descontínuo, tanto que o sintoma principal, além do ronco que muitas vezes
acompanha o distúrbio, consiste em uma grave sonolência durante o dia.
Também a "síndrome das pernas inquietas" pode atormentar as noites de muitos, 4%
da população, segundo estimativas. Assim batizada nos anos 40 pelo neurologista
sueco Karl Ekbom, foi descrita com base em diagnósticos precisos somente há
alguns anos. As pessoas que sofrem desse distúrbio queixam-se de uma sensação de
desconforto nas pernas, geralmente na panturrilha, e de uma necessidade
irresistível de mexê-las para aliviá-la. A falta de ferro e uma anomalia no
funcionamento dos sistemas dopaminérgicos do cérebro são possíveis causas.
FENÔMENOS ENIGMÁTICOS
As verdadeiras protagonistas da noite são, porém, as parassonias, que
representam 10% de todos os distúrbios do sono. A essa categoria pertencem os
fenômenos mais misteriosos e desconcertantes. Alguns são conhecidos desde a
Antigüidade, como o sonambulismo, os terrores noturnos e a paralisia do sono,
mas só recentemente foram definidos com clareza. E outros são novos, como o
distúrbio comportamental do sono REM ou a epilepsia noturna.
Hoje, sabe-se que o sonambulismo e o sonilóquio são produtos da fase não-REM do
sono, a de ondas lentas. Assim como os terrores noturnos, esses fenômenos são,
geralmente, típicos da infância. A aterrorizante paralisia do sono é uma
experiência que 5% a 6% das pessoas experimentam pelo menos uma vez na vida. Em
Moby Dick, Herman Melville descreve o fenômeno que, segundo especialistas,
deriva de um despertar parcial anômalo do sono REM, aquele em que se sonha.
Característico da fase REM do sono, é um tipo particular de distúrbio, que
acarreta movimentos bastante agitados durante uma fase normalmente marcada por
relaxamento do tônus muscular. Michel Jouvet já observara que gatos dos quais
determinados centros nervosos haviam sido cortados moviam-se, pareciam caçar e
perseguir presas imaginárias ou começavam a lavar-se. O mesmo acontece com
pessoas portadoras desse distúrbio: encenam seus sonhos. A patologia foi
descrita, pela primeira vez, em 1986, por Mark Mahowald e Carlos Schenk, da
Universidade de Minnesota, Estados Unidos, depois de estudarem os casos de
quatro pacientes que agrediram suas companheiras durante o sono. Um deles quase
estrangulou a esposa que dormia a seu lado, durante um sonho em que lutava
contra um veado e queria quebrar o pescoço do animal.
Uma parassonia recém-descoberta é a epilepsia noturna do lobo frontal, estudada
no laboratório bolonhês a partir dos anos 80. Um vídeo mostra um jovem que
repete, dezenas de vezes durante a noite, um movimento do braço sempre idêntico.
Em outro, aparece uma mulher que, a intervalos regulares, levanta-se e senta na
cama de um só impulso.
Pode acontecer também que o sono invada os territórios da vigília de forma
patológica. A narcolepsia, que alguns devem conhecer devido à descrição de
Jonathan Coe em seu romance A Casa do Sono, é o exemplo mais dramático. Quem
sofre da doença pode adormecer durante uma conversação, na sala de aula,
enquanto come ou espera o ônibus. Qualquer emoção, uma risada, uma surpresa, um
impulso de raiva, pode levar o portador do distúrbio a perder, de repente, o
tônus muscular até encontrar-se na impossibilidade de mover-se ou falar, mesmo
estando consciente. Essa doença, considerada por muitos quase uma curiosidade,
tem, provavelmente, a mesma incidência da esclerose múltipla e do mal de
Parkinson: afeta uma pessoa em 2 mil. Hoje, sabe-se que, na origem dessa
síndrome, há um grupo de neuropeptídeos com o nome curioso de hipocretinas. Uma
equipe de pesquisadores da Universidade Stanford, EUA, identificou a anomalia
genética que provoca a narcolepsia nos cães. No caso do homem, o mecanismo da
doença ainda não foi totalmente esclarecido, apesar de estar aparentemente
associado à incapacidade do hipotálamo de produzir hipocretina, um dos hormônios
que regulam o sono e a vigília.
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Insônia Fatal |
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A autora |
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