Com que idade as crianças podem
ficar sozinhas em casa?
Por Lisa W. Foderaro
Alison Bazacchiello, uma mãe em tempo integral que mora em Queens,
precisava de algo novo para usar num casamento, então há algumas semanas
atrás ela procurou a loja Estelle's Dressy Dressers em Farmingdale,
(NY). Mas isso não é tão importante.
O que tornou o fato digno de nota foi que ela não levou seu filho de
onze anos, Nicky, junto com ela. Ele está naquela idade estranha em que
está grande o suficiente para ficar em casa sozinho, mas não sem uma boa
dose de ansiedade tanto para ele quanto para os pais.
"Durante todo o tempo que estive fora, fiquei olhando no relógio e
atenta ao meu telefone", disse. "Ele me ligou quatro vezes em uma hora:
'Quando você vai chegar em casa? Onde você está? Você já está a caminho?
Já saiu da loja?' Isso me deixou tão nervosa, eu só dei uma olhada e saí
da loja.
Muitos pais com filhos pequenos sonham com o dia em que possam sair de
casa sem uma babá, transformando um passeio com o cachorro ou uma ida ao
banco em uma aventura excitante. Mas diferentemente de tantos outros
aspectos do cuidado com as crianças que são claramente determinados por
ordens pediátricas ou por regulação governamental, este é um rito de
passagem sem orientações claras.
Nova York, como a maior parte dos Estados, não tem uma lei estipulando
uma idade mínima para as crianças ficarem sozinhas, apesar de os pais
poderem ser acusados de negligência se acontece alguma tragédia com seus
filhos enquanto as crianças estão sem supervisão em casa.
"Não há uma definição", diz Sharman Stein, porta-voz da Secretaria da
Criança da Prefeitura da Cidade de Nova York. "Há especialistas em
segurança infantil que acreditam que algumas crianças de dez anos de
idade ficam muito bem sozinhas e outros que dizem que não deixariam
crianças de 14 anos sozinhas."
Especialistas em bem-estar infantil dizem que muitos pais de baixa renda
têm poucas escolhas a não ser deixar as crianças sozinhas enquanto vão
trabalhar. Mas para os nova-iorquinos de classe média e alta, os
parâmetros variam de bairro para bairro, alimentando debates acalorados
nos jantares e muito julgamento em relação às escolhas alheias. ("Sei de
gente que deixa o filho mais velho de oito anos com os dois menores de
quatro e seis anos", disse um entrevistado para esta reportagem, sem
disfarçar seu desprezo.)
Esta é uma dúvida que levanta questões relativas à segurança,
maturidade, classe social, tradições culturais e pressão social, com as
coisas se complicando durante o verão, quando as crianças normalmente
têm mais tempo livre, e muitas instituições que cuidam delas depois da
escola não funcionam.
Apesar de a tecnologia - especialmente os telefones celulares - permitir
que as crianças possam pedir ajuda com facilidade, as famílias hoje
também se confrontam com uma cultura repleta de possibilidades
assustadoras, tanto reais quanto imaginárias, fora de casa (basta pensar
nos criminosos sexuais e no filme "The Lovely Bones" [sobre uma menina
que foi estuprada e assassinada). E as redes de segurança que evoluíram
nas últimas décadas (detectores de fumaça, telefones de emergência),
também lembram os pais de todas as coisas que podem dar errado.
"É muito estressante", diz Christine Rivera de Lynbrook, NY, que tem um
filho de 12 anos, Charles, que ela começou a deixar sozinho em casa há
dois anos. "Naquele momento, você não está lá para cuidar dele. Eles são
deixados com seus próprios recursos e com os perigos do mundo."
Quando Rivera, que é gerente de marketing da Microsoft, deixou Charles
ir sozinho para a casa, que estava vazia, depois da escola, eles estavam
morando em Queens e ela fazia questão que ele ficasse dentro de casa com
portas trancadas até que ela chegasse às 18h30. Ela relaxou um pouco e
agora deixa o filho ir a mais lugares, mas faz questão de saber onde ele
está.
"Agora que mudamos para Long Island, ele me liga quando chega da escola
e me liga quando quer ir para a casa de algum amigo e também quando
chega na casa do amigo", diz ela. "Quando ele não liga, recebe uma
punição. Não pode sair de casa no dia seguinte."
Um estudo de 2003 feito pela Child Trends, um grupo de pesquisas sem
fins lucrativos em Washington, estimou que três mil crianças menores de
13 anos em todo o país - algumas com até 5 anos de idade - eram deixadas
sozinhas por pelo menos algumas horas da semana regularmente.
Enquanto a maioria dos Estados não se pronuncia sobre o assunto,
Maryland especifica uma idade - 8 anos - abaixo da qual é ilegal deixar
as crianças sozinhas sem uma babá que seja "confiável" e tenha "pelo
menos 13 anos de idade". Outros, como Connecticut, oferecem alguma
orientação: o site do departamento de bem-estar do menor diz que "os
especialistas acreditam que uma criança deva ter pelo menos 12 anos
antes de ser deixada sozinha, e pelo menos 15 anos antes que possa tomar
conta de um irmão ou irmã menor."
A Safe Kids USA, uma organização pelos direitos das crianças sem fins
lucrativos de Washington, que busca prevenir ferimentos acidentais e
morte, também considera os 12 anos como um ponto de partida.
"Crianças com menos de 12 anos não tem capacidade cognitiva para
reconhecer o risco e, tão importante quanto, elas não têm a maturidade
cognitiva para reagir ao risco de um acidente quando ele acontece", diz
Alan Korn, diretor de política pública e do conselho geral do grupo.
"Essa preocupação é maior quando há outras crianças na casa. Muitos
ferimentos e mortes podem ser prevenidos com uma supervisão adulta
apropriada e ativa."
