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Entrevista coletiva concedida pelo presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, aos jornais populares: Meia Hora (RJ), Super Notícia (MG), Diário Gaúcho (RS) Agora São Paulo (SP), Aqui DF (DF), Daqui (GO), Notícia Agora (ES), Notícia Já (Campinas-SP)
Palácio do Planalto, 03 de setembro de 2008
Presidente: Mas a sensação ontem... Passamos a vida inteira achando que 20 metros de profundidade era muito fundo, 50 metros era... Agora, imaginar pegar uma coisa a 4.500 metros de profundidade, é um negócio inexplicável. Do ponto de vista tecnológico, acho que a Petrobras marcou um ponto ontem excepcional. O significado de ontem é que o pré-sal não é uma esperança mais, é uma realidade. Aquele poço vai começar a produzir, líquido, 18 mil barris, o que, na lógica da Petrobras, um poço vertical produzir 18 mil barris/dia é um sucesso excepcional. Eu não entendo a linguagem deles, mas é um sucesso excepcional. Esse poço vai servir para a Petrobras como uma escola para os outros poços do pré-sal. Todos os problemas que vão ter nesse poço serão um acúmulo de aprendizado para os próximos poços.
Eles estavam contando ontem para nós que quando começaram a furar esse poço, de repente parava, aí de repente saía, e de repente parava. Sabe uma torneira, quando você abre que ela está com ar dentro e que sai jato d’água, pára de sair e sai jato d’água. Eles foram descobrir depois, que o gás, numa determinada temperatura, vira cristal. Então, o gás quando entrava na tubulação virava cristal. Isso, no sábado passado à noite. Eles conseguiram resolver.
Acho que esse poço vai ser a grande escola de doutoramento para que, quando a gente começar a furar Tucuí, em março do ano que vem, a gente já tenha todas as lições que tínhamos que aprender resolvidas. Por isso, foi um marco excepcional ontem. Prontos, meninos?
Jornalista: Temos um desafio tecnológico a ser vencido aí, não é, Presidente? Seis meses são suficientes?
Presidente: Acho que tem desafios tecnológicos, mas a Petrobras não está preocupada com o desafio tecnológico, porque ela já detém o conhecimento. O que a Petrobras tem dúvida – e é por isso que esse poço é importante – é que uma temperatura de 200 graus, ou uma pressão mais forte possam causar problemas desse tipo, que causou em Jubarte. Mas a Petrobras tem hoje total domínio. Obviamente, esse poço aqui vai servir para que cada problema que acontecer nele seja um problema que vai acontecer no próximo, ou pelo menos similar.
A Petrobras demorou 400 dias para fazer o primeiro furo em Tupi, o segundo já foi 60. Imagine, o avanço tecnológico é muito grande. A Petrobras tem especialistas dela, além do centro de pesquisa, tem especialistas dela em cada lugar do mundo que têm experiência de grandes profundidades.
Acredito que possivelmente no final de... Em março, começaremos a explorar 20 mil barris diários em Tupi. Chama-se aquele teste de grande duração, que pode levar seis meses, que pode levar um ano testando todas as possibilidades e vendo o que acontece. E aí começa a produção normal, vai testando os outros poços.
O problema é que como o País não estava preparado para isso, e o mundo não estava preparado, porque não tem as sondas prontas, precisa encomendar. Os estaleiros brasileiros não estavam preparados para produzir sondas. Nós, agora, estamos encomendando 40, as primeiras 12 vamos ter que importar, com o compromisso de até o final do ano fazer a licitação para que os estaleiros brasileiros concorram e façam as outras 28 que precisam ser feitas.
Isso é muito investimento. Uma plataforma custa 700 milhões de dólares. Porque é assim: coloca-se um navio e, dentro do navio, coloca-se uma parte fixa, e o navio fica girando em torno daquela parte fixa. E é naquela parte fixa que está a tubulação. Vocês já viram fazer um poço artesiano? É igualzinho. Vai colocando um tubo em cima do outro e vai descendo, vai colocando tubo e vai descendo. Imaginem 7 quilômetros de tubo mar adentro. Não consigo imaginar. Fui ao Centro de Pesquisa, seria importante até que vocês marcassem com a Petrobras uma visita ao Centro de Pesquisa para ver a sala de três dimensões. Você tem a impressão de estar no fundo do mar, tem a impressão de estar a 7 mil metros de profundidade.
Nós vamos, inclusive, inovar. Agora, no Golfo do México, no lado americano, vamos fazer uma plataforma que será deslocada quando vier o Katrina ou outro furacão qualquer. Ficará só a parte fixa e a gente deslocará a plataforma para outro local, para sair fora do Katrina. O Golfo do México é o lugar onde mais se estraga plataforma no mundo por causa dos furacões. A Petrobras vai ter a primeira sonda, a primeira plataforma que ela vai explorar. Na hora em que tiver sinais de furacão, desmonta lá o dispositivo, tira a plataforma da parte fixa e a plataforma sai para outro lugar para não causar danos. Aí passa o furacão, ela volta lá...
Jornalista: No popular é “olha o rapa”, né?
Presidente: Agora, é impressionante.
Jornalista: Presidente, a gente recebe algumas perguntas das pessoas perguntando se isso vai beneficiar a população. Como vai chegar à população?
Presidente: Essa é uma discussão que nós precisamos fazer com muito cuidado. Criei um grupo interministerial - quem coordena é o ministro Lobão - do qual participa a ministra Dilma, o ministro Guido Mantega, o ministro Paulo Bernardo e o ministro de Ciência e Tecnologia. Eles vão me entregar, acho que no dia 19 de setembro, o primeiro borrador da proposta que vão fazer. Não tem nada definido ainda. Tem muita discussão, muita especulação, muita coisa pela frente. O dado concreto é o seguinte: eu tenho três coisas definidas na cabeça em relação à essa nova possibilidade, pode ser em 2010, 2011.
Na hora em que a gente começar a explorar o petróleo de forma industrial, na sua totalidade, vamos ter que definir algumas coisas. Primeiro: o Brasil não vai ser exportador de óleo cru, vamos exportar derivados de petróleo. Por isso estamos fazendo uma refinaria, vamos fazer licitação ainda este ano, de 600 mil barris/dia em São Luís do Maranhão, para exportar para o mercado americano, para produzir gasolina Premium. Vamos construir outra em Fortaleza, de 300 mil barris, para exportar possivelmente para a Europa, para produzir óleo diesel de alta qualidade. Vamos fazer uma outra refinaria em Natal, além da refinaria de Pernambuco e da refinaria no (inaudível) Rio de Janeiro. São cinco novas refinarias até 2014, quando, na verdade, a última foi feita em 1980, passamos 28 anos sem fazer, agora vamos fazer cinco, até 2017 estarão todas prontas.
Uma outra coisa que tenho defendido junto aos ministros e (inaudível) a opinião pública é que nós precisamos ter dois objetivos, focar a possibilidade dos recursos dessa nova descoberta em duas coisas: primeiro, pagar a dívida com a educação que nós temos neste país, ver se a gente recupera uns 50 anos de atraso na educação, e pagar a dívida com a pobreza no País. O petróleo não pode ser um petróleo apenas para que os estados onde está sendo explorado sejam beneficiados. É preciso que eles tenham a parte deles, mas é preciso que se tenha um fundo pensando na totalidade dos problemas sociais deste país. Isso está sendo elaborado, vai ter muita discussão, nós queremos debater com a sociedade, isso vai para o Congresso Nacional.
Se a gente permite que esse dinheiro todo entre no caixa normal, você termina, o que é um erro na minha opinião, com royalties, ou seja, quando se fez a lei dos royalties deveria ter carimbado o dinheiro: o dinheiro é para habitação, ou é para educação, ou é para pobreza. Na hora em que você coloca no caixa normal de município, ele gasta como quiser.
Jornalista: A educação é a única possibilidade de utilização desses recursos?
Presidente: Não é a única possibilidade, é uma das prioridades. Eu disse duas prioridades: recuperar a dívida com a educação e a dívida com a pobreza no Brasil. Temos que resolver os graves problemas sociais que ao longo dos séculos foram acumulados no Brasil.
Jornalista: O senhor falou de três coisas. A primeira foi (inaudível) exportação de óleo cru, a segunda seria resgatar essa dívida, e a terceira...
Presidente: Exportar derivados e não óleo cru. Nós queremos utilizar essa descoberta do petróleo para criar uma forte indústria petrolífera e uma forte indústria naval no Brasil. Quem é do Rio de Janeiro sabe a briga tivemos na campanha de 2002, quando dizíamos que era possível fazer as plataformas no Brasil e os adversários diziam que era demagogia minha, que não era possível fazer. Hoje, nós estamos produzindo as plataformas com 75% de componentes nacionais.
