
FONTE: http://virgula.uol.com.br/ver/noticia/celebridades/2009/07/08/210972-gigi-do-bambalalao-crianca-se-interessa-por-conteudo.-que-ser-humano-nao-gosta-de-aprender
Se você se lembra do programa
Bambalalão, ela não
precisa de apresentação: Gigi
Anhelli era a alma dele. E é nela que o
Bambalalão continua
existindo, mesmo há tantos anos fora do ar.
O infantil Bambalalão
(ou apenas e carinhosamente Bamba) foi um programa da TV Cultura que nasceu em
1977 e parou de ser exibido em 1990. Nestes 23 anos, manteve seu espírito, o
de entreter ensinando, e sua alma – Gigi Anhelli. Pela atração passaram também
Memélia de Carvalho (que construía os bonecos/fantoches e lhes dava voz) a
apresentadora Silvana Teixeira, Gerson de Abreu, João Acaiabe, Chiquinho
Brandão (ator de teatro, fazia o Professor Poropopó e também dava vida a
alguns bonecos, como o Bambaleão), alguns palhaços (Tic-Tac, Pam-Pam e
Perereca), o músico Xyss (com quem ela é casada), entre outros artistas.
Numa época em que a TV para crianças não apresenta há muito tempo nada de
inovador, o Virgula procurou Gigi para um papo sobre o Bamba, seu trabalho
atual e o que acha da TV de hoje em dia.
Virgula – Gigi, você
foi um marco na infância das crianças dos anos 80. Como foi isso?
Gigi – Eu comecei
sozinha, chamada pelo Professor Madri. No começo o Bamba era gravado, bem
simples, eu “costurava” os quadros. Mas logo comecei a inventar de fazer
dobradura, conversar com as crianças, pedir crianças no estúdio... e as
crianças começaram a querer participar. O programa foi se fazendo aos poucos.
Inventamos o Correio Metuia, que em tupi quer dizer “amigo”, tinha o Pato com
as crianças... Eu levava as crianças da periferia e as crianças do centro da
cidade, uma conversava com a outra, juntando experiências... e tudo isso foi
crescendo. O Madri foi ao México e viu um programa que tinha bonecos, e aí
chamou a Memélia de Carvalho, que fez o Macaco Chiquinho e o Sapo Agapito, e a
história começou. O programa deixou de ser gravado, em 79/80 começou a ser ao
vivo, e no dia da estréia aquilo tava lotado de gente na porta. Em 82
resolvemos reformular todo o programa, eu, Chiquinho Brandão, Memélia e o
Tic-Tac. As historinhas eram ensaiadas uma hora antes de ir pro ar, a gente
inventava na hora. A alma dos bonecos a gente criou fora... criávamos a
personalidade. O boneco Bambaleão era pra fazer dupla comigo, mas eu não me
dava com o ele, eu era apaixonada pelo João Balão
[risos]. Eu não gosto
de homem machista, e meu lado feminista não me deixava ser a tontinha,
docinha, o boneco se irritava comigo. É isso, eu me relaciono com o boneco,
não com o ator, e esse é o segredo.
Virgula – Você mantém
contato com o elenco?
Gigi – Sim! Marilan (o
Tic-Tac), PamPam, Silvana, somos todos amigos, estamos sempre juntos. Com o
Perereca também.
Virgula – E o
Circo Bambalalão?
Gigi – O
Circo Bambalalão
tinha todo sábado, de 82 a 84, ao vivo do Anhembi. E todo sábado tinha 4 mil
crianças lá, vendo a gente. Depois eu descobri que o programa passava em
Portugal, com o nome Tic Tac
e o Mundo Maravilhoso de Gigi... quem me contou foi a Inezita Barroso,
ela foi a Portugal e viu. Eu não sabia, adorei!
Virgula – E hoje? O
que você faz?
Gigi – Teatro,
contação de histórias, livros... Acabei de fazer um espetáculo em São Bernardo
(Livro Nosso de Cada Dia), falando dos grandes escritores, das
grandes histórias. Romeu e
Julieta, Sítio do
Picapau Amarelo, Dom
Quixote, Alice...
Tem o Brincando de Bambalalão:
sou eu, o Perereca e o Xyss em 32 espetáculos diferentes mas com a mesma
estrutura do Bamba, com bonecos, brincadeiras, histórias, esquetes circenses e
músicas. Tem o Mulher, Poesia e Companhia, em que apresento só poesias de
mulheres, com o Xyss e o Flávio Lara tocando músicas só de mulheres. Eu conto
a história das deusas gregas, fazendo uma correlação com os arquétipos. Faço a
direção cênica do Coral Madrigal do SESC Consolação, do CEM (Centro
Experimental de Música), com a regente Solange Assumpção. É um espetáculo que
fala dos ciclos da vida, uma lenda sobre as estações. A gente se apresenta dia
6 de outubro no Teatro Anchieta.
Estou começando um projeto em São Roque, um curso da Secretaria da Educação (a
pedido da secretária, Marcia Nunes) para as professoras. É uma oficina de
teatro... e elas repassam esse conhecimento para os alunos, o que vai
desembocar no I Festival de Teatro de São Roque. E ainda tem a peça
Bandeira, Poesia e Outros Bichos, para crianças de 6 a 12 anos, que vamos
fazer no SESC Carmo dia 22 de julho, em duas sessões: às 10h e às 15h. E, por
último, vou lançar meu livro, o
Laboratório das Flores,
que é a história de um menino muito desligado com as plantas, e as fadas do
jardim têm que consertar o estrago que ele faz, além de produzir flores novas.
Até que ele conhece uma fada e vai com ela conhecer o trabalho, o processo
todo.
Virgula – Gigi, diz
pra gente o problema dos programas infantis de hoje?
Gigi –
[ri] Você pode dizer
que eu ri e não respondi à pergunta?
Virgula – Vou
reformular: por que hoje não existem novos programas educativos como o Bamba?
Gigi – As pessoas têm
medo – acham que o que é educativo é chato. O
Bambalalão sempre foi
educativo, e passávamos conteúdo com brincadeira. O que falta é colocar mais
conteúdo no lúdico, de forma lúdica. Criança se interessa por conteúdo, claro,
o ser humano gosta, que ser humano não gosta de saber das coisas? Isso faz
parte da nossa essência, só que isso tem que ser passado de uma forma gostosa,
senão fica parecendo aula, e as crianças acham que aula tem que ser chata. Mas
na verdade, não precisa.