ANA MARIA BAHIANA
Especial para o UOL, de Los Angeles
Seth Rogen e Jay Chou interpretam, respectivamente, o herói e seu assistente em cena de ''Besouro Verde''
“É verdade que este personagem existe há muito tempo, mas o problema é que
ele não parece durar muito. Ele tem uma certa tendência para ser cancelado”, diz
Michel Gondry num inglês com forte sotaque francês, entre goles de chá com mel
para “acalmar a garganta”. Com bom motivo: Gondry ("O Brilho Eterno de uma Mente
Sem Lembranças", "Rebobine Por Favor") está enclausurado num hotel de luxo em
Beverly Hills, falando sem parar, desde as primeiras horas da manhã, sobre
"Besouro Verde", o filme que ele dirigiu e que estreia nos EUA nesta sexta (14)
e em 18 de fevereiro no Brasil.
E Gondry está certo - no congestionado panteão dos super-heróis, o Besouro Verde
ocupa um lugar muito estranho, com uma trajetória bastante peculiar. Para
começar, ele não é nem um besouro – a tradução correta seria Vespa ou Marimbondo
Verde, o que explica o logotipo e as várias alusões à “mordida” do herói - e,
neste filme, até mesmo às suas origens.
O diretor Michel Gondry participa da première de ''Besouro Verde'' na Califórnia, nos EUA, em novembro de 2010
Seth Rogen e Cameron Diaz posam para foto em première de ''Besouro Verde'' nos EUA (10/01/2010)
Para continuar, ele não é um super herói: é um sujeito comum numa roupa do
dia-a-dia, desprovida de capa ou collants, com um carro Chrysler Imperial dos
anos 1960 que nem ele mesmo dirige – essa tarefa cabe a seu motorista asiático,
o super cool Kato, um que sabe artes marciais e, via de regra, é quem realmente
sai no braço com os bandidos.
E para culminar, como Gondry lembra, sua única encarnação razoavelmente bem
sucedida foi durante a era de ouro do rádio, nos anos 1930, quando o Besouro
Verde era um dos heróis de seriados radiofônicos norte-americanos, ao lado do
Sombra e de outra criação dos rádio-dramaturgos George Trendle e Fran Striker, o
Lone Ranger, conhecido no Brasil como o Zorro e Cavaleiro Solitário.
Nos anos 1940, o Besouro ganhou dois pacotes de seriados cinematográficos, com
orçamentos e ambições para o circuito B. Para evitar o sentimento anti-nipônico
da época da 2ª Guerra Mundial, Kato transformou-se de japonês em filipino,
embora representado por um ator chinês. Duas décadas depois, o Besouro ganhou
uma versão para TV, de vida curtíssima – uma única temporada. “O importante ali
é que Bruce Lee era Kato”, Gondry recorda. “Mas só muito tempo depois foi
possível avaliar esse fator.”
Em 1992, a Universal, que detinha os direiros do personagem desde os seriados
dos anos 40, começou a longa jornada para trazer o herói de volta às telas. Em
1997,quando Gondry foi contratado pela primeira vez para dirigir a adaptação,
Mark Wahlberg seria o herói, e Jason Scott Lee viveria Kato. Gondry e o
roteirista Eric Neumeier imaginaram uma saga super sombria e vagamente irônica,
com um vilão que comia corações humanos - e era derrotado quando engolia um
marca-passo e o Besouro o liquidava com um micro-ondas.
Nos mais de dez anos que se seguiram o projeto mudou de estudio, diretor,
roteirista e elenco tantas vezes que dá para perder a conta. Quando Gondry
voltou a ser contactado, havia uma novidade importante no projeto: Seth Rogen.
"Foi com ele que a história tomou um rumo que voltou a me interessar.”
“Você pode olhar por qualquer lado que vai ver a mesma coisa – o Besouro Verde é
um cara que tem grana e uma vontade enorme de fazer alguma coisa pra acabar com
o tédio”, diz Rogen. “Mas ele é muito menos interessante e charmoso que Kato.
Kato é bonitão, atlético e capaz de encarar brigas e criar gadgets. A relação
entre eles é a coisa mais interessante.”
Aos 28 anos, o ator-roteirista que se tornou sinônimo de um tipo de comédia
jovem sobre perdedores crônicos mas adoráveis – "Superbad', "Ligeiramente
Grávidos", "Segurando as Pontas" – reinventou o Besouro à sua imagem e
semelhança - como um garotão de poucos dotes físicos, perdido numa vida de muito
dinheiro e zero responsabilidade, que resolve virar herói para se colocar à
altura do pai, o dono de um grande jornal que morre inesperadamente.
Sobretudo, Rogen mudou o foco da história do combate ao crime – em que os
vilões são Christoph Waltz e, numa breve ponta, James Franco – para a relação
entre o Besouro e Kato. “Kato era apenas um empregado nas versões anteriores, e
isso seria inadmissível hoje”, ele diz. “Sou um nerd fá de quadrinhos – na minha
garagem não tem um carro todo incrementado, tem caixas de revistas. E sempre me
intrigou a relação entre o herói e o assistente. Especialmente no caso do
Besouro Verde, em que Kato era tão claramente superior a ele, em tudo.”
Gondry divertiu-se aplicando sua estética ao que chamou de “visão Kato” – a
capacidade do herói (vivido pelo megapopstar de Taiwan, Jay Chou) de decupar as
situações perigosas - e conseguiu convencer o estúdio (a Columbia, agora) a
pagar os 30 milhões a mais no orçamento (que já era de 90 milhões) para
transformar o filme em 3D. “Quando faço um filme, principalmente um filme como
este, que custou tanto, eu me preocupo tanto em agradar a mim mesmo quanto
agradar o público”, diz Gondry, resumindo sua longa jornada com o Besouro Verde.
“Espero que tenha conseguido.”