A indústria naval, que em dezembro de 2002 tinha apenas 1.600 funcionários, hoje já está com 40 mil funcionários. Ela tem que crescer mais, porque só de navios da Petrobras, são 200 encomendados, e não temos estrutura. As plataformas e as sondas que precisam ser feitas são muito grandes. Nós precisamos fazer os estaleiros que faltam fazer, fazer os diques secos que precisam ser feitos e transformar este país numa referência mundial de indústria naval. Este é o objetivo.
Jornalista: O senhor falou desse resgate da dívida. A gente recebe muito, no jornal, perguntas de aposentados. Os aposentados estão bem preocupados com a situação deles. Falam que o salário mínimo sobe mais do que o reajuste deles, que se aposentam hoje no Brasil com um salário, passam alguns anos e voltam a ganhar salário mínimo.
Jornalista 2: Nessa linha aí, na verdade o déficit da Previdência tem diminuído a cada ano. Nestes últimos dois anos do seu mandato, o senhor abre mão, então, de uma reforma da Previdência devido a este (inaudível) déficit. Ele está tendo uma queda? O senhor acha que é possível abrir mão...
Presidente: Primeiro, não é correto nenhum aposentado fazer uma comparação com o salário mínimo, porque ninguém se aposenta com oito, com dez mínimos. Aposenta-se com o percentual daquilo que foi a sua contribuição. Se assim for analisado, nunca posso aumentar o salário mínimo. Nós não podemos vincular o salário mínimo, por exemplo, à minha aposentadoria ou à aposentadoria de um trabalhador que se aposentou e que ganhava 800 reais. Se o salário mínimo não subir e o salário dele subir, ele vai passar a ganhar mais do que o salário mínimo, se for contar pelo salário mínimo.
Nós tomamos a decisão de que era preciso recuperar o salário mínimo e de que, ao aposentado, deveríamos dar aquilo que é a inflação, para que ele mantenha o seu poder aquisitivo. Obviamente, na hora em que a Previdência se tornar rentável, superavitária, você pode até pensar em fazer com que uma parte desse dinheiro possa ser dada como ajuste a mais para os aposentados. Nós estamos tentando fazer o quê? Estamos antecipando o décimo-terceiro salário para facilitar a vida do aposentado, criamos a Farmácia Popular tanto com a iniciativa privada como a do governo, que vende grande parte dos remédios mais baratos. Nós temos que procurar outras políticas que valorizem o salário mínimo, que valorizem as pessoas que estão aposentadas, sobretudo aqueles que gastam mais dinheiro com remédios, que gastam mais dinheiro com a saúde.
A verdade é que a Previdência tem um déficit. Este déficit é alto, mas está diminuindo. Na medida em que o emprego vai crescendo, temos a convicção de que esse déficit vai diminuir. Daqui a pouco, estaremos com o déficit zerado entre os contribuintes e os que recebem. É importante lembrar que temos uma parte das aposentadorias que pagamos para trabalhadores rurais que não contribuíam com a Previdência, que é a política de seguridade que aprovamos na Constituição de 1988. Essa, na verdade, o Tesouro tem que arcar com a responsabilidade, não a Previdência Social. A Previdência Social precisa atender aqueles que contribuem com ela e que, portanto, quando se aposentarem, tem que ser pagos adequadamente.
Jornalista: (inaudível) abre mão da reforma, então?
Presidente: Eu tenho por hábito envolver a sociedade nesse debate. Nós constituímos um grupo de trabalho que tinha representantes dos trabalhadores, dos aposentados, dos empresários, dos sindicatos, e acho que a reforma, para ser feita no Brasil, tem que ser pensada para as novas gerações. Você não pode fazer uma reforma que mexa no direito adquirido das pessoas, mas pode fazer uma reforma pensando em daqui a 30 anos, pensando em quando o meu neto for entrar no mercado de trabalho. Ele pode entrar no mercado de trabalho e ter uma Previdência Social diferente da que eu tenho. Por quê? Porque a longevidade está aumentando, e está aumentando muito. Quando a Lei Elói Chaves foi criada, em 1923, as pessoas morriam com 48 anos, 50 anos, 60 anos. A minha geração praticamente não conhecia os avós, a gente não conhecia o avô da gente, nem a avó, porque morriam muito jovens.
Mas hoje, o que está acontecendo? Estamos vivendo mais, graças a Deus, hoje estamos vivendo 75 anos, 80 anos, 90 anos, tem gente aí... Fui agora à Bahia entregar um diploma de um curso de alfabetização, das 171 mil pessoas que estavam sendo alfabetizadas, 324 tinham 90 anos, e 24 tinham mais de 100 anos, participando do processo de alfabetização.
O que precisamos fazer na reforma? Se a gente pensar na futura geração, vamos adequar um tempo de aposentadoria numa combinação com o tempo de vida que temos. Até porque, também, no nosso tempo, a gente começava a trabalhar mais cedo, hoje as pessoas começam a trabalhar um pouco mais tarde, sobretudo o pessoal que tem profissão, porque passam um tempo estudando, às vezes as pessoas começam a trabalhar com 18 anos, no meu tempo era com 12, com 13. Agora, as pessoas que fazem universidade primeiro se formam para depois começar a trabalhar.
Quero é que a gente tenha uma adequação à realidade de cada geração. A geração que vai estar se aposentando em 2050 não vai ter as mesmas condições de trabalho que temos hoje. Certamente a imprensa será muito mais sofisticada, o jornalista vai poder escrever na praia os seus artigos, em cima de uma prancha, vai ser tudo muito... É com isso que nós trabalhamos para poder atender o crescimento demográfico.
O que tenho convencido os dirigentes sindicais, os aposentados e os empresários é que temos que pensar qualquer reforma da Previdência para a geração...
Jornalista: Quando começaria essa geração?
Presidente: Essa geração começa, se a gente fizer...
Jornalista: Quem tem 18 anos hoje?
Presidente: Para quem está trabalhando, qualquer reforma não vale, para quem já está no mercado de trabalho. Para quem já começou com a atual legislação não valeria qualquer reforma. Esta reforma vai valer para quem adentrar ao mercado de trabalho depois que a lei for aprovada.
Jornalista: Esse fundo poderia melhorar a aposentadoria?
Presidente: Eu te (inaudível) já. Não tem sentido. Você não pode colocar no salário algo que não seja permanente, porque se você incluir, no gasto corrente do governo, qualquer coisa que não seja da própria arrecadação do governo, dos impostos, o que vai acontecer? Acabou o petróleo, acabou o fundo, e aí você vai pagar o quê? Como é que você vai pagar quem, se não tem mais o fundo.
Jornalista: Presidente, aproveitando a sua intenção de resgatar a dívida que tem com a pobreza no País, eu queria perguntar sobre Bolsa Família. Hoje, em Porto Alegre, pelo menos no caso de Porto Alegre, mais ou menos 32 mil famílias participam do programa, existe um acúmulo de 19 mil pessoas que têm condições de estar participando do programa mas não existe recurso para isso. Eu lhe pergunto o seguinte: o seu governo pensa em alterar o Bolsa Família, em ampliar a participação de famílias no Bolsa Família?
Presidente: Nós temos, no Rio Grande do Sul, 397 mil famílias...
Jornalista: Em todo o estado, não é?
Presidente: É, em todo o estado.
Jornalista: Trinta e dois mil em Porto Alegre.
Presidente: Agora, veja, o cadastramento não é da responsabilidade do governo federal. O governo federal fez um convênio com as prefeituras, até porque não tem como o governo federal estar em cada município, em cada bairro, cadastrando.
Eu posso te garantir uma coisa: se tem gente que não está sendo atendida ainda, e essa pessoa está dentro daquilo que é previsto, uma renda per capita de até 120 reais, essa pessoa vai receber, é só cadastrar que essa pessoa vai receber. Até porque quem tem 11 milhões de famílias não vai se preocupar se vai ter mil ou 10 mil a mais. O dado concreto é que acho que ainda deve ter algumas pessoas fora se os prefeitos das cidades não forem aos grotões fazer o cadastramento.
Jornalista: Mas há um limite, de acordo com o recurso que a União passa para as prefeituras? Esse limite vai aumentar?
Presidente: A União não passa recurso para a prefeitura. O Bolsa Família, a pessoa recebe diretamente na Caixa. Eu não sei quem é o cidadão, não sei se ele é gremista ou internacional, não sei se ele é evangélico ou católico. Eu sei que tem um cidadão que tem um cartão da Caixa Econômica, que vai lá e recebe.
