| Crise aérea continua; Aeronáutica culpa a
TAM
Comandante diz que a empresa segura aviões até conseguir ocupar todos
os assentos
Aeroportos voltaram a registrar atrasos e confusão; Lula convoca reunião
de emergência e diz que usuários merecem respeito
KLEBER TOMAZ
DA REPORTAGEM LOCAL
Em São Paulo, policiais ameaçaram usar gás pimenta para conter tumulto na
sala de embarque do aeroporto de Congonhas. No Rio, um passageiro foi detido
no aeroporto Tom Jobim (Rio) após quebrar um computador de uma empresa
aérea. Em Brasília, um grupo invadiu a pista e teve de ser contido pela
polícia.
Em mais um dia de caos nos aeroportos do país, com quase 44% dos vôos com
atrasos de mais de uma hora, a Aeronáutica culpou ontem as empresas aéreas,
especialmente a TAM, pela seqüência de atrasos e cancelamentos de vôos
iniciada na noite de segunda-feira.
Segundo o comandante do Decea (Departamento de Controle do Espaço Aéreo), o
major-brigadeiro-do-ar Paulo Hortênsio Albuquerque Silva, as empresas
agravaram o problema ao segurar os aviões no solo até que todos os assentos
estivessem ocupados. "Os vôos estão atrasados porque as aeronaves estão
esperando para saírem lotadas", disse à Folha.
Ele se reuniu com os responsáveis pelo controle de tráfego aéreo em São
Paulo. Após o encontro, Silva culpou diretamente a TAM. "A empresa [TAM]
está atrasando os vôos só para lotar as conexões. Isso é fato", afirmou. A
companhia aérea negou as acusações.
A taxa de ocupação dos vôos, neste mês, está em 70% -normalmente, o previsto
para este período do ano chegaria a 75%, segundo as próprias empresas.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocou ontem mais uma reunião de
emergência para discutir a crise e disse que os usuários têm de ser
informados de quem é a culpa quando um avião atrasar.
Segundo a Anac, dos 1.227 vôos previstos no país, 539 tiveram atrasos de
mais de uma hora e 47 foram cancelados.
Em Congonhas, entre as 19h22 e 19h27, o painel da Infraero mostrava que, dos
50 vôos previstos para o momento, 24 tinham mais de uma hora de atraso: 17
da TAM, seis da Gol e um da Varig. Em Cumbica, alguns vôos da TAM decolaram
com seis horas de atraso.
A Anac, por meio de nota, disse que os aeroportos sofreram um "efeito
dominó" e também atribuiu à TAM os problemas causados: além de citar as
chuvas que ocorreram na segunda e terça-feira, disse que "outros problemas
que contribuíram para os atrasos ocorreram com a TAM, em que seis aeronaves
não puderam voar devido à manutenção não programada. A queda do provedor da
TAM no aeroporto Tom Jobim também atrasou os vôos."
Para o comandante Silva, a saída é punir as aeronaves que solicitarem a
autorização para decolar somente após 30 minutos do horário previsto para
iniciar o vôo. A nova determinação começaria a ser implantada ontem e seria
estendida a todos os controladores do país.
"Isso ficou acertado com na reunião que tive aqui em Congonhas. Na prática,
o avião que não der o "pronto" [embarque efetuado, portas fechadas, corredor
desconectado e trator engatado], só poderá decolar novamente quando houver
um horário de oportunidade."
Segundo o oficial, essa foi a maneira encontrada pela Aeronáutica para
forçar as empresas aéreas a agilizarem suas partidas. Silva mostrou um
panfleto distribuído aos passageiros pela TAM que relacionava os atrasos a
problemas com o controle aéreo. "É preciso que digamos a verdade. O controle
de tráfego aéreo não pode ser culpado por tudo."
A TAM possui participação em cerca de 50% dos vôos domésticos do país.
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