Esquizofrenia muitas vezes é confundida com crise de adolescência, diz psiquiatra

Tatiana Pronin
Do UOL Ciência e Saúde
Quanto mais tardio o diagnóstico da esquizofrenia, mais difícil o controle da doença, que afeta cerca de 1,8 milhão de brasileiros. Os sintomas costumam se apresentar no adolescência ou no início da idade adulta, por isso é comum serem confundidos com rebeldia, excentricidade ou crise passageira.

 
Brainpix
O ator Bruno Gagliasso, que interpreta um jovem que sofre de esquizofrenia na novela "Caminho das Índias", da TV Globo

O personagem interpretado por Bruno Gagliasso, na novela "Caminho das Índias", revela alguns manifestações comuns a quem sofre da doença, como delírios, sensação de estar sendo perseguido e ocorrência de alucinações visuais ou auditivas. "O personagem mostra que, apesar de ter várias alterações, é possível criar empatia com alguém com esquizofrenia, o que ajuda a quebrar o estigma associado à doença", opina o psiquiatra Rodrigo Bressan, professor do departamento de psiquiatria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

A esquizofrenia é uma doença mental crônica, que deve ser tratada continuamente, como se trata o diabetes, por exemplo. Com acompanhamento adequado, é possível levar uma vida normal e produtiva. A terapia envolve medicamentos antipsicóticos, que agem nos receptores de dopamina e serotonina, duas substâncias produzidas no cérebro.

O médico ressalta que a família tem papel fundamental no tratamento. "É muito raro uma pessoa que está começando a apresentar os sintomas da esquizofrenia ir por conta própria ao psiquiatra, pois os sintomas são muito reais para ele", afirma o médico.

 

A Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) criou um programa em que médicos e outros profissionais da saúde vão até as escolas ensinar os professores a identificar alunos com suspeita de doenças psiquiátricas graves, como a esquizofrenia. O foco são estudantes entre 11 e 18 anos de 40 escolas públicas de São Paulo.

Depois de identificados, os alunos seguem para o Proesq (projeto de esquizofrenia da Unifesp) para confirmar o diagnóstico -que envolve entrevistas com os jovens e seus familiares e exames de neuroimagem. No momento, 300 estudantes da zona sul de São Paulo passam por avaliações. Leia mais
DIAGNÓSTICO NA ESCOLA

Para dificultar ainda mais o acesso ao tratamento, frequentemente os familiares não têm informação suficiente e relutam em admitir a doença, até porque transtornos psiquiátricos ainda são fonte de preconceito. Essa também é a realidade do personagem da novela das oito.

O psiquiatra recomenda à família e aos cuidadores de pessoas com esquizofrenia que aprendam sobre a doença, para ajudar o paciente a entender a necessidade de tratamento. Ele também ressalta que o doente não deve ser superprotegido, nem ter suas habilidades subestimadas. "Incentive e estimule o portador a realizar as atividades do dia-a-dia na dose certa, sem exageros", diz.

Conheça alguns mitos e verdades sobre a doença:

A esquizofrenia pode se manifestar na infância?
Sim. Isso é raro, mas quadros esquizofrênicos podem surgir durante a infância e puberdade.

A esquizofrenia pode ser decorrente do modo de educação dos filhos?
Não.

Rejeição emocional na gravidez ou na infância causa esquizofrenia?
Não.

Pacientes com esquizofrenia podem tomar bebidas alcoólicas?
Bebidas alcoólicas podem desencadear surtos esquizofrênicos e devem ser evitadas por esses pacientes.

O paciente com esquizofrenia pode dirigir carro?
Não há uma regra geral. Isso dependerá da gravidade do quadro e a situação deve ser avaliada individualmente pelo médico junto com os familiares.

Uma paciente com esquizofrenia pode engravidar?
Sim. No caso do desejo de ter filhos, é preciso conversar com o parceiro sobre as eventuais limitações que essa pessoa terá para cuidar do filho.

A doença é mais frequente em homens ou em mulheres?
Atinge igualmente ambos os sexos.

Uma pessoa com esquizofrenia pode ser contrariada?
O diálogo com o paciente com esquizofrenia deve ser igual ao diálogo com qualquer outra pessoa.

Se o paciente se recusar a tomar a medicação, pode dar-se o remédio escondido, diluído em algum alimento?
Dar o remédio escondido não é recomendável. O importante é procurar convencer o paciente sobre a importância de tomar a medicação, mostrando que o medicamento reduz os sintomas que ele apresenta.

Os medicamentos usados na esquizofrenia podem viciar?
Não. Antipsicóticos não causam dependência.

Os sintomas da esquizofrenia se manifestam da mesma forma em todos os pacientes?
Não. As manifestações podem ser completamente diferentes de um paciente para outro.

Esquizofrenia é o mesmo que "dupla personalidade"?
Não. "Dupla personalidade" é um distúrbio muito raro, que não tem nada a ver com esquizofrenia.

A agressividade é uma característica da esquizofrenia?
Geralmente não. O seguimento correto do tratamento minimiza os riscos de agressividade.

Os antipsicóticos são uma "camisa-de-força" química?
Não. Esses medicamentos aliviam ou controlam os sintomas da doença e ajudam a evitar novos surtos da doença.

