RAFAEL GOMEZ
da BBC Brasil, em Miami
A brigada brasileira da Força de Paz da ONU no Haiti anunciou nesta sexta-feira
que vai ampliar as medidas de segurança na capital do país, Porto Príncipe, em
virtude do aumento da violência das últimas semanas.
De acordo com um boletim informativo divulgado pela brigada, seis medidas
passaram a ser adotadas a partir desta sexta-feira, entre elas o patrulhamento
aéreo da capital e o uso de blindados em patrulhas durante a madrugada.
Também nesta sexta-feira, a polícia do Haiti realizou uma operação em um reduto
de simpatizantes do ex-presidente Jean-Bertrand Aristide em Porto Príncipe.
Durante a operação, ocorrida no início da noite, os policiais invadiram a favela
de Bel Air. Segundo testemunhas, foram ouvidos tiros, embora não se saiba ao
certo quem os tenham disparado.
A operação encerrou um dia de tensão em Porto Príncipe, durante o qual
simpatizantes de Aristide celebraram os dez anos do retorno do presidente ao
país depois de ter sido afastado em um golpe de Estado, em 1991.
Embaixada
A embaixada americana na capital foi fechada, e os representantes dos Estados
Unidos reiteraram a recomendação para que seus cidadãos deixassem o país.
O porta-voz interino das tropas brasileiras no Haiti, o coronel Luiz Felipe
Carbonell, disse que boa parte do comércio fechou as portas, temendo atos de
violência, e foram registradas pequenas manifestações na cidade.
O militar explicou por telefone à BBC Brasil que os últimos dois dias foram
relativamente calmos na região de Porto Príncipe, onde cerca de 1,2 mil soldados
brasileiros, integrantes da força de paz da ONU para o Haiti, estão
estacionados.
"O comércio combinou uma greve, muito menos gente estava nas ruas, mas não houve
grandes incidentes. No porto, mais de dez barcos descarregaram sem problemas",
explicou Carbonell.
O militar disse que a operação da polícia haitiana foi o momento de maior tensão
do dia, mas disse que "não tem notícias" de mortos ou feridos.
Desde o final de setembro, mais de 40 pessoas morreram em episódios de violência
no Haiti, principalmente em Porto Príncipe.
Simpatizantes de Aristide --que deixou o poder em fevereiro e vive no exílio na
África do Sul-- estão sendo culpados pelas mortes.
Mas, segundo Carbonell, o recrudescimento da violência no Haiti é resultado das
expectativas frustradas da população nos últimos meses.
Frustração
"Havia uma expectativa de mudanças que foi frustrada nos últimos meses. No
Haiti, as pessoas não têm perspectivas, há falta de empregos", disse.
"Em Porto Príncipe mesmo, há pessoas que passam fome. (...) e também há uma
grande falta de policiais, que deveriam cuidar dos crimes comuns."
"Vai chegar um ponto em que não adiantará conversar. E nós não queremos recorrer
à violência, porque a violência gera violência. Não podemos resolver os
problemas da população", explicou, ressaltando que, até o momento, não foram
registrados episódios de hostilidade contra os soldados brasileiros.
O coronel elogiou a iniciativa do ministro das Relações Exteriores, Celso
Amorim, que nesta quinta-feira pediu que os países que prometeram contribuir com
tropas para a força de paz da ONU no Haiti o façam com urgência.
Segundo Amorim, no momento a força de paz da ONU opera com menos da metade do
número de soldados que foram prometidos (6,7 mil).
Rebeldes
Carbonell também explicou que, até o momento, as tropas brasileiras não se
depararam com bandos armados dos chamados rebeldes que, até fevereiro, avançavam
pelo interior do Haiti tomando diversas cidades, exigindo a saída de Aristide do
poder.
Na quarta-feira, um líder dos rebeldes, Remissainthe Ravix, disse que essas
pessoas, ex-membros das Forças Armadas do país, estavam se encaminhando para a
capital para "impor a ordem" em Porto Príncipe --o que gerou temores de que eles
iriam entrar em confronto com simpatizantes de Aristide.
"Eles (os rebeldes) não são mais um grupo ilegal. Foram legalizados e estão em
negociações com o governo para receber seus soldos. O líder 'rebelde' está sendo
chamado até de 'Comandante das Forças Armadas'. Se eles convocarem
manifestações, estarão exercendo seus direitos como cidadãos", disse o
porta-voz.
"Temos conhecimentos de que eles se juntaram em algumas cidades perto de Porto
Príncipe, e há alguns que moram aqui na capital. Mas não testemunhamos pessoas
armadas chegando na cidade, nem grupos armados ilegais."
"Não é do interesse deles (causar problemas), pois, agora que estão em
negociações com o governo, não querem ser colocados na clandestinidade",
concluiu.