Se tiver mais gente... Recentemente tive uma reunião com o ministro Patrus, em que decidimos fazer o reajuste de 8%. Se o ministro Patrus me propor: “Olha, Presidente, tem mais tantas pessoas...”. O que eu acho improvável, porque depois que começou o Bolsa Família, geramos 10 milhões de empregos no País. Elevamos o crédito da agricultura de 2 bilhões para 13 bilhões. Nós temos várias políticas sociais, o ProJovem, por exemplo, que vai atender 4 milhões e meio de jovens até 2010. Com a quantidade de empregos crescendo, a indústria da construção civil sem ter como contratar pedreiro, ajudante de pedreiro, azulejista, é pouco provável que tenha muita gente... O que tem acontecido é o inverso: tem muita gente saindo do Bolsa Família. Temos recebido aqui dezenas de cartas de pessoas que arrumaram emprego e, por conta disso, devolveram o cartão do Bolsa Família. Obviamente, nós trabalhamos para diminuir o número de pessoas no Bolsa Família. O que queremos é que, com a geração de empregos, com a geração de renda, possamos diminuir as pessoas...
Nós vamos fazer, talvez ainda no final deste mês – estou para decidir a data – um encontro com todos os movimentos sociais do Brasil, de catadores de papel a sem-terra, de trabalhadores rurais da Contag a portadores de deficiência, para mostrar tudo o que está sendo feito em políticas sociais. É por isso que eu não acredito que tenha muito mais gente para entrar no Bolsa Família. Eu acredito, sim, que tem muita gente para sair do Bolsa Família, na medida em que essas pessoas estão trabalhando e precisam tomar consciência de que esse dinheiro tem que ser para alguém que tenha menos possibilidades do que eles.
Jornalista: Eu só queria que o senhor precisasse: o senhor (inaudível) para o ministro Patrus Ananias?
Presidente: Se ele me mostrar que tem mais gente querendo entrar do que saindo, temos um problema a ser resolvido, que é analisar as pesquisas que temos. Na medida em que você sai de um patamar de pessoas nas classes B e E para a classe C; na medida em que você tira 9 milhões de pessoas da pobreza extrema; na medida em que você cria 10 milhões de empregos com carteira profissional assinada, se crescer o número de quem precisa do Bolsa Família, algo está errado. Nós começamos a trabalhar com as pesquisas do IBGE, que diziam que tinha 11 milhões de famílias. Nós cumprimos as 11 milhões de famílias. Certamente, pode ter mais.
Começamos o programa Luz para Todos, achando que ia ter 12 milhões de famílias. Quando fomos a campo, para cada um que a gente liga, descobre que tem outro que não tem energia. Vamos precisar colocar 1 milhão e 700 mil pessoas a mais no programa Luz para Todos até 2010.
Esse é um xodó meu. Esse programa do Bolsa Família é uma coisa que eu tenho um apreço muito especial, e tenho a convicção de que não tem muito mais gente para entrar. Eu tenho a convicção de que tem mais gente prestes a sair do que a entrar.
Jornalista: A gente sabe de uma certa lógica que existe dentro da educação, de que sabidamente as escolas públicas têm uma qualidade ainda pior do que as particulares. O estudante tem que passar por uma verdadeira guerra para conseguir passar no vestibular e, quando passa no vestibular, às vezes precisa também lutar por uma bolsa, alguma coisa desse tipo. Que existem, existem o o ProUni e tudo o mais. Mas existe alguma perspectiva de mudança dessa lógica desde o princípio, de ele já ter mais facilidades dentro da escola pública, como era antigamente, de ter uma qualidade de ensino bem melhor dentro da escola pública?
Presidente: Você está convidado a participar comigo, daqui a pouco, de um ato que vamos fazer aqui com os reitores das universidades federais, em que vamos assinar os editais para os vestibulares de 2009, via Reuni. O que é o Reuni? Nós fizemos um acordo com as universidades federais, e estamos aumentando de 12 alunos por professor, em média, para 18 alunos. Isso vai permitir que a gente coloque este ano, na universidade, 203 mil novas pessoas, novos jovens, ou seja, mais do que os 113 mil que entravam na universidade quando começamos a governar o País. Isso só pelo Reuni. Além da entrada normal, vão ter 203 mil alunos a mais, por conta do Reuni. O ProUni já tem 385 mil jovens pobres da periferia fazendo universidade. Queremos chegar, ao final de 2010, começo de 2011, com 400 mil jovens no Reuni e quase 700 mil alunos pelo ProUni. Isso significa 1 milhão e pouco a mais de jovens por ano entrando nas universidades brasileiras, o que é uma revolução extraordinária. Quando afirmavam que iríamos nivelar por baixo a educação, criando o ProUni, que íamos colocar jovens da periferia nas universidades, as avaliações estão mostrando exatamente o oposto. Os alunos do ProUni são exatamente os mais qualificados em todas as universidades e em todos os cursos, de Engenharia a Medicina. Por quê? Porque os jovens que estavam desanimados, na hora em que pegam a oportunidade, não querem largar.
Fui agora inaugurar a Universidade do ABC. A partir deste ano, os alunos que acertarem 90% das perguntas do Enem, não precisarão fazer vestibular, entrarão direto na universidade.
Jornalista: (inaudível)
Presidente: Não, no vestibular deste ano para o ano que vem.
Jornalista: No ABC, não é?
Presidente: No ABC, o que é uma boa novidade para a gente estender para outras partes do Brasil. Obviamente, na hora em que a gente melhorar o ensino médio brasileiro, vai preparar mais jovens para entrar nas universidades. O que estamos fazendo neste momento? Quando eu deixar o governo... Primeiro, no ensino fundamental, criamos o Fundeb, criamos o (inaudível), aumentamos de 8 para 9 anos o tempo de manutenção da criança no ensino fundamental. Até o dia 31 de dezembro de 2010 teremos 214 universidades a mais do que as 140 que o Brasil tinha.
Jornalista: Escolas técnicas.
Presidente: Escolas técnicas. Vamos ter 12 universidades novas, uma universidade latino-americana na divisa do Rio Grande do Sul com Santa Catarina, em Chapecó, se não me falha a memória, e vamos ter uma universidade afrodescendente em Redenção, no Ceará, para metade de alunos brasileiros e metade de africanos de países de língua portuguesa, para começar.
Além disso, vamos fazer 88 extensões universitárias. Vamos levar braços da universidade para cidades do interior, para permitir que os jovens do interior tenham oportunidade de estudar na sua própria região, sem ter que se dirigir a uma capital de qualquer estado brasileiro.
Eu penso que isso vai significar uma revolução na educação brasileira, que ficou atrofiada durante muito tempo. Vocês podem pegar a história do Brasil e ver, em cento e poucos anos de República, quantas universidades foram feitas e em que período. Vocês podem avaliar quantas universidades cada presidente que passou por este país fez. Aí vocês vão perceber porque nós estamos atrasados. Teve presidente que passou muito tempo aqui e não fez nenhuma. Se todo mundo fizesse um pouquinho, nós teríamos hoje as universidades de que o Brasil precisa. Eu quero fazer a minha parte.
Jornalista: Lá no Rio de Janeiro, disparado, o problema que mais assusta a população é a violência. Nos últimos anos, para piorar ainda esse quadro, tem o fenômeno do surgimento das milícias, aqueles grupos armados que dominam as comunidades pobres e, em geral, são formados até por policiais. Eu pergunto ao senhor: como mudar esse quadro? Emendo outra pergunta sobre a presença, cada vez mais, de políticos envolvidos com as milícias. Inclusive, esta semana no Rio, teve um deputado do partido do senhor, que é muito popular no Rio, o Babu, que foi acusado de envolvimento com uma milícia. O senhor defende o afastamento dele? Qual a sua posição quanto a isso?
Presidente: Deixe-me falar uma coisa. Quando você chega à Presidência da República e vê o Brasil como um todo, vê os problemas como um todo, não pode julgar as pessoas que estão sendo acusadas. Você precisa condenar as pessoas que forem julgadas e forem consideradas culpadas, porque senão nós faremos uma caça às bruxas no País, da mesma forma que era feito no tempo em que o Brasil vivia sob a égide do regime autoritário: “não quero saber se a pessoa é inocente ou culpada. Eu quero saber o seguinte: desconfio dele? Pau nele.”
