Você certamente já se expôs ao contágio da endorréia. Para isso, basta
atender aos operadores de telemarketing em geral. A endorréia é uma
doença verbalmente transmissível também conhecida como gerundismo. Pois
agora, o governador de Brasília tomou medidas profiláticas: ele
simplesmente demitiu o gerúndio!
A gravação deixada na secretária eletrônica de Filipe é um bom
exemplo do uso inadequado do verbo "negociar". “Tô ligando a respeito do
seu requerimento financeiro. O requerimento já tá respondido, eu pediria
pra você tá negociando o seu débito na faculdade. Obrigada. Boa tarde”.
“Ela podia ter dito que era pra negociar. Não para estar negociando.
Não precisava dessa formalidade toda”, diz Luiz Filipe Machado,
publicitário.
Não é só formalidade, mas uso inadequado da língua portuguesa. Há
dezenas de comunidades na internet que protestam contra o uso abusivo do
gerúndio. Uma delas tem mais de 40 mil participantes.
O governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, também se
cansou, e resolveu acabar com o tempo verbal por decreto.
No decreto publicado no Diário Oficial, Arruda diz que “fica demitido
o gerúndio de todos os órgãos do Governo do Distrito Federal”. E que
“fica proibido o uso do gerúndio para desculpa de ineficiência”.
Estudantes de letras na Universidade de Brasília, porém, ficaram
chocados com a medida. “Um absurdo. Não tem lógica isso. Proibir o uso
de uma língua”, diz uma estudante.
O gerúndio é usado para expressar uma ação em curso. Por exemplo: o
governador Arruda está viajando e só vai comentar a reportagem quando
voltar dos Estados Unidos. Mas seus assessores explicaram que a intenção
é acabar com o gerundismo, um vício de linguagem que virou praga, e que
revela a ineficiência do serviço público.
Diante das centenas de reclamações que chegam todo dia, muitos
funcionários respondem com frases do tipo: “nós estaremos ligando”, “nós
estaremos tomando providências”. Até secretários de Estado respondiam
assim às perguntas do governador. Frases, que além de irritar, nunca
passam de promessas.
“Eu apóio. O falando da língua e da gramática sabe que é um erro”,
declara outra estudante.
Mas um professor de português criticou a decisão. “Ele foi infeliz ao
dizer ‘demitir o gerúndio’. Ele deveria ter dito ‘demitir o gerundismo’.
Aliás, a bem da verdade, não deveria ter dito nada. Porque não é matéria
para ele, é matéria para a Academia Brasileira de Letras”, opina Ademir
Menezes, professor de português.