LEONARDO SOUZA
da Folha de S.Paulo, em Brasília
Cinco deputados petistas ligados ao escândalo do "mensalão" podem anunciar
renúncia coletiva a seus mandatos nos próximos dias, segundo a Folha
apurou. João Paulo Cunha (SP), Professor Luizinho (SP), Paulo Rocha (PA), Josias
Gomes (BA) e João Magno (MG) reúnem-se hoje com líderes e integrantes da
Executiva Nacional do PT para decidir seu futuro.
Todos eles receberam direta ou indiretamente dinheiro das empresas do
publicitário mineiro Marcos Valério, de acordo com investigações da CPI dos
Correios. A decisão do deputado Valdemar Costa Neto (PL-SP) reforçou a idéia da
renúncia coletiva.
O gesto dos petistas contribuiria para preservar a imagem do partido, fortemente
desgastada nos últimos meses. Ontem, eles negaram a intenção de renunciar.
Hoje são pelo menos 20 deputados federais ligados ao esquema do "mensalão". Se
não renunciarem, poderão ser cassados por quebra de decoro, perdendo os direitos
políticos e tornando-se inelegíveis até 2015. Assim, não poderiam se candidatar
em 2006.
O ex-presidente da Câmara João Paulo Cunha está bastante inclinado a abrir mão
do mandato. Tem dito a integrantes do partido que pode fazer o anúncio entre
hoje e amanhã. Segundo a CPI, a mulher do deputado, Márcia Milanésio Cunha,
teria recebido R$ 50 mil da SMPB. Em sua gestão na presidência da Câmara, João
Paulo contratou a SMPB para fazer propaganda da Casa.
Josias Gomes foi o único parlamentar até agora que sacou pessoalmente dinheiro
das contas da empresa de Valério. Ele compareceu à agência do Rural em Brasília
entre agosto e setembro de 2003, quando realizou duas retiradas de R$ 50 mil.
Ele deixou na agência cópia da carteira de parlamentar.
Entre os cinco petistas, o maior saque é atribuído ao ex-líder do partido na
Câmara Paulo Rocha. Sua assessora Anita Leocádia Costa teria retirado R$ 320
mil.
Professor Luizinho inicialmente negou que seu assessor José Nilson dos Santos
sacou R$ 20 mil, mas depois confirmou a retirada.
João Magno recebeu ao todo R$ 29 mil em duas transferências eletrônicas
efetuadas em 18 de agosto e 19 de setembro de 2004.
Pelo que a Folha apurou, José Dirceu (SP) e José Mentor (SP) não
integrariam o bloco de parlamentares dispostos a renunciar.
Repercussão
O vice-presidente da CPI do Mensalão, deputado Paulo Pimenta (PT-RS), disse ter
sido surpreendido pela renúncia de Costa Neto. "Em princípio me pareceu uma
atitude precipitada", disse.
"Espero que outros sigam o caminho [de Costa Neto], porque assim facilitaria as
coisas para o Congresso", disse o líder do PSDB, deputado Alberto Goldman (SP).
"O deputado Valdemar toma uma atitude corajosa, é uma decisão que outros
parlamentares deveriam tomar", disse o líder do PFL, Rodrigo Maia (RJ).
Para o secretário-geral do PTB, deputado Luiz Antonio Fleury Filho (SP), a saída
de Costa Neto "foi o sinal mais claro de que não haverá acordo" com Roberto
Jefferson (PTB-RJ), autor das denúncias do "mensalão", que evitaria cassações em
massa na Casa.
No Senado, a oposição viu no ato uma confissão de culpa: "É uma confissão e é a
primeira de uma série. Virão outras renúncias e algumas serão chocantes. É uma
estratégia de anistia para tentar uma nova eleição e por si só comprova a
existência do 'mensalão'", disse Arthur Virgílio (AM).