Se a pessoa é acusada, tem que ter um processo, uma investigação, e tem que ter um veredicto. Nós temos que ter paciência para esperar que os julgamentos aconteçam e que as pessoas sejam condenadas, porque o que vale para o outro, vale para nós. Hoje é o Franklin, amanhã pode ser você. Hoje é você, amanhã pode ser eu. Se nós não estabelecermos um critério que tenha procedimentos de investigação, apuração e julgamento, estaremos fazendo justiça precipitada, o que a história da Humanidade prova que não dá certo.
Eu estou convencido de que o governo federal e o estadual têm trabalhado para tentar resolver o problema da segurança pública no Rio e em outros estados da Federação. O Pronasci é um programa de articulação da atuação dos governos estadual e federal para ver se a gente diminui a violência para a reforma de presídios, condições dos presídios, quanto para o financiamento de bolsa para melhorar a qualidade dos policiais, escolas e prisões diferenciadas para os delinqüentes juvenis que ainda têm chance de se recuperar.
Estamos fazendo o que é possível, sobretudo com muito investimento em inteligência, porque está provado que a inteligência resolve mais do que a brutalidade. Eu, particularmente, tenho uma convicção de que nós vamos dar uma virada na questão da segurança no Rio de Janeiro, quando as intervenções que estamos fazendo nas favelas estiverem concluídas. Por que eu digo isso? Porque eu estou convencido de que nós temos uma geração de brasileiros, que hoje está entre 17 e 24 anos, ou entre 17 e 29 anos, pessoas que viveram num período em que o País não crescia, não investia em educação, não investia em cultura, não investia em emprego, não investia em lazer, e o País não tinha presença dentro dos lugares em que as pessoas moram.
Então, é a geração deste país que eu chamo de “deserdada”. O único espaço que tinha para eles era que, se tivesse uma família ajustada, ele continuaria sendo um jovem ajustado, porque tem referência na mãe, tem referência no pai. Se a família é uma família que tem problemas, esse jovem cai, com muita facilidade, nos braços do narcotráfico, nos braços do crime organizado, porque possivelmente é a única perspectiva oferecida para ele.
Quando resolvemos fazer as intervenções que estamos fazendo em Manguinhos, na Rocinha, no Complexo do Alemão, em Pavão-Pavãozinho, é porque queremos provar que quando o Estado chega dentro de um espaço em que residem milhares de pessoas com políticas concretas de cultura, de formação profissional, de oportunidade de emprego, de melhoria da rua, de melhoria da água, de melhoria das casas, quando o Estado está presente oferecendo as oportunidades, não tenho dúvida que o Estado ganha do crime organizado.
Eu estou com muita esperança nessas intervenções que estamos fazendo no Rio de Janeiro, em São Paulo, na Bahia e em Pernambuco, porque dos 40 bilhões de reais que estamos investindo em saneamento básico e urbanização de favelas, 90% deles são nas principais metropolitanas do País, aonde tem um maior grau de violência.
Eu penso que mais eficaz do que a polícia... porque a polícia, muitas vezes, é o problema. Veja o que o Exército fez, lá no Rio de Janeiro, com aqueles três jovens, veja o que aconteceu ali. O problema não é só a polícia, a polícia é uma espécie de garante para manter a ordem. O que vai resolver o problema da diminuição da violência no Rio e em outros estados, é na hora que o governo federal, o governo estadual, o governo municipal estiverem presentes com políticas públicas e políticas sociais, com políticas de oportunidades dentro dos lugares mais violentos desses estados. Eu não tenho dúvida de que saberemos vencer essa batalha. É uma experiência que estou exitoso para ver a gente terminar as obras, para ver o que vai acontecer ali.
Vocês sabem que ali, por exemplo, na Faixa do Gaza, as pessoas não queriam que a gente derrubasse o muro da estrada-de-ferro porque uma quadrilha não quer que derrube de um lado, e a outra não quer que derrube... Vamos derrubar e ali vai ser uma área de lazer, uma área de pequeno comércio, para a população se autoconfiar. Penso que estaremos resolvendo uma boa parte do problema da violência nos grandes centros urbanos.
Jornalista: Nós estamos tendo uma nova realidade no mercado de trabalho. Percebemos o crescimento da oferta de emprego. No entanto, o que a gente vê, também, a gente constata a mão-de-obra (inaudível). Eu queria saber do governo se existe algum projeto específico para acelerar esse processo, no sentido de equilibrar um pouco mais, digamos, as coisas.
Presidente: Temos como uma das nossas prioridades a formação profissional, para qualificar o trabalhador para o mercado de trabalho. Se você olhar o crescimento da inflação, vai perceber que uma parte do crescimento é no setor de serviços: é o encanador, é o pedreiro, que estão valorizados. Estão valorizados porque, como tem menos no mercado, a lei da oferta e procura, quando a oferta é maior você abaixa salário, quando a oferta é menor você aumenta salário. Se eu estou procurando emprego de pedreiro, chego na porta de uma construtora e tem 100 pedreiros na porta pedindo emprego, o salário vai cair. Mas se ele está precisando de dez e só tem um pedreiro, o salário vai subir.
O que nós queremos fazer? Nós queremos ter... O ProJovem tem como objetivo pegar todos os jovens de 15 a 29 anos que já desistiram da escola, trazê-los para a escola, dar uma ajuda mensal para eles, para que voltem a estudar, e formá-los profissionalmente, para que possam adentrar ao mercado de trabalho. Este programa envolve o Ministério do Trabalho, a Secretaria-Geral da Presidência da República, envolve a formação profissional no campo e a formação profissional do trabalhador urbano. São 4 milhões e meio de jovens que queremos atender até 2010. Além disso, temos vários convênios. Acabamos de fazer um convênio com o Sistema S, em que 2/3 do dinheiro do Sistema S será canalizado para a formação profissional gratuita.
A responsabilidade não pode ser apenas do governo. Acho que o governo federal tem que fazer a sua parte, o governo estadual tem que fazer a sua parte, mas as empresas também precisam começar a formar a sua mão-de-obra. Era assim na década de 60. Você tinha Senai dentro da Volkswagen, da Ford, da Mercedes-Benz. As empresas mesmo tentavam formar os seus profissionais. Uma construtora precisa também aprender a formar os seus profissionais, porque tem outra atividade de mão-de-obra, porque o mercado vai crescer, e vai crescer de forma contínua.
Estou convencido de que esse é um bom problema. O mau problema era quando tinha muita gente querendo trabalhar e não tinha emprego. O bom problema é quando tem muita oferta de emprego, o salário está aumentando e está escassa a mão-de-obra. Exige-se que a gente forme muito mais, muito mais pessoas. Penso que vamos formar e isso vai ser extraordinário para o nosso país. Uma outra coisa que eu considero extremamente importante é que o movimento sindical também está preocupado com a formação profissional. Está todo mundo preocupado com a formação profissional porque está todo mundo percebendo que a economia vai crescer. Só a Petrobras está formando mais de 70 mil jovens para adentrar o mercado de trabalho ligado à área de petróleo. Quando nós criamos o Prominp era para formar gente para uma política de recuperação da indústria naval brasileira.
Penso que está no momento, porque não é só o trabalhador que falta. Está faltando cimento, está faltando carrinho de mão, está faltando aquelas máquinas de mexer o cimento, está faltando grua. Tudo isso porque o Brasil passou 18 anos sem produzir uma fábrica de cimento, o Brasil passou 22 anos sem fazer um alto-forno. Na hora em que você começa a fazer novas siderúrgicas, novas fábricas de cimento, a Caixa Econômica baterá este ano o recorde de habitação de toda a sua história, a indústria da construção civil, que não tinha financiamento do sistema financeiro, este ano, vai entregar 170 mil casas financiadas pelo sistema financeiro, fora a Caixa Econômica Federal.
Na hora em que tudo começa a crescer, nós começamos a entender que começa a faltar coisa. O que é bom nisso? É que o crescimento econômico exige que novas empresas façam novos investimentos. Esses novos investimentos, em um primeiro momento, significam demanda. Portanto, vai procurar coisa que não tem. Só vai virar oferta quando eles começarem a produzir, e eu acho que até 2010 várias dessas novas empresas estarão produzindo para atender à crescente demanda que eu não quero que pare nunca, porque quanto mais demanda, mais cresce a economia, mais gente vai ter que trabalhar, mais salários vão ter que ser pagos e mais vai melhorar a vida das pessoas neste país. Isso é um ciclo virtuoso, que eu não tive o privilegio de viver durante toda a minha presença no movimento sindical brasileiro. Passei 20 anos chorando pelo desemprego, passei 20 anos ganhando sempre menos do que a inflação. Hoje, 88% dos acordos salariais são feitos com ganhos reais de salário, o que no meu tempo nunca aconteceu. A gente queria 100%, quando conseguia 70% já estava na hora de voltar a trabalhar porque não ia conseguir mais.
