
Exclusivo: Antonio Calloni
Antonio Calloni estreou nos palcos em 1980. Seis anos depois, estreou na TV na
minissérie Anos Dourados (1986). Nesses anos, seu rosto tornou-se
conhecido pelos trabalhos na TV. Nos últimos anos, tem se dedicado também ao
cinema e à literatura. Em Anjos do Sol, Caloni interpreta Saraiva, dono
de uma “casa de tolerância” que usa o serviço de meninas menores de idade no
meio da selva amazônica. O ator conversou sobre este trabalho com o Cineclick.
Confira:
Texto: Angélica Bito
Fotos: Angélica Bito e divulgação (imagens de Anjos do Sol)
Como você se envolveu com o projeto de Anjos do Sol?
O Foguinho (apelido de Rudi Lagemann, diretor do filme) me chamou. Logo ele me
mandou o roteiro e fiquei fascinado com o tema e com o lado do entretenimento
que o roteiro fornecia. A história tem um toque de aventura, o espectador quer
saber se a Maria vai conseguir fugir, o que vai acontecer com essa gente... Não
é um documentário. Nada contra esse tipo de produção, adoro essa linguagem, mas
é um filme de ficção. Então ele tem esse tratamento fantástico no sentido do
entretenimento aliado ao cunho social muito forte. Inclusive, temos de falar
bastante sobre isso até que as coisas passem a caminhar melhor.
Como foi a preparação para viver o papel de Saraiva?
Foi difícil e muito prazeroso, fiquei muito feliz com o resultado. Essas
referências já se têm muito. Vendo as pesquisas que o Foguinho fez, há o caso de
um cafetão que degolou uma garota. Então, esse tipo de gente que vive num lugar
desses não é propriamente um vilão. Por incrível que pareça, o Saraiva também
tem humor. O Hitler, na vida dele, deve ter contado uma piada para um amigo, né?
É que ninguém viu. Não, evidentemente, defendendo as coisas que ele fez, mas
existe uma coisa humana e é assustador perceber que a gente tem essa capacidade
de ser cruel. Faz parte do nosso repertório, mas escolhemos não ser como o
Saraiva, né? Mas a gente é capaz porque é uma coisa humana. O Saraiva vive nesse
ambiente, criou aquelas regras e vive sob uma ética particular. É um personagem
fascinante porque você pode pesquisar essa coisa da crueldade como algo
cotidiano.
Você pensou em alguma pessoa real na composição do papel?
Não, nenhuma figura específica ou personagem chegou a me inspirar para o papel.
Trabalhei mais com a questão da postura, de se entregar às circunstâncias, de
entrar na situação e tentar entender aquele universo.
Quais foram as maiores dificuldades em Anjos do Sol?
O tempo. O resto foi só prazer. Adorei ter conhecido o Foguinho, ter trabalhado
com ele, e pretendo trabalhar novamente porque ele respeitou o depoimento dos
atores, não fez com que os atores simplesmente o obedecessem. Se você quer ser
obedecido, vá dar aulas no jardim de infância. O ideal é quando alguém te chama
para trabalhar e ouve o que você fala e foi o que aconteceu. Mas, como eu estava
gravando a novela Começar de Novo durante as filmagens, tinha de dividir
meu tempo e o Foguinho foi supercompreensivo. Alguns dias eu nem dormia para dar
conta. Mas no final foi um barato.
Como você vê a importância de Saraiva em sua carreira?
É um divisor de águas pela intensidade do projeto, pelo personagem. Como te
disse, não queria fazer um vilão do Saraiva, espero ter conseguido! Por ter
entrado nesse projeto, foi um acontecimento muito positivo em minha vida.
Como você tem sentido a recepção do público que já assistiu a Anjos do Sol?
O filme tem sido muito bem recebido. As pessoas ficam tocadas com o filme porque
ele quer levantar mesmo esse problema, deixar ele mais visível ainda. Não é uma
surpresa: a gente que fique em foco até que a coisa seja resolvida ou, pelo
menos, encaminhada para o início de uma resolução, pelo menos. As coisas
caminham de forma que essa situação seja encarada sem tréguas.