Em 2003, Kim Brathwaite foi presa sob acusação de negligência depois que
seus dois filhos, de um ano e nove anos de idade, morreram em um
incêndio quando estavam sozinhos em seu apartamento em Canarsie,
Brooklyn. Brathwaite disse às autoridades que sua babá não havia
aparecido e ela decidiu ir trabalhar de qualquer forma para não perder
seu novo emprego no McDonald's no centro do Brooklyn. As acusações foram
eventualmente suspensas.
"A única opção que muitos pais têm é largar o emprego e serem despejados
de casa porque não conseguem pagar o aluguel, ou ter a guarda dos filhos
tomada por falta de supervisão", diz Richard Wexler, diretor da Coalizão
Nacional para a Reforma da Proteção Infantil, uma organização de defesa
dos direitos das crianças sem fins lucrativos. Uma das razões pelas
quais os Estados não têm leis sobre o tema, sugere Wexler, é que "isso
traria à tona um problema que hoje é escondido: a existência de pais que
deixam crianças sozinhas em casa não porque querem, mas porque
precisam."
Alguns especialistas aconselham os pais a perceberem as dicas das
crianças. "Acho que as crianças nos deixam perceber quando estão
prontas, e acho que os pais de fato precisam ouvir isso", diz Leslie R.
Adelstein, psicóloga de Manhattan. "Se elas não estão prontas, você irá
induzir a ansiedade."
Adelstein diz que sua filha de nove anos de idade se sentiu pronta para
ficar sozinha em casa com sua irmã de 11 anos no começo dessa primavera,
e o fato de que elas vivem em um prédio com porteiro ajudou. "Se seu
filho está em casa e algo acontece, eles sentem que tem alguém lá",
explicou. "Em um prédio sem porteiro, é diferente. Nessa idade, eles
precisam desenvolver a auto-confiança e também sentir que têm algumas
das habilidades necessárias para lidar com problemas."
Como muitos pais, o advogado Ken Amorello, que tem um filho de 12 anos e
uma filha de seis, começou aos poucos. "Começamos deixando nosso filho
ficar em casa por 15 ou 20 minutos quando ele tinha quase dez anos
enquanto minha mulher fazia compras no quarteirão, e passamos a
trabalhar a partir disso", disse Amorello, advogado que mora em um
prédio com porteiro no Upper West Side de Manhattan.
O casal apenas começou a deixar o filho sozinho com a irmã mais nova
recentemente - por períodos de meia hora. "Vimos que ele estava seguindo
as regras", disse Amorello. "Ele é o tipo de criança que telefonaria
para perguntar se pode comer mais um biscoito. Ele tem nossos números de
telefone, e os vizinhos estão próximos."
Outros pais dão um empurrãozinho em seus filhos. "Estou muito consciente
sobre o quanto essa geração de crianças é superprotegida - eles não
podem nem mesmo sair e brincar sozinhos", disse uma escritora freelance
de New Hope, Pensilvânia, que começou a deixar seus filhos sozinhos há
dois anos atrás, quando tinham 9 e 11 anos, mas pediu para permanecer
anônima temendo pela segurança das crianças. "Meu marido e eu queríamos
construir uma certa independência e, francamente, eu não queria pagar
para alguém tomar conta deles."
Mas a mulher disse que sua filha mais nova "tinha um medo inexplicável
de ficar em casa sozinha."
"A imaginação dela corria solta", ela lembra. "Colocávamos as duas em
nosso quarto, com a TV, o telefone e o cachorro. Eu tinha 20 minutos
para correr e fazer compras. Ela fez tanto caso que, quando cheguei em
casa, disse, 'Você já voltou?'"
Sarah, 12, de Dobbs Ferry, NY, cujos pais pediram para que ela fosse
identificada apenas pelo primeiro nome por motivos de segurança, disse
que fica muito confortável estando sozinha, e que sua família vive numa
vila tranqüila onde as casas são próximas umas das outras. "Eu só fico
dentro de casa, e a maior parte do tempo vou para o computador e jogo
vídeo games", disse.
Mas outro dia, Sarah e seu irmão, que tem 15 anos, tiveram sua primeira
mini-crise quando o novo cachorro da família teve diarréia dentro de
casa.
"Nós não sabíamos mesmo o que fazer, e não conseguíamos ligar para
nossos pais", disse ela, acrescentando que eles acabaram cobrindo a
sujeira com toalhas de papel, fecharam a porta, e deixaram lá até que os
adultos chegassem.
Para muitos pais, o verão traz a dúvida de deixar ou não as crianças
sozinhas. Normalmente é quando elas têm mais tempo livre. E com a
diferença de agenda das escolas e acampamentos, pode haver um período
pequeno de tempo em que as crianças ficam sozinhas no final do dia de
trabalho dos pais - um período muito pequeno para contratar uma babá.
Marie Sloan, bibliotecária de Nassau County, conseguiu um novo emprego
com mais horas de trabalho pouco tempo antes que a escola liberasse seus
dois filhos, de 11 e 13 anos. Não houve tempo para agendar um
acampamento de verão. Então a mãe de Sloan, que mora em Queens, fica com
a família semana sim semana não. Quando ela não está lá, as crianças
ficam sozinhas.
Elas têm ordens estritas para ficar em casa, com as portas fechadas.
Elas não podem trazer amigos (Sloan algumas vezes checa as crianças e
leva comida para elas durante seu horário de almoço.) Elas não podem
usar a piscina no quintal. E também não podem atender à porta.
"Não importa quem esteja na porta", disse Sloan. "Mesmo que seja seu
tio, não abra antes de telefonar para mim."
Tradução: Eloise De Vylder
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