Governo estipula teto para carga tributária e limita gastos públicos

ANA PAULA RIBEIRO
da Folha Online

No momento em que a qualidade dos gastos públicos e o aumento de impostos para financiar essas despesas são criticados, o governo inova e diz que irá limitar as despesas correntes e fixa um teto máximo para a carga tributária federal.

A LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) de 2006 limita a 16% do PIB (Produto Interno Bruto, soma de todas as riquezas produzidas por um país) a carga tributária do governo federal para os próximos três anos --2006 a 2008.

Também foi colocado um limite para as despesas correntes não-financeiras dos orçamentos fiscal e da seguridade social, como o pagamento de salários dos servidores, que será de 17% do PIB.

Segundo o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Bernard Appy, essa limitação foi um pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Além dos limites impostos, as LDOs de 2007 e 2008 terão que estabelecer metas de redução da carga tributária das receitas administradas e das despesas correntes não-financeiras.

"Nós reconhecemos que é preciso fazer um esforço para reduzir a carga tributária", disse o ministro do Planejamento, Paulo Bernardo.

Ele explicou ainda que a redução das despesas correntes será feita pela diminuição do déficit da Previdência Social --no final do mês passado, o governo lançou um programa para redução do déficit previdenciário-- e pela melhora dos gastos de custeio --despesas de viagens e compras, por exemplo.

Caso se confirma a redução de gastos e da carga tributária, essa "sobra" será repassada à sociedade, promete o governo. Segundo Appy, essas duas reduções permitirão novas medidas de desoneração fiscal para o setor produtivo ou para os bens populares.

Reeleição

Os limites fixados pela LDO terão de ser cumpridos até 2008. Ou seja, além do mandato do presidente Lula, que termina em 2006.

Para o secretário-executivo disse ainda que esses limites, que --de gastos e de carga tributária-- são desafios para o próximo governo, do presidente Lula, caso reeleito, ou do que vencer as eleições do ano que vem.

"Se não for eleito este governo, é um desafio para outro governo."

Sobre o governo ter colocado como limite de carga tributária um patamar que é recorde, Appy disse considerar essa crítica algo "estranho".

"Eu estranho que as mesmas pessoas que fizeram o aumento da carga tributária venham criticar essa manutenção", disse Appy. Ele fez referência ao governo anterior. Em 1996, a carga tributária era de 11%, em 2002 --último ano do governo FHC-- foi de 16,3%.

Em 2004, a carga tributária do governo federal foi de 16,2%, contra 15,6% no ano anterior.

Parâmetros

A LDO também instituiu parâmetros para os principais indicadores econômicos. É sobre esses parâmetros que o Congresso irá formular o Orçamento de 2006.

Pela lei, o governo espera que o PIB cresça 4,5% em 2006, 2007 e 2008. Nos três anos, a previsão é que o superávit primário (receitas menos despesas, excluindo gastos com juros) fique em 4,25% do ano --meta que já é adotada neste ano.

Para a taxa de dólar, a expectativa é que a média anual fique em R$ 2,90 no ano que vem, R$ 3,06 em 2007 e, para o ano seguinte, R$ 3,16.

Já para o INPC (Índice Nacional de Preços ao Consumidor), o governo prevê uma inflação de 4,16% (2006), 3,92% (2007) e 3,99% (2008).

Para o salário mínimo, que a partir de maio será de R$ 300, o parâmetro é que ele tenha um aumento real no próximo ano --INPC mais a variação do PIB per capita.

De acordo com Appy, os limites para gastos e teto da carga tributária não irão engessar o governo caso haja uma crise financeira.

"Se for necessário [o aumento da meta de superávit primário], faremos", disse. No entanto, segundo ele, isso não será feito através do aumento da carga tributária.