"Filme fala da compreensão do outro", diz brasileiro selecionado para Cannes
 

THIAGO STIVALETTI
Da Redação

 
Divulgação
Cena de 'Cinema, Aspirinas...'


O diretor pernambucano Marcelo Gomes, 42, já sabia há algumas semanas que seu longa de estréia, "Cinema, Aspirinas e Urubus", seria selecionado para a mostra paralela Um Certo Olhar do 58º Festival de Cannes, que acontece de 11 a 22 de maio. "É um filme que fala sobre as diferentes relações que cultivamos na vida e da possibilidade de se compreender o outro", disse Gomes em entrevista por telefone.

"Cinema, Aspirinas e Urubus" conta a história de Johann, um alemão que decide vir para o Brasil fugindo da guerra em 1942. No sertão nordestino, trabalha como caixeiro viajante vendendo aspirina, "a cura de todos os males". Para convencer os compradores, começa a exibir filminhos produzidos pela companhia para a qual trabalha. Em suas andanças, conhece Ranulpho, um paraibano de 40 anos que também está migrando - da pobreza do sertão, ele quer chegar ao rico sudeste do país. Toda a história é baseada na experiência do verdadeiro Ranulpho, tio de Gomes.

O longa, que custou R$ 2,5 milhões, foi filmado entre setembro e outubro de 2003. Gomes o rodou em Super-16 e depois o ampliou para os tradicionais 35 mm. Os dois protagonistas, os atores Peter Ketnath e João Miguel, não são conhecidos da TV.

A trajetória do filme em festivais internacionais começou em setembro do ano passado, quando foi selecionado para participar do Cine Construción no Festival de San Sebastian. O Construción é um departamento do festival que se encarrega de exibir filmes ainda não finalizados para compradores e distribuidores internacionais que possam injetar dinheiro no projeto.

Antes de "Cinema...", Gomes havia feito dois curtas-metragens: "Maracatu, Maracatus", premiado no Festival de Brasília em 1995, e "Clandestina Felicidade". O diretor não gosta de falar sobre a força do cinema pernambucano ou nordestino. "Não existe cinema pernambucano, o que existe são pernambucamos fazendo filmes", afirma. Ele trabalha no roteiro do próximo filme do diretor de "Baile Perfumado", Paulo Caldas, que deve se chamar "Deserto Feliz".

O diretor faz a habitual comemoração do anúncio de Cannes ("estar no festival já é uma vitória", diz), mas não sabe como a participação no evento vai influir no lançamento e na distribuição do filme. "A versão final só ficou pronta hoje mesmo. Agora é que vou sentar com minha distribuidora, a Imovision, para discutir como e quando lançá-lo", disse Gomes.