| Por Jeremy Lovell LONDRES (Reuters) - Quase quatro
anos depois dos ataques de 11 de setembro a Nova York e Washington, os
direitos humanos estão acuados em todo o mundo e os Estados Unidos são
os maiores responsáveis, disse na quarta-feira a entidade Anistia
Internacional.
Do Afeganistão ao Zimbábue, o quadro é sombrio. Os governos oprimem
cada vez mais o estado de direito, guiando-se pelo exemplo da "guerra
ao terror" dos Estados Unidos, segundo o grupo.
"Os EUA como hiperpotência sem rival política, militar e
economicamente dão o tom para o comportamento governamental em todo o
mundo", disse a secretária-geral Irene Khan no prefácio do relatório
anual da Anistia.
"Quando o país mais poderoso do mundo mete o nariz no estado de
direito e nos direitos humanos, concede uma licença aos demais para
que cometam abusos com impunidade", escreveu ela.
A Anistia, com sede em Londres, citou as fotos, divulgadas no ano
passado, de abusos de detentos em Abu Ghraib (Iraque), os quais,
segundo a entidade, não foram adequadamente investigados, e a prisão
sem julgamento de "combatentes inimigos" na base naval de Guantánamo,
encravada em Cuba.
"A detenção de Guantánamo se tornou o gulag (campo de prisioneiros
soviético) dos nossos tempos, entranhando uma prática de detenção
arbitrária e indefinida, em violação ao direito internacional", disse
Khan.
Ela também mencionou as tentativas norte-americanas de driblarem
suas próprias regras contra o uso da tortura.
"O governo dos EUA foi muito longe na restrição à aplicação da
Convenção de Genebra e na 'redefinição' da tortura", afirmou, citando
a detenção secreta de suspeitos e a prática de entregar alguns deles a
países onde a tortura não é ilegal.
O presidente George W. Bush sempre cita a dignidade humana como um
alicerce dos EUA, mas a Anistia acha que há uma grande distância entre
a retórica e a realidade. "Durante seu primeiro mandato, os EUA se
mostraram distantes dos paladinos globais dos direitos humanos que
proclamam ser", disse o relatório.
Mas os EUA não são de forma alguma o único ou mesmo o pior dos
violadores dos direitos humanos. Homicídios, agressões e abusos contra
mulheres e crianças se espalham pelos quatro cantos do globo, segundo
a Anistia.
"Os abusos aos direitos humanos no Iraque e no Afeganistão estavam
longe de serem as únicas repercussões negativas da reação aos
terríveis eventos de 11 de setembro de 2001. Desde aquele dia, o marco
dos direitos humanos internacionais é atacado e prejudicado tanto por
governos quanto por grupos armados", disse a entidade.
A distinção cada vez mais tênue entre guerra ao terrorismo e guerra
à drogas levou alguns governos latino-americanos a usarem militares
para lidar com crimes que são normalmente atribuição da polícia,
afirmou o relatório.
Também na Ásia, a guerra ao terrorismo é pretexto para uma
repressão cada vez maior contra sociedades já prejudicadas pela
pobreza, pela discriminação, por uma série de conflitos de baixa
intensidade e pela politização da ajuda humanitária.
A África é outro continente que permanece imerso em guerras e
repressão política. O lamentável fracasso da comunidade internacional
em agir conjuntamente para acabar com a carnificina na região sudanesa
de Darfur é motivo de vergonha, segundo o relatório.
Khan também condenou a Comissão de Direitos Humanos da Organização
das Nações Unidas (ONU) por não defender aqueles que supostamente
dependeriam da sua ajuda. Ela "se tornou um fórum para negociatas
sobre direitos humanos", disse ela. "No ano passado, a Comissão
retirou o Iraque do escrutínio, não chegou a um acordo sobre o que
fazer na Chechênia, Nepal ou Zimbábue e permaneceu em silêncio sobre
Guantánamo." |