| CIA admite "diretrizes da tortura"
Pela 1ª vez, agência reconhece a existência de memorandos detalhando
técnicas de interrogatório "agressivas"
Casa Branca entra com ação para legalizar prisão por tempo indeterminado
de estrangeiros suspeitos de terrorismo dentro dos EUA
SÉRGIO DÁVILA
DE WASHINGTON
Pela primeira vez em três anos, a CIA assumiu a existência de dois
documentos com diretrizes para técnicas de interrogatórios "agressivas" a
serem aplicadas em suspeitos de práticas de terrorismo. A agência de
inteligência norte-americana recebeu o primeiro do presidente George W. Bush
e o segundo, do Departamento de Justiça, de acordo com o próprio escritório
legal da CIA.
Os documentos contêm "informações tão sensíveis", segundo o titular do
escritório legal da CIA, John L. McPherson, que não podem ser liberados para
o público nem parcialmente. O reconhecimento da existência dos dois
memorandos, que a agência negava ou se recusava a falar a respeito, é
resultado de um processo movido pela American Civil Liberties Union (ACLU),
uma das principais entidades de direitos civis dos Estados Unidos.
Pode virar uma grande dor-de-cabeça do governo Bush num momento em que a
oposição democrata toma conta do Congresso (a partir de 3 de janeiro),
começa a escolher os nomes de seus líderes que estarão à frente das diversas
comissões das duas Casas legislativas e promete convocar para audiências
membros da administração republicana envolvidos em atividades antiterrorismo.
Na ação, amparada pela Lei de Liberdade de Informação (Foia, na sigla em
inglês), foram liberadas parcialmente mais de 100 mil páginas de documentos
relacionadas à prisão e interrogatório de suspeitos pela agência desde o 11
de Setembro, entre outras atividades antiterrorismo. Entre os documentos
pedidos pela ACLU, estavam os dois memorandos. Estes continuam secretos, mas
tiveram sua existência reconhecida.
A entidade descreve o texto assinado pelo presidente como uma "diretriz"
sobre interrogatórios e uma autorização para que a agência criasse prisões
secretas fora dos EUA. Em setembro, Bush reconheceu em discurso a existência
de prisões secretas da agência no exterior e pediu que o Congresso aprovasse
as Comissões Militares especiais, para julgar suspeitos de terrorismo com
leis próprias e que ferem a Constituição do país. Não falou do memorando.
O segundo documento, de agosto de 2002, é uma guia do Departamento de
Justiça sobre como membros da organização terrorista Al Qaeda podem ser
interrogados -e não tem a ver com outro polêmico memorando, do hoje titular
do departamento, Alberto Gonzalez, que afirmava que membros do Taleban não
tinham direito à proteção garantida pela Convenção de Genebra a prisioneiros
de guerra.
"Pretendemos pressionar pela divulgação dos documentos", disse Jameel Jaffer,
um dos advogados da ACLU envolvidos no caso. "Se o presidente e o
Departamento da Justiça autorizaram a CIA a torturar seus prisioneiros, o
público tem o direito de saber." A Casa Branca não comentou o caso.
Prisões nos EUA
Em um caso não relacionado, o governo Bush defendeu anteontem que imigrantes
presos nos EUA sob suspeita de terrorismo podem ser detidos indefinidamente
e não podem questionar sua prisão na Justiça. Até então, a Casa Branca
defendia tal tratamento às prisões feitas no exterior.
Agora, segundo documentos apresentados à Corte de Recursos do 4º Circuito em
Richmond, no Estado da Virgínia, o Departamento de Justiça defende que a lei
recém-aprovada para os detentos da prisão militar de Guantánamo também vale
para os estrangeiros que forem presos em solo americano. O caso em questão é
o de Ali Saleh Kahlah Al Marri, cidadão do Qatar preso em 2001 enquanto
estudava nos EUA.
"É chocante que esse direito [de questionar sua prisão] seja negado a um
estrangeiro vivendo nos EUA", disse Jonathan Hafetz, advogado de Al Marri. A
Casa Branca afirma que Al Marri é membro de uma "célula adormecida" da Al
Qaeda.
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