Hoje os dirigentes sindicais estão se dando ao luxo de fazer acordos não apenas por um ano, mas por dois anos, três anos, quatro anos, com aumento real de salário. O salário mínimo teve 52% de aumento real no nosso governo. Tudo isso é contribuição para aumentar a demanda, mas também para aumentar a oferta de postos de trabalho na (inaudível). Por isso eu penso que nós estamos vivendo este momento gratificante. Todo mundo quer mão-de-obra qualificada, portanto, todo mundo tem que investir para que a gente tenha essa mão-de-obra qualificada.
Ministro: Tem esse valor aqui do plano do Bolsa Família, do pessoal que está no Bolsa Família, saindo para qualificação na construção civil.
Presidente: Isso foi um acordo feito entre o governo e a indústria da construção civil para formar gente do Bolsa Família para entrar no mercado de trabalho. As coisas estão acontecendo. Essas coisas que são plantadas agora levam seis meses, levam um ano para começar a dar frutos. Quero que, com a graça de Deus, a gente continue com mais oferta do que procura, porque assim a gente vai ter que formar mais gente e cada vez os salários estão melhores. Esses dias, no encontro dos trabalhadores, eu disse para eles: na história da humanidade os trabalhadores só ganharam aumento de salário em momentos em que a economia está crescendo. No momento em que a indústria está crescendo, no momento em que a construção civil está crescendo, é o momento de os trabalhadores pedirem aumento de salário. Em época de crise os trabalhadores não ganham absolutamente nada, só ganham desemprego. Este é o momento de reivindicar.
Jornalista: Presidente, (inaudível) tem uma lógica difícil de resolver porque existem diversos fatores como, por exemplo, o mercado internacional. Existe até o próprio aumento do salário mínimo, que onera a produção, existe aumento de consumo que o que o senhor chama de ciclo virtuoso está ocasionando. Acontece que aí tem que aumentar juro para poder segurar a inflação, e isso prejudica, por exemplo, os nossos leitores que querem continuar comprando em 36 vezes. Não seria, Presidente, o momento de reduzir um pouco o custo da máquina pública no País, porque, afinal de contas, o Estado é o maior consumidor que tem no País. Se está aumentando a demanda, aumentam os preços também.
Presidente: Sabe o que acontece? No Brasil, se criaram alguns sofismas. A gente, muitas vezes, trabalha com sofismas. Você acha que o Estado gasta muito. Então me explica porque um jornalista como o Franklin ganha R$ 10 mil no Estado e um similar a ele, em qualquer jornal, ganha R$ 50 mil. Explique porque a Petrobras paga a um técnico altamente competente R$ 26 mil e um similar a ele em qualquer empresa multinacional ganha 70, 80, 90 ou 100. Explica porque a iniciativa privada rouba funcionário da Receita Federal, do Banco Central, para ganhar quatro vezes mais do que eles ganham no Banco Central. A verdade nua e crua, companheiro, é que de vez em quando a gente procura justificativas para deixar de compreender o mais fácil: o Estado brasileiro gasta aquilo que precisa gastar. Se eu quiser inaugurar 214 escolas, 14 novas universidades, preciso ter professores, laboratórios e técnicos. Se eu quiser melhorar a saúde... Eu, agora, vou implantar o “Saúde na Escola”. Toda criança que entrar na escola vai ter que fazer um exame dentário, um exame oftalmológico e vai ter que ter um clínico geral. Para isso, vamos ter que contratar mais gente. Mas somente assim é que podemos melhorar as condições de tratamento que o Estado pode dar à sociedade.
Eu acho que o Estado brasileiro gasta aquilo que precisa gastar para atender, de forma deficitária, a população brasileira. Eu vou te dar um exemplo: todos vocês ficam, nas cidades que moram, olhando a questão ambiental. Perguntem para o ministro Minc quantos funcionários nós tínhamos para fiscalizar o Brasil, quando chegamos aqui. Ou perguntem para o Ministro da Saúde quantos médicos de família nós tínhamos. Não há hipótese de melhorar o atendimento do Estado, se não tiver gente mais competente e adequadamente remunerada, porque o que faz um ser humano trabalhar prazerosamente é ele estar bem-remunerado.
Vamos voltar à questão da inflação. O que eu acho engraçado é que as pessoas falam que o Estado gasta muito, paga muito. O Estado brasileiro, se você pegar um diretor do Banco Central que trabalha com câmbio, ele ganha menos que alguém, na mesma função, em qualquer banco particular. Menos, não, ganha muito menos do que qualquer pessoa que faz a mesma função no sistema privado, qualquer um. Eu conheço um monte de gente que deixou, por exemplo, o Itamaraty, que ganha 12 mil reais, e vai trabalhar numa entidade qualquer privada, o cara ganha 30, 40, 50 mil reais.
A inflação. A inflação tem muitos fatores. Primeiro, a inflação de commodities, daquilo que é tabelado a nível internacional, você não tem controle, nem o Brasil e nenhum outro país do mundo. Você poderia resolver o problema tirando esses produtos que são commodities do núcleo inflacionário. Nos Estados Unidos, por exemplo, o alimento não entra no núcleo inflacionário. Nós mantemos tudo.
A segunda coisa é que você tem produtos industriais que se percebe que tem aumento. Você tem duas medidas para tomar: uma, ou você dá uma paulada na cabeça desse setor, abrindo importações a tarifa zero, para facilitar a entrada de produtos estrangeiros mais baratos e, portanto, obrigar a iniciativa privada brasileira a reduzir, e com isso você cria um problema, porque vai ter o movimento sindical no meu pé, dizendo que a empresa desempregou gente, não é isso? Ou você vai conversando com essas pessoas, no sentido de que elas sejam comedidas no reajuste, para não causar inflação.
A inflação brasileira, hoje, é uma inflação altamente controlada. Vocês devem ter acompanhado, a cesta básica, que era a nossa maior preocupação, caiu 10% nas principais capitais brasileiras. Tivemos problema de aumento de feijão, que não é commodity, porque teve quebra de safra em função da seca, em algumas regiões do País. Na hora em que voltar à normalidade... Nós criamos o programa Mais Alimentos, em que vamos financiar 60 mil tratores para a agricultura familiar, com dez anos de financiamento, três anos de carência e 2% de juros ao ano. E vamos financiar 300 máquinas agrícolas. Nós queremos dobrar a produção de alimentos básicos aqui no Brasil. Fizemos desoneração do trigo, aumentamos o preço mínimo de alguns produtos que são considerados essenciais, para que a gente permita que o alimento esteja sob controle e não prejudique a parte mais pobre da população brasileira.
Posso te dizer que hoje sou um homem tranqüilo com a inflação brasileira. Me parece que a questão do alimento no mundo já fez com que as pessoas compreendessem que não era só o alimento. Era engraçado, porque quando surgiu a crise, eles começaram a discutir o biodiesel. Eu fui para o G-8, e fui para o encontro da FAO na Itália, para perguntar para eles quanto o petróleo tinha de incidência no custo da agricultura, porque no Brasil tem 30%. E olha que o Brasil usa pouco petróleo para a agricultura, porque a nossa matriz energética é outra. Eu dizia para eles: por que não discutem o preço do petróleo no mercado internacional? Segundo, por que vocês não discutem o preço do petróleo no fertilizante, porque todo fertilizante hidrogenado precisa de gás, quanto custa isso?
Eu dizia mais para eles: o que está acontecendo no mercado futuro? O que aconteceu foi o seguinte: quando houve a crise do subprime nos Estados Unidos, as pessoas que estavam especulando no sistema imobiliário americano passaram a especular em commodities. Para todo mundo que eu perguntava sobre o preço do petróleo, diziam assim para mim: “É a China que está consumindo demais”. Aí nós vamos descobrir, porque o Senado americano fez uma investigação, que a especulação no mercado futuro de petróleo tinha a mesma quantidade de barris de petróleo que a China consumia. Então, não era a China, era especulação no mercado futuro. Ou seja, o cidadão está comprando hoje o milho que vai ser produzido em 2013. Então, me parece que isso deu uma “baixada de bola” e parece que nós entramos na normalidade outra vez.
Um terceiro fator é que o mundo consumiu o estoque regulador, consumiu 175 milhões de toneladas e não repôs. Dentro do mundo, o Brasil foi o único país que, nesse mesmo período de 6 anos em que caiu 175 milhões do estoque regulador, produziu 149 milhões de (inaudível). Então, eu dizia que esse é um bom problema para o Brasil, porque se o mundo quer comer, se tem um lugar que tem terra, água, sol e tecnologia, é o Brasil. Em vez de ficar aqui chorando o leite derramado, vamos partir para cima e vamos aumentar a produção. É por isso que nós fizemos o maior plano agrícola e o maior plano para a agricultura familiar da história deste país. Vamos ver o que vamos colher até 2010.