Exclusivo: Rudi Lagemann
Anjos do Sol é o primeiro longa-metragem dirigido por Rudi Lagemann. Mas
não é de agora que o cineasta gaúcho envolve-se com produção cinematográfica.
Foguinho, como é mais conhecido no meio, iniciou suas atividades nos anos 80.
Ainda na região Sul, foi diretor de produção de longas-metragens como Verdes
Anos (1984), de Giba Assis Brasil e Carlos Gerbase, e Me Beija
(1984), de Werner Schünemann. Por este último filme, no qual também assina o
roteiro e atua, recebeu o prêmio de Melhor Ator no Festival de Brasília de 1984.
Após mudar-se para o Rio de Janeiro, no ano seguinte, trabalhou como assistente
de direção para cineastas como Cacá Diegues, Lauro Escorel, Jorge Duran, Murilo
Salles e Fábio Barreto. Nos anos 90, como tantos outros cineastas, migrou para a
direção em TV e filmes publicitários. Somente agora, com mais de 20 anos de
carreira, Foguinho consegue assinar como realizador. Uma conseqüência natural,
como ele mesmo explica em entrevista exclusiva ao Cineclick. Confira.
Texto e fotos por Angélica Bito
Quanto custou a produção de Anjos do Sol?
R$ 1,5 milhão. Tem de ser aberto, não é? Foram R$ 800 mil do MinC (Ministério da
Cultura), R$ 400 mil da produtora (CaradeCão), R$ 100 mil da Globo Filmes
(co-produtora do filme) e R$ 200 mil da venda de direitos do DVD.
A distribuição do filme em DVD já foi acertada antes mesmo do filme estrear
nos cinemas. Durante as filmagens, existiu essa preocupação em produzir ou
pensar em extras para essa versão do longa-metragem?
Tenho muito material para o DVD desde a pesquisa, incluindo a preparação das
meninas, a escolha das locações, cenas não-editadas... É um material bem rico,
acho que vai ficar um DVD muito bacana.
O filme é resultado de nove anos de pesquisa em roteiro inspirado em
reportagens. Você mesmo chegou a visitar locais onde histórias como de Anjos
do Sol acontecem?
Não, a pesquisa foi por meio de material de jornal, textos de ONGs (Organizações
Não-Governamentais) e outras entidades que trabalham com esse tema, entrevistas
com terapeutas e médicos que também atuam nessa área e por meio de documentários
sobre o assunto. Não nos interessava pesquisar in loco porque imaginei
que o trabalho poderia ser desviado para outro caminho. O que eu precisava da
pesquisa não conseguiria indo no lugar. Por meio de documentários e fotografias,
captei todo o universo pelo lado da cenografia do filme, para reinventá-lo no
filme. Quanto aos diálogos, peguei vários documentos com relatos das meninas.
Dessa forma, captei a forma delas falarem, as gírias utilizadas, o jeito que
elas escamoteavam as verdades e mentiras que contavam... Daí veio o trabalho.
Assisti a dois documentários da BBC (rede inglesa de TV), dois Globo Repórter
(programa investigativo produzido pela Rede Globo). Esses programas, todos da
década de 90, falam sobre o turismo sexual, mas esse não era meu foco. Queria
abordar isso como um problema estritamente brasileiro. Mas eles eram bons pra me
dar o jeito delas, o visual. Também vi documentários estrangeiros sobre
prostituição infantil na Índia por serem universos parecidos. Elas assistiram
aos filmes. As meninas, junto de seus parentes, várias vezes foram lá na minha
sala, na produtora, para assistir a esses filmes. Também assistiram a filmes de
ficção que não tinham nada a ver com o assunto. Por exemplo, mostrei
Encantadora de Baleias para que entendessem o trabalho de interpretação da
atriz (Keisha Castle-Hughes, indicada ao Oscar pela interpretação), dizendo que
queria isso delas na filmagem. Tudo veio dessa preparação.
Como foi sua procura por Maria?
