Há um longo caminho a percorrer
antes que sejam feitos testes com CTs embrionárias em humanos
A luta pela aprovação do Projeto de Lei de Biossegurança, liberando o
uso de embriões humanos para a extração de células-tronco (CTs)
embrionárias, gerou enorme expectativa na população, que se pergunta:
após a aprovação, quantos pacientes sairão das filas de transplantes?
Na verdade, nenhum hoje, nenhum até mesmo nos próximos anos, mas
provavelmente muitos a longo prazo, agora que podemos trabalhar com
essas células no Brasil. Com a poeira do sensacionalismo baixada, quais
são as reais possibilidades das CTs embrionárias?
As CTs embrionárias são o tipo mais versátil até hoje identificado em
mamíferos, possuindo a formidável capacidade de dar origem a todos os
tecidos do corpo. Desde a década de 1980 faz-se pesquisas com as CTs
em-brionárias de camundongos. Descobrimos como transformá-las no
laboratório em células da medula óssea, do músculo cardíaco, em
neurônios, entre outras. E quando transplantadas em animais doentes, as
células derivadas foram capazes de aliviar os sintomas de diversas
doenças - leucemia, doença de Parkinson até paralisia causada por trauma
da medula espinhal.
As primeiras linhagens de CTs embrionárias humanas surgiram em 1998, e
junto com elas a enorme expectativa de seu uso terapêutico. Porém,
antes de começarmos testes clínicos injetando CTs embrionárias em seres
humanos, temos algumas questões fundamentais que devem ser resolvidas.
Questões de segurança - quando injetadas em camundongos, essas células
podem formar tumores. Antes de testá-las em pacientes, temos que
primeiro aprender a controlar sua diferenciação para que elas gerem
somente o tecido que nos interessa, e não tumores.
Questões de compatibilidade entre as CTs embrionárias e o paciente, para
que elas não sejam rejeitadas após o transplante. Uma solução para isso
seria criar, com as técnicas de clonagem, CTs embrionárias geneticamente
idênticas ao paciente, que poderiam então gerar tecidos 100% compatíveis
com ele - a chamada clonagem terapêutica, realizada em humanos na Coréia
do Sul em 2004.
Porém, a clonagem terapêutica não poderia ser utilizada em indivíduos
com doenças genéticas. As CTs embrionárias geradas a partir das células
desses pacientes também carregariam a doença, e por isso não seriam
capazes de gerar tecidos sadios para transplante. Assim, para o
tratamento de doenças genéticas com CTs - sejam embrionárias, da medula
ou do sangue do cordão - a melhor alternativa é conseguir um doador
aparentado, que tem maior chance de ser compatível com o paciente.
E no Brasil, como andam as pesquisas com as CTs em-brionárias? Em 1999,
nosso grupo estabeleceu as primeiras linhagens de camundongo totalmente
"made in Brasil", implantando a tecnologia no país e a disponibilizando
para outros pesquisadores.
Quanto à clonagem terapêutica, a colaboração entre grupos que fazem
clonagem animal e aqueles que trabalham com CTs em-brionárias poderia
tornar esta prática uma realidade no país. Porém, o Projeto de
Biossegurança proíbe a clonagem terapêutica. Não tem problema, a
conquista do direito de utilizar embriões congelados para pesquisa foi
um primeiro e importantíssimo passo, e em uma segunda rodada a clonagem
terapêutica pode ser renegociada. E enquanto não podemos utilizá-las
como agente terapêutico, temos muito a aprender com as CTs embrionárias,
sobre sua capacidade de se transformar em qualquer tecido - esses
conhecimentos básicos trarão a longo prazo grandes benefícios à saúde
humana.
Apesar de o uso terapêutico das CTs embrionárias ainda estar longe de se
tornar uma realidade, para que isso um dia aconteça precisamos pesquisar
- e foi este direito que adquirimos com a aprovação do projeto, passando
de meros observadores do desenvol-vimento de uma área promissora da
medicina para jogadores muito competitivos. Afinal de contas, as
pesquisas com CTs de medula e de cordão umbilical no Brasil são motivo
de orgulho nacional. Agora poderemos fazer bonito com as CTs
embrionárias.
Lygia V. Pereira é livre-docente e chefe do Laboratório de Genética
Molecular do Departamento de Biologia, Instituto de Biociências, USP.