Bruxaria
A religião, que levou muitas mulheres a morrerem queimadas na fogueira, tomou um novo rumo a partir dos anos 50 e possui adeptos no mundo todo
 

 

Religiões no Brasil


O Brasil é um país onde há liberdade de culto e uma grande variedade de religiões. De acordo com dados do IBGE de 2000, 73,8% da população brasileira é católica. Segundo o Datafolha de 2007, esse número teria caído para 64%, sendo que a religião evangélica cresceu de 15,5% em 2002 para 22% em 2007.

Uma pesquisa do Instituto de Estudos da Religião - ISER, publicada na revista científica Religião e Sociedade, revelou que os autodeclarados sem religião eram 0,2% em 1940. Em 2002, esse número era de 7,3%, sendo o Rio de Janeiro o maior percentual, com 15,5%.

A Coordenadora Executiva da pesquisa Religião e Mídia do ISER, Christina Vital, explica que o candomblé e a umbanda representavam, em 1980, 0,6% da população brasileira, em 2000 o número caiu para 0,3%. A discussão que se coloca é que o candomblé não é mais uma religião exclusivamente de negros. Por exemplo, há mais negros nas igrejas neo-pentecostais como Universal do que no candomblé. O discurso desta religião também não é exclusivamente étnico: as religiões afro buscam agora o lugar de religiões universais e não mais de religiões étnicas , diz. Os espíritas kardecistas são 2,3%.

 



 

Foto: Photocase.de
 

Chapéu de cone, nariz comprido e com uma verruga na ponta. Acrescente uma gargalhada de dar arrepios e você tem o que o imaginário popular chamaria de bruxa. Mas não é bem assim que funciona. Muitas vezes você pode estar conversando com uma e nem se dar conta.

Algumas pessoas ficaram descontentes com o padrão religioso que a humanidade adotou e entraram em contato com antigos cultos relacionados à Mãe-Terra. O Xamanismo e a Bruxaria estão entre estas alternativas , conta o funcionário público e bruxo seguidor da Wicca Duncan Frewin.

Muitas vezes perseguidas, as bruxas acabavam queimadas na fogueira durante a Idade Média, mas os tempos mudaram. Hoje, elas fazem os cultos em casa mesmo ou em locais abertos, como chácaras e praias.

A crença descende dos mais antigos cultos religiosos. A Deusa vem de um tempo onde o poder de criar a vida, exclusivo da mulher, era visto como mágico e sagrado. Duncan explica que, por esse motivo, nas sociedades antigas, as mulheres tinham um lugar privilegiado como curadoras, parteiras e oraculistas, o que mudou com o advento das religiões patriarcais.

 

Foto: Arquivo pessoal
 

Em meados do século passado, a religião pôde sair das sombras e passou a ganhar ainda mais adeptos, após a publicação dos trabalhos de Gerald Gardner, considerado o pai da bruxaria moderna (Wicca). O movimento se tornou crescente principalmente na Europa e nos Estados Unidos, onde vários grupos foram formalmente instituídos, celebrando deuses antigos e novos. No Brasil, é difícil precisar como tudo surgiu, pois há muitos grupos isolados.

Para a pesquisadora sobre religiões primitivas (que praticam a arte do feitiço) Márcia Frazão, as bruxas são mulheres plenas em poder, livres de comportamento e ideologia. Por esse motivo elas teriam sido tão perseguidas durante a Inquisição da Igreja Católica, já que incomodavam, de alguma forma.

A magia surge no mundo desde os índios, africanos e até esquimós. Suas filosofias acreditavam na harmonia com a Natureza e em viver sem prejudicar o próximo. No Brasil, além dos índios que aqui moravam já praticarem algum tipo de feitiço, os colonizadores europeus trouxeram as rezadeiras para o país.

As Tradições, ou caminhos distintos para alcançar um objetivo em comum (comunhão com os antigos deuses), guiam os pequenos grupos de bruxos, fazendo com que as crenças variem e originem práticas distintas.

A religião é não-dogmática, mas possui algumas regras às quais todos estão subordinados. São elas o Dogma da Arte ( faça o que quiser, desde que não faça mal a nada nem a ninguém ) e a Lei Tríplice ( tudo o que você fizer voltará para você, três vezes multiplicado ).

 

Foto: Sxc.hu
 



Baseados nessas duas leis, os bruxos são livres para levar a vida que quiserem, desde que assumam a responsabilidade pelo que fazem. Eles podem usar o conhecimento para proporcionar bem-estar, curar e alertar, mas também podem prejudicar os outros. Tudo depende do seu grau de evolução e equilíbrio. Entretanto, a Lei Tríplice faz com que sintamos na pele a conseqüência de nossos atos, não a transferindo para nada nem ninguém , conta Duncan.

 

 

Bruxo: a palavra quer dizer larva de borboleta, aquela que está se transformando no animal.



Se você quer se tornar um bruxo, saiba que qualquer um pode ser, desde que esteja sintonizado com os ideais e crenças, tendo ouvido o chamado da Deusa . Quando isso acontece e a pessoa passa a se guiar através do chamado, torna-se pouco a pouco uma adepta.

Não é necessário ter um dom especial. Com a prática é normal, de acordo com Duncan, adquirir alguma capacidade extra-sensorial, o que não é uma regra e não invalida a pessoa que não teve o desenvolvimento. O objetivo é encarar tudo que existe como sagrado, respeitar e honrar a diversidade no mundo e celebrar os deuses antigos.