Então, a inflação está sob controle. A outra hipótese de diminuir a inflação - é importante o povo entender isso – é diminuir o crédito, para diminuir o consumo, isso é na veia. Agora, o que acontece se eu fizer isso? Na hora em que eu diminuir o crédito e o consumo, o que vai acontecer? As empresas vão dispensar trabalhadores. Nessas alturas, meu caro, o que é preciso é equilíbrio. Sabe aquele jogador que não sabe se chuta de fora da área, às vezes quem está dentro da área (inaudível) se enrola com a bola? A gente não pode se enrolar, não pode tomar uma quantidade.... Está lembrado dos famosos pacotes do Brasil? Qualquer problema era um pacotão? Nós não temos pacote. Vamos tomando medidas pontuais e vamos equilibrando. Às vezes está doendo no pescoço, a agulha vai no pescoço; às vezes está doendo na perna, a agulha vai na perna. Você não pode colocar um monte de agulhas em um lugar só, achando que vai curar. Eu posso te garantir, hoje, com a tranqüilidade e a responsabilidade do presidente de um país importante como o Brasil: a inflação está controlada e o crescimento continua forte e vigoroso (inaudível).
Jornalista: Há um projeto do governo federal que está na Casa Civil desde fevereiro, propondo a proibição do fumo em ambientes fechados (inaudível) por causa da cigarrilha, né? Algumas entidades dizem que não têm informações sobre o andamento desse processo. O senhor defende a proibição do fumo em ambientes fechados, tal como o governador Serra propôs na semana passada em São Paulo? O que o senhor acha disso?
Presidente: Eu defendo, na verdade, o uso do fumo em qualquer lugar. Só fuma quem é viciado (risos). Não sei se está desde fevereiro, mas o Temporão me disse que estava preparando um projeto. Na hora em que esse projeto passar pela tramitação normal da Casa Civil, ele vem para mim e nós mandaremos para o Congresso Nacional.
Jornalista: Mas o senhor vai propor a proibição (inaudível)?
Presidente: Eu não vou propor. Quem está propondo é o Ministério da Saúde. A idéia do Ministério da Saúde é propor a proibição do fumo em todos os lugares fechados, em todos os ambientes públicos e fechados.
Jornalista: O senhor é a favor ou não é?
Presidente: Eu mando o projeto, eu não voto. A minha incumbência é mandar o projeto e deixar a Câmara dos Deputados votar.
Jornalista: Mas não há um decreto que proíbe fumo em lugares fechados, como o Palácio do Planalto?
Presidente: Menos na minha sala.
Jornalista: É uma Portaria, é isso?
Presidente: Se eu for à sua sala, certamente não fumarei, porque respeitarei o dono da sala. Mas na minha sou eu quem manda (risos).
Jornalista: Presidente, a gente está com uma situação sui generis nas eleições municipais de Belo Horizonte, o candidato apoiado pelo PSDB, (inaudível) o PT do senhor. Uma das propostas que estão em debate lá é o metrô de Belo Horizonte, um eterno problema. Esse problema é a privatização dele. O que o senhor pensa disso? O senhor defende bem o biocombustível. Não seria uma solução para abaixar o preço, por exemplo, de passagens de ônibus, uma vez que o óleo diesel pesa bastante.....
Presidente: Eu só queria entender a pergunta corretamente.
Jornalista: No caso das eleições em Belo Horizonte, os candidatos estão falando sobre o metrô. Um defende a privatização e outro defende investimento maior do governo federal. O senhor seria a favor da privatização ou de maiores investimentos? A segunda questão é se o biocombustível seria uma solução para abaixar o preço de passagens de ônibus (inaudível).
Presidente: Os biocombustíveis só podem entrar definitivamente na matriz energética quando a indústria automobilística estiver com os motores dos ônibus prontos para entrar o biodiesel, e nós estivermos preparados para produzir e atender a demanda. Nós começamos com 2%, já vamos para 3%, depois para 5%, já tem ônibus circulando com 20% no Rio de Janeiro, mas nós precisamos tomar cuidado para não motivar a utilização de um combustível que a gente ainda não tem (inaudível) no mercado.
O metrô de Belo Horizonte está no PAC, está cumprindo a programação do PAC. Há dois anos e meio, três anos atrás, eu tive uma conversa com o governador Aécio Neves, que a idéia era a gente terminar o metrô e passar para o estado, porque não tem sentido o governo federal ficar administrando o metrô a partir de Brasília. Obviamente que o estado não quer enquanto ele não for superavitário, o estado só quer quando ele for lucrativo. A minha tese é que a gente deva transferir para o estado de qualquer jeito. Obviamente que os estados têm autonomia para aceitar ou não. Se estiver superavitário, também teriam interesse em passar os metrôs para que as cidades governem, e não ficar o governo federal, através (inaudível), cuidando disso.
Jornalista: E a privatização que o senhor falou?
Presidente: Eu acho que não se vai conseguir privatizar o metrô. A garantia do direito de ir e vir das pessoas é importante que fique como concessão. O estado, se tiver, que faça a concessão por 10, 20, 30 anos desde que essa concessão não implique num gasto maior para as pessoas. Você tem que levar em conta que o preço tem que ser compatível com o poder aquisitivo de quem paga a passagem. Se a iniciativa privada quiser ter lucro com o metrô e, por conta disso, aumentar a passagem a ponto de ela ser quase impagável pelos trabalhadores, não é preciso fazer isso. Então, o estado tem que assumir um certo subsídio.
Jornalista: O senhor está falando do quê? Do PAC, tem só 186 milhões para... vai dar para concluir só o primeiro trecho e está bem atrasado.
Presidente: Mas é o que foi tratado. Nós temos quatro metrôs em andamento: Belo Horizonte, Salvador, Fortaleza e Recife. Se tivesse só um, já estaria pronto, mas como tem quatro e tem mais 20 querendo.
Jornalista: O daqui de Brasília então não entra nesse...
Presidente: Não entra porque o governo já concluiu. Eu já participei da inauguração, até Ceilândia.
Jornalista: Até 2010 o senhor acredita que vai estar andando no trem-bala ligando Campinas ao Rio de Janeiro?
Presidente: Não. Seria uma aberração. O que eu posso dizer é que até março do ano que vem ele estará licitado, e estamos preparando para que ele esteja funcionando 100% no Rio, em São Paulo ou em Campinas até a Copa do Mundo de 2014. É um projeto muito caro, muito violento, que vai exigir uma tecnologia sofisticada, não é fácil fazer, de São Paulo ao Rio, em uma hora e pouco de trem, e nós queremos prepará-lo para a Copa do Mundo. Ele será licitado agora. Entre a licitação e o começo das obras leva algum tempo, e depois vai demorar três anos ou mais para construir. Então, em 2010 nós estaremos com as obras andando. Vai ter muito túnel, vai ter muita ponte, mas é uma obra extremamente necessária.
Jornalista: Pelo fato de o governo federal estar dentro de Brasília, queria perguntar um pouco sobre a relação com governo daqui e também com o problema da violência no Entorno. O senhor também foi, mandou a Força Nacional de Segurança e até agora não tem resolvido muito. Existe alguma outra ação para que esse problema da violência no Entorno diminua?
Presidente: Primeiro, eu não sei se houve algum momento na história de Brasília em que a relação entre o governo distrital e o federal tivesse sido tão boa e produtiva quanto a relação que eu tenho com o governador Arruda. Melhor do que perguntar para mim, é perguntar para o governador Arruda se ele tem alguma queixa na relação com o governo federal, porque tudo que o governador Arruda pediu para o governo federal, nós atendemos 100%. Nós temos trabalhado em parceria, porque aqui é a capital do País. Quanto melhor estiver Brasília... Eu tenho uma preocupação com Brasília maior do que com a segurança. Conversei com o Arruda, pedi para que ele pegasse o pessoal dele, de Desenvolvimento, para sentar com o Ministério do Desenvolvimento, porque nós precisamos desenvolver um tipo de indústria em Brasília que não seja poluente, a chamada indústria limpa. Se você não oferecer empregos para essa grande população que mora no Entorno, a polícia não vai resolver o problema da violência.
Então, o que eu quero, na verdade, é ter um plano de desenvolvimento para Brasília, que a gente possa construir juntos. Brasília pode ter fábrica de software, pode ter as chamadas fábricas inteligentes. O que nós não queremos é trazer uma fundição para Brasília, não queremos trazer algo que possa poluir essa região tão próxima à capital. Eu acho que é isso o que vai resolver o problema da violência em Brasília.
