MÚSICA

Grupo congolês que eletrifica instrumento típico com peças de ferro-velho toca hoje no Rio e amanhã em Salvador

Konono mira tradição e cai na vanguarda

DA REPORTAGEM LOCAL

Tradicional (e bem-vindo) por apresentar ao público brasileiro nomes desconhecidos do mainstream, ainda mais no universo da percussão, o festival Tim PercPan, que se encerra hoje no Rio e acontece neste final de semana em Salvador, às vezes necessita de bula.
Esse é o caso com o congolês Konono nº1, atração de hoje ao lado do grupo de rap da Tanzânia X Plastaz e dos brasileiros Lucas Santana e Gilberto Gil.
Cerca de 25 anos atrás, Mingiedi, o Jimi Hendrix do "likembé" -instrumento africano típico que consiste em uma cabaça de madeira e umas chapas de metal tocadas com os dedos-, decidiu abandonar a fronteira do Congo com Angola para tentar a vida em Kinshasa, capital congolesa.
Juntou parceiros de instrumento e outro tanto de peças de ferro-velho "para amplificar sua música, que, de outra forma, não poderia ser ouvida pelos espíritos ou por seus novos concidadãos devido ao ruído excessivo das ruas" e fundou o tal Konono nº1.
Quem conta a história é Marc Hollander, criador do selo belga Crammed Discs, que só recentemente descobriu a banda de Mingiedi, agora com 12 integrantes -entre tocadores de "likembé", percussionistas, cantores e dançarinos-, se apresentando em festas de casamento e funerais.
"Apesar de tocarem música ritual tradicional, eles usam microfones construídos à mão com velhas baterias de carro; os amplificadores foram feitos de antigos alto-falantes deixados para trás pelo regime colonial", conta Hollander, que lançou, em março deste ano, o primeiro álbum de estúdio do grupo, "Konono nº1".
Carro-chefe da coleção Congotronics, que trará outras bandas similares direto das ruas de Kinshasa, o disco foi considerado o azarão do ano por críticos do jornal inglês "The Guardian", das revistas "Wire" e "Les Inrockuptibles" e do site Pitchfork.
"Por causa dessa mutação técnica, o som deles acabou se tornando alto, distorcido, cru, e eles gostaram. Como resultado disso, também o estilo deles mudou. Passaram a soar como primos sonoros de algumas formas da eletrônica ocidental ou do avant-rock", defende Hollander.
Alguns sintomas da boa acolhida internacional são: 1) em maio, a trupe liderada por Mingiedi começa uma turnê pelos grandes festivais de rock e eletrônica europeus com a banda Tortoise; 2) duas de suas faixas foram incluídas em um split do selo Fat Cat e outra foi gravada pelo Ex; 3) segundo Hollander, os pedidos de remixes não param de chegar.
No Brasil, tinham um encontro marcado com a Velha Guarda da Portela, ontem, no Rio. No domingo de manhã, em Salvador, conhecem o grupo de percussão Lactomia, no Candeal.
Ainda neste mês, o selo/importadora Peligro (www.peligro. com.br) pretende trazer ao país o CD "Konono nº1". (DA)
 


Tim PercPan - Konono nº1
Quando:
hoje, às 20h, no teatro Carlos Gomes (pça. Tiradentes, Rio, tel. 0/xx/ 21/2232-8701); amanhã e dom., às 20h, no teatro Castro Alves (pça. Dois de Julho, Salvador, tel. 0/xx/71/3339-8000)
Quanto: R$ 20 (ingr. esgotados no Rio)