A sacerdotisa responsável pelo site Old Religion, Dayne Anglius Dosken, explica que Bruxaria é um termo utilizado para definir o ofício mágico-religioso que objetiva a transformação física, mental e espiritual dos seres e coisas, através da manipulação da energia.

Segundo ela, toda pessoa capaz de manipular energias, sejam pessoais ou contidas em ervas, pedras, óleos e demais objetos, pode ser considerada uma bruxa. Porém, atualmente, com o surgimento do Neopaganismo, estão sendo considerados bruxos apenas aqueles que desenvolvem atividades também religiosas, diretamente ligadas a culturas pagãs , diz.

Forças e cultos

 

 

Pagão não é aquele que não foi batizado. A palavra deriva do latim pagus, que significa campo, aquele que vem do campo.



Há onze anos praticando bruxaria, a pedagoga Pietra di Chiaro Luna (nome pagão) faz parte da linha de Bruxaria Italiana (Stregheria). Ela lembra que há muitos grupos, como Bruxaria Natural, Wicca, Bruxaria Ibérica, Witta (escocesa) e outros. O que difere as famílias é o local de origem, criando tradições distintas, costumes e deidades (divindades).

Ela explica que os bruxos são politeístas, emprestando de alguma cultura da Antiguidade os deuses para lidar com a Criação e a Natureza. Eles também acreditam em magia e transformação da realidade. Há ainda o estudo de ervas, com seus poderes mágicos e curativos, além de alguns se dedicarem ao oráculo.

 

Foto: Arquivo pessoal
 

Não há tipos de bruxaria, apenas famílias diferentes que se dedicam a práticas diversificadas. Existem duas forças principais na religião. A Deusa é vista como fonte de toda a vida, estando representada na Terra, Lua e em tudo que está em volta. Ela é quem mantém o planeta e acolhe a todos os seres no momento da morte, para depois renascerem. Ela é considerada a Mãe-Natureza, por isso a questão ecológica é tão importante para os bruxos.

Já o Deus é o grande fertilizador e princípio da ação. Ele pode ser simbolizado por muitos ícones, mas um dos principais é o Sol, que todos os dias fertiliza a Terra.

De acordo com a especificidade de cada assembléia, ela pode escolher determinado deus ou deusa para cultuar. Do ponto de vista wiccano, todas as deusas são uma forma de representação da Deusa e da mesma forma acontece com o Deus. Outros grupos, que trabalham com a temática egípcia, por exemplo, cultuam Ísis e Osíris, já os movimentos celtas podem ser adeptos de Brigit e Lugh, enquanto os gregos adoram os gêmeos Ártemis e Apollo.

 

Foto: Sxc.hu
 

As forças da natureza também seriam emanações dos dois princípios fundamentais. Dessa forma, são usadas, nos rituais, as energias dos quatro elementos: terra, fogo, água e ar. Todas elas manifestadas através das pedras, ervas, bebidas, alimentos e pelos próprios corpos.

Os ritos ou celebrações acontecem de acordo como calendário de cada grupo. O calendário da Wicca, com a Roda do Ano, é bastante conhecido por ser uma vertente que se popularizou mais.

Basicamente, há dois rituais que são realizados. Os sabás acontecem oito vezes ao ano, marcando o início e o ápice de cada estação. Ou seja, são celebrados o solstício de inverno (Yule), equinócio de primavera (Ostara), solstício de verão (Litha) e equinócio de outono (Mabon), como sabás menores.

Os maiores são Imbolc (1° de agosto), Beltane (31 de outubro), Lammas (2 de fevereiro) e Samhain (1° de maio). Esses rituais conectam o bruxo com a energia da Terra. As datas correspondem ao hemisfério sul, já que as estações ocorrem de forma invertida no hemisfério norte.

Os esbás são realizados nas luas cheias, que trazem poder, aumentam a conexão com os deuses e propiciam a realização de magias. Normalmente, esses trabalhos são utilizados para realizar mágicas de cura, oráculos e prosperidade.

Quando não se fala em wiccanos, pode-se pensar em celebrações para cada estação do ano, honrar determinadas divindades, marcar passagem no grupo e até observar plantios e colheitas de determinado local.

 

Foto: Sxc.hu
 

A palavra ´bruxaria´ ganhou uma conotação de coisa do mal, mas isso nunca existiu dessa forma. A Idade Média, a Igreja e a Contra-Reforma transformaram tudo que não era catolicismo romano em bruxaria. Virou uma salada e as bruxas se tornaram uma coisa ´do demo´, ou seja, não-católica. A questão é que a mulher sábia, a curandeira, a parteira, a rezadeira sempre existiram nos povoados e mesmo grandes impérios, como Roma ou Mesopotâmia. Conhecer a cura ou o oráculo sempre foi parte da cultura humana. No século XX, resolvemos resgatar o termo bruxa. Somos as mulheres sábias, as ´buonas donnas´, e nada temos em comum com a figura feia e esquisita que veio da Europa para o Brasil, na colonização , ressalta Pietra.

 

 


• Bruxa Verde: aquela que trabalha com a energia somente de ervas, pedras, cristais, água, argila e demais ingredientes da terra.

• Bruxa de cozinha: aquela que trabalha todas as suas ritualísticas através dos alimentos, sementes, frutas, verduras, legumes, comidas desenvolvidas como feijão, arroz, tortas, bolos e afins.

• Bruxa zen: aquela que trabalha com terapias como Reiki, Yoga e demais atividades ligadas a concentração e meditações.