Foi uma procura angustiante. Eu tinha duas questões vitais para o filme: como
seria abordado um tema tão sórdido de uma forma que não causasse repulsa ao
público, sempre quis que ele fosse assistido, claro. A outra era como encontrar
uma menina que tivesse na faixa dos dez anos para fazer o filme. O produtor de
elenco (Luiz Antônio Rocha) procurou muito em grupos teatrais porque eu queria
uma pessoa desconhecida. Ao mesmo tempo, numa entrevista que dei para um jornal
carioca com o título “Um cineasta à procura de Maria”, dei um número de caixa
postal. Então, veio material do Brasil inteiro. Vimos o material de 700 meninas.
Dessas, selecionamos 360, pois o restante não se adequava ao papel, e vieram
meninas para fazer os testes. Nas baterias de testes, reduzimos o número de
candidatas até chegar à menina Maria (interpretada por Fernanda Carvalho). Ela é
moradora de São Gonçalo (Rio de Janeiro), fez teatro escolar e foi parte do
elenco de apoio de um especial na Rede Globo.
A Fernanda foi uma das pessoas que mandaram material para a caixa postal
divulgada na reportagem?
Maria vem daí. É genial isso, né? Desde o início, quando ela apareceu sempre
percebemos que é uma figura muito carismática. Ela tem carisma com a câmera. A
Fernanda tem um brilho no olho, onde se vê a inocência. Além disso, vi que ela
tem talento e inteligência para que eu pudesse construir a curva dramática de
uma menina que sai completamente inocente de casa, faz toda aquela trajetória de
chegar ao final do filme naquela condição de transparecer no seu olhar tudo que
passou. Instintivamente, a Fernanda é um bicho de audiovisual, a câmera gosta
dela.
Como o restante do elenco foi formado?
Todo o elenco de apoio e as meninas vieram de testes. Escrevi o roteiro pensando
no (Antônio) Calloni, que eu não conhecia pessoalmente, no Chico Diaz – parceiro
antigo de outros trabalhos -, a Vera Holtz e o Otávio Augusto foram indicados
pelo produtor de elenco. A Darlene Glória foi numa indicação do José Alvarenga,
diretor de Os Normais.
Você acha que a presença da Bianca (Comparato) pode trazer mais espectadores
ao filme, já que ela é um rosto conhecido desde que fez a novela Belíssima?
Pode! O público gosta dos seus ídolos, reconhece neles algumas coisas. O cinema
norte-americano é baseado nos atores, né? As pessoas vão ao cinema por causa dos
atores, isso é reconhecido pelo mercado. Também é ótimo porque existe o
interesse da mídia. Por esse lado, é bastante interessante tê-la. Mas o mais
importante é que esse não foi um critério, a Bianca foi escolhida pelo talento.
Tive de estragá-la para este filme, ela era muito gatinha, sabe? Insisti para
fazerem uma permanente e achei que ficou muito bom para o papel.
E ela está muito bem no filme...
Sim, elas tiveram todo um trabalho de preparação com a Paloma Riani e a Helena
Varvaki no sentido do tema, de dar uma unidade. Fizemos um trabalho muito longo
sobre cada cena, especialmente junto à Fernanda. Mesmo nos ensaios, já sabíamos
o que cada uma faria. Elas estavam muito coesas, por isso. Por mais que a trama
se passasse num mundo tão sórdido, havia um clima de descontração nas filmagens,
até a hora em que íamos filmar. Aí o mundo mudava, ficava o clima do filme.
Como foi o trabalho psicológico das atrizes, por conta do tema pesado que
Anjos do Sol aborda?
Sempre tive essa preocupação de não causar nenhum tipo de trauma psicológico.
Por isso, foi importante ter uma preparação feminina. O homem não tem intimidade
de falar sobre abuso sexual e estupro, sabe? Os responsáveis sempre acompanhavam
as meninas nas filmagens, elas nunca foram abandonadas. A preparação com a
Paloma e a Varvaki foi também corporal, auxiliadas pelos documentários que
vimos. Como será que caminha uma menina que dormiu com 30 homens numa noite,
sabe? Trabalhamos sobre isso. O processo todo foi dando segurança e confiança
sobre como eu filmaria no sentido que não teria nenhum aspecto de mau gosto
dentro daquele universo sórdido.