Aproveito a sua pergunta para dizer o seguinte: em cada estado que vocês trabalharem, perguntem ao governador da relação dele com o governo federal. Eu me sinto orgulhoso por ter uma relação republicana com os governos estaduais, com os prefeitos. Perguntem a algum prefeito... Quem é de São Paulo, pergunte ao Kassab. Analisem se o Fernando Henrique Cardoso passou 10% do dinheiro para o Covas, que eu passo para o Serra e que passei para o Alckmin. Tem gente que fala “vai passar dinheiro? E a eleição?” Eu não estou preocupado com isso. Estou preocupado é que o estado tem gente, precisa daquela obra, independentemente do partido a que a pessoa pertença, o dinheiro tem que ir para lá. Aqui a gente não olha quem é o prefeito. De vez em quando as pessoas falam: “O governo está atendendo mais os prefeitos da base.” Está atendendo mais os prefeitos da base, porque eles significam 90% dos prefeitos do País. O que eu não posso é atender mais 10% do que 90%.
Perguntem no Rio de Janeiro o que está acontecendo na Baixada Fluminense? Eu duvido que, nos últimos 40 anos, houve 50% dos investimentos que estão acontecendo na Baixada Fluminense hoje, ou nas favelas do Rio de Janeiro. Eu duvido que, nos últimos 40 anos, aconteceu a intervenção que está acontecendo na periferia de São Paulo. E aí eu duvido para Recife, para Salvador, para Maceió... Perguntem para o Téo, que é do PSDB, perguntem para o Cássio Lima, que é do PSDB, pergunte para a Yeda, quem é do Rio Grande do Sul. Pergunte para a Yeda o que o governo federal está fazendo lá.
Noventa por cento das obras nos estados, hoje, são obras com dinheiro do governo federal em parceria com os estados. Algumas obras importantes, eu transfiro o dinheiro para o governador, porque eu acho que ele está mais próximo da obra, portanto ele tem condições de executar com muito mais rapidez do que o governo federal.
Assim tem sido a nossa relação. Graças a Deus, o Brasil tem uma safra de governadores jovens, eu diria, quase todos muito competentes. Eu não sei se em outro momento da história, o Brasil teve uma safra de governadores como temos hoje. Pode ter um defeito ali, outro defeito acolá, mas o dado concreto é que a média dos governadores é de boa qualidade.
Vocês estão lembrados – quem é do Rio de Janeiro – que eu dizia para o Sérgio Cabral no palanque: se depender de mim, nós vamos construir a mais extraordinária relação já acontecida entre o governo federal e o estadual. Eu poderia não estar fazendo obras nas favelas do Rio de Janeiro, se fosse olhar o prefeito. Entretanto, eu não posso olhar o prefeito, eu tenho que olhar o povo da cidade.
O mesmo vale para o Kassab. Perguntem para o governador Serra o tratamento que ele tem conosco. Perguntem para o Aécio Neves.
Jornalista: Esse é amigo do senhor.
Presidente: Nós temos que ser amigos. Nós não podemos nunca misturar as nossas camisas partidárias ou as nossas divergências de época de eleição com o ato administrativo. O ato administrativo tem que ser muito grande, porque nós não estamos servindo os governadores ou os prefeitos. Nós estamos servindo as pessoas. “Está dando dinheiro para tal fulano, tem eleição, ele vai ser muito forte”. Paciência. Utilize o fato de nós termos dado dinheiro e trabalhe isso. Não fique querendo que a gente não dê dinheiro porque tem eleições. Se for assim, meu caro, o País não anda. Se a cada período eleitoral a gente trancar o dinheiro e não passar para ninguém porque é adversário ou porque é aliado, o País fica parado. Você tem quatro anos de mandato, tem duas eleições no meio, tem quanto tempo para trabalhar?
O importante – quem é do Rio de Janeiro, de Minas Gerais, de Brasília sabe – é que nunca teve tantas obras na periferia das capitais como está tendo agora.
Jornalista: Presidente, a última, rapidinho. Não é provocação, porque eu sou carioca, trabalho em Campinas, sou flamenguista. Mas o pessoal do esporte pediu para perguntar o seguinte: o senhor fez realmente muita coisa nesses seis anos, é previsível que o senhor faça mais coisa nos próximos dois anos. Mas o senhor acredita realmente que a arena do Corinthians vai sair algum dia?
Jornalista: Posso acrescentar só uma linha? O que o senhor acha do Dunga na Seleção?
Presidente: A arena do Corinthians...
Jornalista: Treze medalhas, um alto investimento...
Presidente: Quinze medalhas.
Jornalista: Quinze, desculpe. Sendo um alto investimento... 12% das escolas públicas têm quadras. Não deveria haver um equilíbrio entre menos medalhas e mais esporte de massa no mercado?
Presidente: Muito bem. Primeiro, deixe-me contar uma coisa. Depois da experiência do Corinthians na segunda divisão eu, se fosse presidente da CBF instituiria um decreto para o Corinthians só jogar aos sábados, porque a torcida está indo mais a campo. Eu acho que o Corinthians precisa de um estádio, porque todo grande time deveria ter um estádio. Se a direção do Corinthians não quer construir o estádio, o governador José Serra já me disse que está disposto a oferecer para o Corinthians o Pacaembu, em comodato, utilizá-lo por quanto tempo quiser. Eu penso que um time ter um estádio é 30% ou 40% do sucesso do time. É uma vergonha um time com a torcida do Flamengo não ter um estádio. E é mais uma vergonha que dois times como o Flamengo e o Corinthians não façam um chamamento à torcida para contribuir para construir um estádio. Não precisa ter um estádio para 80 mil pessoas, pode ser um digno estádio para 40 mil pessoas. Desde moleque, quando eu tinha 10, 12 anos de idade, eu já ouvia falar que o Corinthians iria construir um estádio. Era o outro presidente depois do Vicente Matheus. O estádio não saiu, aquilo virou uma peça de propaganda. Eu não tenho esperança de que vou ver o Corinthians com um estádio, e lamento profundamente.
Eu confesso a vocês que gosto do Dunga. Ele é um vencedor. Agora, temos que admitir que cada pessoa tem um estilo, cada jornalista tem um estilo, cada governante tem um estilo, cada jogador tem um estilo e o Dunga tem um estilo, o Felipão tem outro. O Dunga é um técnico que eu respeito. Temos técnico profissional melhor do que ele? Temos. Eu acho o Luxemburgo o melhor técnico do Brasil na atualidade. Acho o Felipão um grande técnico, mas se o Teixeira escolheu o Dunga, eu vou torcer para o Dunga fazer o trabalho dele. O problema não é o Dunga, o problema é que nós estamos numa entressafra de jogadores, difícil. Esta semana, em Diadema, eu encontrei com o Vladimir, ex-lateral esquerdo do Corinthians e ele me disse: “Presidente, eu joguei 16 anos como titular no Corinthians e, nesses 16 anos, eu não ganhei o dinheiro que o meu filho ganhou no contrato com o Fluminense.” Hoje, o valor do jogador é infinitamente maior do que era e a situação do clube continua precária. Os jogadores passaram a ganhar muito dinheiro antes de ficarem famosos. Alguns jogadores estão sendo vendidos a peso de ouro antes de provarem que são grandes jogadores. Na Seleção brasileira, eu vejo gente sendo escalado como titular, sendo o segundo reserva de time na Inglaterra. Sinceramente, se eu fosse – e aqui é apenas palpite, não quero que eles pensem que estou me metendo na vida deles – técnico ou presidente da CBF, eu tentaria formar uma seleção com jogadores que estão jogando no Brasil, para fazer pelo menos uma viagem pela América do Sul e começar a testar esses jogadores. Senão, passa a idéia de que para ser convocado, o jogador precisa estar fora do Brasil. Tem jogadores que nunca vi na vida e foram convocados para a Seleção. E o que é mais grave: não provaram muita coisa.
Acho que o futebol brasileiro precisa passar por uma... Tenho provocado muito os dirigentes. Precisamos passar por uma discussão séria: o que nós queremos do futebol brasileiro? Eu tinha dito ao Ricardo Teixeira, por que a gente nunca ganhou uma Olimpíada? Já levamos Romário, Bebeto, Rivaldo, já levamos todos os cobras, e nunca ganhamos. Por que a gente não faz uma seleção de jovens que estão jogando no Brasil e os prepara dois meses antes, em vez de ficar convocando os que já estão na Seleção titular, os que já estão ganhando muito dinheiro? Convoquem esses meninos daqui. Será que o Flamengo, o Fluminense, o Botafogo, o Corinthians não têm um jovem de 20 anos para jogar na Seleção? Será que não jogam igual aos outros que estão lá? Eu acho que é uma questão também... acho que falta um pouco de alma.
