Brasil paga caro por telefone celular

(Agência Estado) Seg, 03 Mar - 00h30
Embora muita gente tenha se acostumado a pagar R$ 400 ou mais por um celular, uma pesquisa apresentada semana passada mostra que no Brasil as pessoas, em média, gastam mais para comprar um telefone do que em outros países.

A pesquisa, realizada em novembro pelo instituto TNS InterScience, perguntou a 16 mil entrevistados de 30 países com idades entre 16 e 60 anos quanto eles pagaram pelo celular que usam atualmente. Resultado: no Brasil o valor médio ficou em US$ 229 (cerca de R$ 389).

Apesar de não parecer um preço tão pesado para um telefone móvel, que pode custar até mais que R$ 1.500 dependendo do modelo, a média de outros países em desenvolvimento é consideravelmente menor do que a do Brasil.

Os mexicanos entrevistados, por exemplo, disseram ter pago em média US$ 167. Da América Latina, os argentinos foram os que gastaram menos pelo último celular: US$ 144.

Na Índia e na Indonésia os valores são ainda menores: US$ 106 e US$ 111, respectivamente. Já os chineses chegam a gastar US$ 213, quase o dobro dos outros países asiáticos, mas, ainda assim, menor do que a média brasileira.

Comparando a média global de todos os 30 países pesquisados, os brasileiros pagam quase 28% a mais por um celular.

Mas os preços dos telefones móveis são realmente mais altos no Brasil ou são as pessoas que se dispõem a gastar uma quantia maior por um celular?

"O brasileiro se acostumou com um patamar de preço alto e topa pagar ainda mais (US$ 294) no próximo aparelho desde que ele tenha os recursos desejados, como câmera digital e tocador de MP3. Isso já não acontece em países desenvolvidos onde as pessoas pretendem pagar o mesmo valor do aparelho atual", diz Renato Trindade, diretor de negócios da TNS InterScience, o instituto que realizou a pesquisa.

Acontece que o Brasil é um dos países em que as pessoas mais desejam comprar celulares cheios de recursos integrados. Ou seja, aqui quanto mais funções disponíveis no celular, mais atrativo é o aparelho. Essa é uma característica também da América Latina, onde 69% dos entrevistados disseram preferir unir várias ferramentas em um único telefone.

Só que os celulares com câmeras digitais, tocador de MP3, etc. são justamente os que custam mais caro. E, por isso, essas tecnologias demoram mais tempo para se tornar populares no Brasil do que em outros países. Por exemplo, em 2006, apenas 5% dos brasileiros tinham celulares que tocavam música digital. Já em 2007, o número cresceu para 25%. Enquanto no México, 41% das pessoas já escutam música por meio do telefone móvel.

"Os celulares com câmeras digitais ficaram populares um ano atrás. No exterior isso aconteceu há dois anos. Vimos que os telefones premium (aqueles mais avançados, com câmeras de alta resolução, GPS, etc.) custam até o dobro no Brasil. O resultado é uma base instalada de aparelhos mais simples, com menos recursos, se comparada às dos outros países pesquisados", avalia Renato Trindade.

Outros fatores

Outra hipótese para o alto valor dos celulares no Brasil seria a quantidade de planos pré-pagos no País, que representam hoje 80,76% das linhas ativas.

Todo mundo sabe que, ao comprar um pré-pago, o consumidor paga um valor maior pelo telefone em troca da vantagem de controlar os gastos com as ligações fazendo recargas.

Porém, segundo Trindade, a justificativa não é válida. A China, a Índia, a Rússia e a Indonésia têm um porcentual de celulares pré-pagos maior do que o do Brasil e ainda assim o valor médio que as pessoas pagaram pelo aparelho atual foi menor.

Mas o Brasil não conta com um concorrente presente nos países asiáticos que pressiona o preço para baixo. É o chamado mercado cinza - ou seja, telefones móveis falsificados ou contrabandeados.

Caro ou não?

Para Roger Solé, diretor de marketing do segmento premium da Vivo, os impostos sobre importação de aparelhos e componentes eletrônicos devem ser levados em conta. Essa poderia ser uma das razões do preço elevado dos celulares. "O número (da pesquisa) não é significativo em termos de mercado porque o ideal seria separar os tipos de clientes. Aqueles que assinam planos de ligações maiores não pagam pelo celular nunca. Os clientes de classe média fogem dos telefones simples e gastam mais pelos aparelhos", diz Sole.

Procuradas pela reportagem, a Claro e a Tim não se pronunciaram.

Eduardo Tude, presidente da consultoria Teleco, acredita que a média dos celulares no Brasil, na prática, seja menor que R$ 389. "A maioria dos celulares ativos são os que custam no máximo R$ 100 e que são comprados por pessoas de baixa renda", diz. "É estranho ver um preço maior no Brasil do que no México e na Argentina. Nos EUA e Europa o preço é baixo porque as operadoras subsidiam. Se não fosse isso, as médias deles seriam maiores", afirma. As informações são do O Estado de S. Paulo/Link