Quais foram as maiores dificuldades durante a filmagem?
Como trabalhei como assistente de direção em 20 longas, eu era iniciante no
sentido de assinar. Já dirigi aproximadamente 400 comerciais, então já sou mais
do que familiarizado com o set de filmagens. Tinha cenas complicadas, como o
estupro da Maria, o arrastão da Inês. Essas foram as duas seqüências mais
difíceis, no resto a gente estava muito preparado, não chegávamos no set sem
saber o que fazer. E eu filmo muito rápido, com poucas tomadas, sabe? Não fico
insistindo, não gosto disso, ainda mais com criança.
As filmagens demoraram quanto tempo?
Seis semanas: uma na Bahia, cinco no Rio de Janeiro. Somente as cenas iniciais,
na praia, e as que têm o caminhão passando pelos cactos foram feitos em locação,
o resto foi tudo filmado num local que construímos para isso. Como não tínhamos
dinheiro para cenários e essas coisas, o cenógrafo (Levi Domingos) conseguiu
três caminhões de madeira - que foram depois devolvidas, usadas mesmo – e filmei
dentro de um manicômio no Rio de Janeiro. Quando falo isso as pessoas não
acreditam, mas nosso estúdio foi lá. Fiquei três semanas e meia nesse manicômio,
com os malucos andando por lá. A vila onde elas vivem é o “clube” dos malucos.
Tudo é de alvenaria. A rua principal no filme é onde fica a marcenaria do local.
Não tive nem como trocar o telhado, trabalhamos com opções. Lá, recriamos uma
rua de alvenaria, toda bonitinha, para nosso universo. A partir daí, fui
pensando em maneiras de onde colocar a câmera. Era um bairro que passava ônibus
atrás da gente, entendeu? Esse é o mérito da equipe e da direção do filme
porque, quando você faz um filme, dependendo do gênero, você recria a realidade
de um modo simbólico. O mérito está em como você executa isso, para passar uma
realidade que se torne crível. Acho que superamos nosso desafio.
Você trabalha com cinema desde os anos 80. Porque a estréia na direção
aconteceu somente agora?
Porque a gente vive num lugar chamado Brasil. O cinema é uma atividade muito
cara. Quando minha geração estava pronta para estrear na direção, o governo
Collor veio a paralisar a produção cinematográfica no Brasil. Nesse meio-tempo,
todo mundo foi fazer televisão e publicidade. Além disso, foi quando pesquisei
não somente este, mas outros temas, para um longa. Foi um processo natural. A
gente nunca sabe como eu teria filmado naquela época. Numa atividade tão cara, é
uma sorte conseguir realizar um projeto de cinema. Se eu vou fazer o segundo não
sei, tudo depende de como Anjos do Sol vai acontecer, se as portas vão se
abrir ou fechar... Isso o público vai dizer.
E você já pensa no próximo?
Gosto de contar dramas humanos que envolvam temas polêmicos. Estou escrevendo
duas histórias. Uma é mais rural, focando a educação no Brasil que, para mim, é
onde o mal reside. Outra é mais urbana, pegando uns temas mais modernos. Meu
foco é a educação, mas chega uma hora que eu fico trancado, até por causa dos
trabalhos. Quando me tranca nessa história, passo para a outra, que terá um
enfoque no universo onde convivo, divertido de trabalhar.
Qual seria o enfoque da história urbana?
É a história de dois homens casados que querem adotar uma criança. A história
mostra o processo pelo qual passam. É como Cenas de Um Casamento (1973),
do Ingmar Bergman, só que gay. Não é uma comédia.
É também um tema que não é muito explorado, especialmente no cinema
brasileiro...
É... O foco está na questão da estrutura familiar e da desestruturação familiar.
Quem conduz a história é o casal e o espectador, acompanhando isso, também
conhece o universo gay, as dificuldades legais do processo de adoção e como
acontecem as relações familiares dos personagens. É como cebola, você vai
descascando e tirando as camadas.