Quando eu vejo a Argentina jogar e vejo o (inaudível), que na minha opinião é o melhor jogador do mundo hoje, perder uma bola e sair correndo atrás do adversário até tomar a bola ou fazer pausa... Eu vejo os nossos perderem a bola, cruzarem os braços e falarem “o cara da defesa que tire”. Quem gosta de futebol, gosta do espetáculo, mas sobretudo gosta dos caras que brigam em campo, dos caras que lutam, dos caras que suam a camisa.
Jornalista: Como era o Dunga.
Presidente: Como era o Dunga, como era o Dudu, do Palmeiras, que perdia quase quatro quilos por jogo correndo atrás da bola. O Brasil tem jogadores excepcionais, que poderiam ter sido craques extraordinários, mas são aqueles caras que perdem a bola e cruzam os braços. O Pelé me disse uma coisa, que eu achei fantástica. Disse a mim, ao Bellini e ao Ricardo Teixeira que ele não compreende por que o Ronaldinho tem que bater todas as faltas, por que o Ronaldinho tem que bater escanteio. Pelo craque que é, deveria ficar na espera para ver se pega a bola e marca um gol. O Pelé falou o seguinte: “Presidente, pegue um cronômetro e veja quantos minutos o Ronaldinho perde em um jogo de futebol para bater uma falta ou um escanteio.” Quando eu vejo ele sair da ponta esquerda e correr para a direita para bater um escanteio... Escanteio é uma coisa tão simples que qualquer um pode bater. O lateral direito pode bater um escanteio.
Jornalista: E bate errado ainda...
Presidente: Não precisa ser o maior craque do time. O maior craque do time bate uma falta quando a bola está em posição para entrar no gol. Aqueles cruzamentos todos vão na cabeça dos adversários. Nessas coisas, pelo menos, eu acho que a gente deveria ouvir um pouco o Pelé.
Com relação às medalhas, temos que entender, precisamos colocar os nossos preconceitos num canto da sala e conversar sobre o que está acontecendo no Brasil com mais sobriedade e mais seriedade. Eu acho que o Brasil teve uma boa performance nas Olimpíadas. Nós levamos a maior delegação de toda a história do Brasil. Esses atletas tiveram mais preparação do que em outros tempos. Dez por cento dos 270 atletas eram bolsistas, financiados pelo Ministério dos Esportes. A Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil têm financiado muito o esporte, tanto é que todo ato de que vocês participam aqui, todo mundo diz que somos o governo que mais investiu na história do esporte brasileiro.
Quando a gente vai para as Olimpíadas, tem que levar em conta que o nosso melhor vai se encontrar com outros melhores. Todo mundo se preparou durante quatro anos para ganhar a medalha de ouro. Eu já acho que chegar às Olimpíadas é um sucesso extraordinário. Só a emoção de entrar naquela abertura, já é um sucesso extraordinário. Então, tem que levar em conta o estado psicológico do atleta, o momento. Por exemplo, por que o Diego Hypolito não ganhou a medalha? Porque aconteceu um incidente com ele. Se não tivesse caído, ele seria medalha de ouro. Por que a Daiane não ganhou? Porque ela pulou duas vezes fora do espaço que tinha que pular. Por que o Tiago perdeu no judô? São coisas que acontecem, é questão de segundos. A gente não pode desmerecer o cara porque ele não ganhou.
A Seleção brasileira de vôlei, que ganhou 16 títulos de tudo o que participou nesses últimos anos, uma hora tinha que perder. Os sinais de que iria perder aconteceram no Rio de Janeiro, na Liga Mundial. Não foi lá. Eu acho que pegamos medalha de prata... Se a Rússia tivesse (inaudível) chave, nós poderíamos ter pego a de bronze.
O nosso companheiro que foi medalha de ouro no hipismo em Atenas, o Rodrigo Pessoa, ficou em sexto lugar.
Jornalista: Com o cavalo dopado.
Presidente: Ele não é melhor ou pior do que era antes. Os outros também se prepararam. Fiz uma análise de todas as medalhas que a China ganhou. Vocês viram os esportes em que a China ganhou 36 medalhas? A maioria deles nós não praticamos aqui no Brasil. Tem tênis de mesa, depois tem um com aquelas bolinhas...
Jornalista: Peteca.
Presidente: Eu não sei se alguém aqui pratica aquilo, a não ser que no meio da imprensa tenha alguém que jogue aquilo, mas eu não conheço. Ganhou 8 medalhas num, 10 medalhas noutro, 6 noutro... Nos grandes esportes, a China não ganhou nada também.
O Brasil, na minha opinião, só perdeu uma coisa. Eu não computei se o futebol ia ganhar, nunca botei fé que o futebol ia ganhar medalha de ouro. O Brasil repetiu a mesma deficiência da Copa do Mundo. Jogou o primeiro jogo mal. A gente esperava que melhorasse no segundo. Jogou o segundo mal ganhando da Coréia de 5 a 0, mas jogou mal. A gente esperava que depois fosse melhorar e jogou mal outra vez. Não houve uma evolução.
Jornalista: O senhor esperava que (inaudível)?
Presidente: Estou dizendo, quem eu imaginava que ia ganhar eram as meninas do futebol. Aquela sim, aquela foi uma fatalidade. Agora veja, foi uma fatalidade compreensível, porque a Alemanha, contra os Estados Unidos, quase marca um gol aos 90 minutos. Aquela bola em que ela tentou encobrir a goleira, se entrasse não teríamos morrido ali na praia. E morremos na praia porque as outras também estavam preparadas.
Jornalista: Vejo que o esporte de massa para a base, para a garotada: só 12% das escolas têm quadras, não deveria estar embutido neste plano, neste projeto (inaudível)?
Presidente: Eu acho que agora vamos ter que pensar com mais clarividência sobre a questão do esporte. Do ponto de vista do governo federal, temos 1,2 milhão de jovens participando do Segundo Tempo. São jovens, em convênios com a prefeitura, que se estudam de manhã fazem esportes à tarde e se estudam a tarde fazem esportes de manhã. Precisamos fortalecer os centros de excelência que existem no Brasil.
Estou para convocar uma reunião com o ministro do Esporte, com o Nuzman, e possivelmente com alguns atletas, para a gente discutir um programa efetivo. Se a gente quiser melhorar a nossa natação, em vez de mandar o nosso atleta morar lá fora, vamos trazer técnicos para ensinar a eles aqui. Se a gente quer melhorar, vamos pegar os melhores técnicos do mundo e vamos trazer para cá para ensinar o nosso pessoal.
Jornalista: O pessoal do vôlei fez isso...
Presidente: Lógico, vamos fazer isso. Eu penso que essa Olimpíada valeu como uma experiência riquíssima e acho que ainda vamos evoluir mais na outra e mais ainda na outra. Só espero que os Estados Unidos não mandem um cara nadador daquele jeito...
Jornalista: Até a outra ele já era... Ele ganhou mais medalha que muitos países. Presidente, só queria te fazer uma pergunta que acho importante para todos: a proposta de Orçamento está encaminhada no Congresso aponta o salário mínimo de R$ 464. Este valor o senhor acha que é definitivo, ou o senhor acha que pode mudar?
Presidente: Nós temos uma lei no Congresso Nacional em que a gente faz uma proposta de longo prazo para o salário mínimo, que tem uma combinação do PIB com a inflação. Se aprovarmos, pararemos de ficar todo ano discutindo a questão do salário mínimo. Precisamos é dar tranqüilidade para as pessoas se programarem, se planejarem e saberem que todo ano vão ter um reajuste. Acho que vamos dar aquilo que couber dentro do Orçamento, nem mais nem menos. É importante saber que há muitos anos o salário mínimo não tinha o reajuste que está tendo agora. É uma política de valorização porque achamos que isso contribui com o crescimento da economia brasileira.
Jornalista: Presidente, a última: além da (inaudível) o senhor defende a nova CPMF?
Presidente: Eu não defendo mais nada. Acho que foi um erro crônico – e vocês jornalistas deveriam pesquisar qual o empresário que reduziu o custo de seu produto por conta da não aprovação da CPMF. Esta é a grande pesquisa que vocês deveriam fazer. Porque os empresários diziam que aquilo aumentava o custo. Pergunte se alguém reduziu o custo? O que acho é que foi um crime contra a saúde não aprovar a CPMF.
($31DGJLP)