| Biocombustível já
eleva preço de alimentos, diz FAO
De Márcia Bizzotto
Em Bruxelas, Bélgica
Um estudo divulgado pela FAO - o
órgão das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação - nesta quinta-feira
sugere que a crescente demanda por biocombustíveis pode estar levando a uma
alta dos preços internacionais de alguns alimentos.
Segundo o estudo, os gastos globais com a importação de alimentos devem
crescer 5% e atingir um valor recorde de US$ 400 bilhões neste ano.
A alta é puxada pelos preços de importação de grãos e óleos vegetais, usados
em grande escala na produção de biocombustíveis - sobretudo nos derivados de
milho.
Ainda de acordo com a FAO, o aumento dos gastos com as importações desses
produtos em 2007 chegará a 13% em relação a 2006.
"Observando esse dado vemos claramente que a demanda por biocombustíveis é o
maior responsável pela subida dos preços (dos alimentos), apesar de ser
impossível dizer exatamente qual a porcentagem de culpa atribuída a esse
fator", afirmou à BBC Brasil Abdolreza Abbassian, um dos autores do estudo.
Etanol
Só nos Estados Unidos, estima-se que, no período entre 2007 e 2008, serão
necessárias 86 milhões de toneladas de milho para a produção de etanol.
Isso representaria 60% a mais (30 milhões de toneladas) do que o total
utilizado no período anterior e uma quantidade superior ao volume total de
milho exportado em todo o mundo, estimado em 82 milhões de toneladas.
"O milho é a principal matéria-prima utilizada na alimentação animal. Um
aumento em seu preço se traduz em aumento nos custos de criação de animais e
em um conseqüente aumento nos preços de produtos derivados de animais",
explicou Abbassian.
Para o consumidor final, o resultado mais visível será o encarecimento da
carne, de produtos lácteos e dos óleos vegetais, que já começam a ser
observados.
De acordo com a FAO, o preço da carne subiu 7,6% em março passado em relação
ao mesmo mês em 2006 e o preço dos produtos lácteos aumentou 46% desde
novembro passado.
No caso do frango, os preços das exportações do Brasil e dos Estados Unidos,
que juntos respondem por 70% do comércio mundial, subiram em março passado
14% e 20%, respectivamente, em relação à média de 2006.
Mas parte desse comportamento "se deve também a fatores como o clima", disse
Abbassian.
De acordo com o especialista, o açúcar é o único produto que ainda não corre
risco de subir de preço, apesar de o Brasil, maior produtor mundial,
continuar destinando cada vez maiores quantidades de cana para a produção de
etanol.
"A produção brasileira ainda é maior que a demanda. Mas isso vai mudar a
partir do momento em que as nações desenvolvidas decidirem liberalizar o
mercado de etanol e eliminarem as tarifas sobre o álcool brasileiro."
|