Fonte: "Convivendo com a Esquizofrenia", do psiquiatra Mario Louzã (Ed. Ediouro, 2007)

Pesquisa avalia relação entre depressão e esquizofrenia
Mais de 50% dos pacientes esquizofrênicos têm sintomas depressivos, revela estudo da UFMG
 
Divulgação
 

(Agência Notisa) − É muito comum que pacientes com esquizofrenia desenvolvam sintomas depressivos, o que tem impactos diretos na sua qualidade de vida. Pacientes deprimidos apresentam-se menos satisfeitos com suas atividades diárias e com a sua saúde física e mental. Para se ter uma idéia, em estudos internacionais, a prevalência de depressão na esquizofrenia varia de 7% a 70%, com média de 25%. Já no Brasil foram encontradas taxas em torno de 27% e 29,8%. A psicóloga e pesquisadora da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Clareci Cardoso, doutora em saúde pública e epidemiologia, estabeleceu a prevalência da depressão na esquizofrenia, investigando os fatores associados e sua relação com a qualidade de vida.

Participaram do trabalho 150 pacientes em acompanhamento ambulatorial de um Serviço de Referência em Saúde Mental de Belo Horizonte. De acordo com artigo publicado na edição de setembro de 2007 dos Cadernos de Saúde Pública, "embora a literatura tenha mostrado evidências do impacto da depressão na qualidade de vida dos pacientes com esquizofrenia, não foram identificados trabalhos brasileiros investigando a qualidade de vida sob a ótica da depressão. Este conhecimento é considerado pertinente, tendo em vista que as intervenções terapêuticas e medicamentosas podem melhorar a qualidade de vida desta população, quando a sintomatologia depressiva é previamente identificada".

Os pesquisadores observaram uma prevalência de 56% de depressão maior. Pacientes com depressão maior apresentaram pior qualidade de vida na escala global e domínio ocupacional. Em pacientes com pior qualidade de vida, a presença de sintomas da doença, o número de medicamentos e a ausência de atividades no lar se associaram à depressão, enquanto para aqueles com melhor qualidade de vida, apenas a duração da doença foi importante.

Dessa forma, a equipe recomenda a investigação da depressão associada à qualidade de vida no cuidado terapêutico destes pacientes. "Os resultados deste estudo têm implicações importantes para o tratamento de pacientes com esquizofrenia. Ele confirma que a depressão é comum nesse grupo de pacientes e aponta para uma estreita relação entre depressão e baixa qualidade de vida. Dentro do contexto da inclusão de indicadores de qualidade de vida na rotina dos serviços de saúde mental, faz-se necessário que a gravidade da sintomatologia depressiva na esquizofrenia seja também avaliada", afirmam os especialistas.

Biomarcadores para a esquizofrenia
Cientistas brasileiros identificam compostos que, no futuro, podem ajudar a diagnosticar essa doença
 

O primeiro passo na direção da descoberta de uma proteína que sirva para diagnosticar a esquizofrenia foi dado por pesquisadores brasileiros. Eles acabam de identificar pelo menos sete compostos claramente associados à doença. Para chegar a esse seleto grupo, milhares de proteínas precisaram ser analisadas. Os cientistas afirmam que agora é necessário um minucioso trabalho de validação dos resultados.

A esquizofrenia é conhecida há mais de um século, mas, apesar disso, até hoje seu diagnóstico é feito apenas com base em observaçãos de sintomas pelos médicos. “Há muito tempo que se busca um componente químico que possa evidenciar a existência da esquizofrenia”, diz o bioquímico Daniel Martins-de-Souza, atualmente pesquisador do Instituto Max Planck, na Alemanha.

 

Mapas de proteínas de cérebros esquizofrênicos (esq.) e controles (dir.). Cada mancha escura representa uma única proteína e as setas apontam as proteínas que estão diferentes na esquizofrenia
(imagens cedidas por Daniel Martins-de-Souza).

 

Martins-de-Souza investigou duas regiões cerebrais – o córtex pré-frontal e a área de Wernicke – de 10 esquizofrênicos e comparou o que viu com observações do cérebro de 10 pessoas sem nenhuma complicação mental ou neurológica.

Também foi avaliado o lobo temporal de cinco pacientes esquizofrênicos e cinco pessoas do chamado grupo controle (pessoas sem a doença). “O número de amostras parece pequeno, mas se deve considerar a dificuldade de se conseguir tecido cerebral dos pacientes e controles”, pondera o pesquisador.

Os resultados permitiram identificar 130 proteínas potencialmente ligadas à manifestação da esquizofrenia. “Algumas das novas proteínas reveladas foram a PEBP1, a cristalina, que é uma proteína associada ao ácido hialurônico, e um transportador de cálcio de membrana”, conta o bioquímico. Ele explica que essas proteínas estavam presentes em quantidades diferentes no cérebro dos esquizofrênicos analisados.

Validação dos resultados
A pesquisa foi conduzida durante o doutorado de Martins-de-Souza, no Instituto de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), sob orientação do bioquímico Emmanuel Dias-Neto e do psiquiatra Wagner Gattaz, e no Departamento de Bioquímica da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), sob orientação do biólogo José C. Novello.

Agora, os pesquisadores buscam mais material de estudo para poderem afirmar que existem marcadores biológicos da esquizofrenia. “Nosso grupo e outros grupos mundo afora têm buscado a validação desses resultados”, conta Martins-de-Souza. 


Mariana Ferraz
Ciência Hoje/RJ