A vida sem fio
Os
novos equipamentos eletrônicos que
estão a caminho das lojas se parecem em
um ponto: intercomunicam-se por meio de
ondas, sem o uso de cabos e fios. O impacto
dessa inovação tecnológica está apenas
começando a ser sentido agora
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Carlos Rydlewski
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Story Board
Hector Gomez |
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Mudam os personagens e os produtos, mas o sentido da anedota do escritor Luis Fernando Verissimo é o mesmo. Um menino pergunta ao avô: "É verdade que quando o senhor era pequeno não havia televisão?". O avô responde que sim, e o menino devolve: "Então onde é que você jogava videogame?". A piada mostra o fosso tecnológico entre as gerações. O número de produtos e inovações criados entre 1950 e 2000 foi maior do que o de todos os lançados até o começo da década de 50. Mudanças de paradigmas tecnológicos não se dão mais em várias gerações, mas em questão de anos – e, nos redutos de vanguarda da revolução digital, até no intervalo de poucos meses. Na década de 80, houve a popularização dos computadores pessoais. Os anos seguintes colocaram 800 milhões de pessoas numa rede chamada internet e transformaram o celular em produto de massa. O salto atual se resume em livrar os usuários de aparelhos eletroeletrônicos dos fios e cabos que invadiram os lares e os escritórios. É o começo da era da portabilidade e da mobilidade, dentro e fora de casa.
Sem a limitação dos fios, já é possível conectar o notebook à internet em um número crescente de aeroportos e restaurantes. Nas casas, o PC não precisa mais ficar junto à impressora porque os aparelhos se comunicam entre si. Nas lojas de eletrodomésticos, aparelhos de som, câmeras fotográficas e até porta-retratos digitais são vendidos com tecnologias sem fio wi-fi ou Bluetooth, expressões que há menos de um ano soavam estranhas e agora são comuns nas conversas dos jovens e adolescentes e nos anúncios de celulares e até de carros. Essa revolução começou com a popularização do celular. Agora ela invadiu o ambiente de trabalho e a vida privada.
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Fotos Fabiano
Accorsi |
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Médica da Faculdade de Medicina da USP simula exame de paciente (acima., ao fundo) equipada com câmera e microfone sem fio. Em outra sala, uma junta médica acompanha o atendimento |
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Nem o mais otimista dos defensores da telefonia celular poderia prever a rapidez com que o aparelho se tornou parte do dia-a-dia de brasileiros de todas as classes sociais. No país inteiro, o número de linhas de celular soma 57 milhões. Ao todo, são cerca de 32 milhões de usuários ativos, vários deles com mais de um aparelho. No mundo, há 1,5 bilhão de celulares. Na Suécia, já existem mais telefones desse tipo do que habitantes, pois as pessoas costumam ter um para o trabalho e outro para uso particular. A febre não dá mostras de que vá ceder tão cedo. A partir de perguntas formuladas por VEJA, a pesquisa CNT/Sensus revelou que 23 milhões de brasileiros pretendem comprar o primeiro celular nos próximos meses. Quem já tem quer trocar por um modelo mais moderno e dotado das novas tecnologias. Pelas projeções da mesma pesquisa, cerca de 10 milhões de brasileiros que usam celular planejam aposentar seu aparelho e ir às lojas em busca de um novo. Entre os que já possuem telefone desse tipo, 15% sonham com um modelo menor, enquanto 8% desejam que o novo aparelho seja equipado com uma câmera fotográfica digital. No Brasil, troca-se de celular a cada um ano e oito meses. No Japão, a mudança é feita, em média, a cada oito meses.
O certo é que conversar se tornou apenas mais uma das características de um telefone celular. Como fazer ligações telefônicas passou a ser também apenas mais uma das possibilidades oferecidas por computadores de bolso e palmtops, a variedade dos aparelhos não pára de crescer. Esses híbridos digitais são batizados de smartphones – ou telefones inteligentes. Por enquanto, eles detêm a participação de apenas 5% no mercado mundial de telefonia móvel. Muitos especialistas vêem nos smartphones o futuro dos computadores. Outros enxergam nos notebooks o futuro dos telefones celulares. Quem está certo? Ambos. Muito em breve será quase impossível dizer o que é um celular metido a computador ou um computador convencido de que é um celular. Na verdade, tanto faz. O que menos conta na revolução digital dos portáteis sem fio é a nomenclatura.
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Claudio Rossi
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Faculdade em Ribeirão Preto usa lousa virtual e mantém "tablets" conectados remotamente |
O que mais conta? A facilidade com que eles permitem a troca de informações digitais em volume e velocidade altos. Silenciosamente, crescem no Brasil os lugares que são varridos por ondas eletromagnéticas prontas a permitir que computadores, celulares, palmtops e notebooks se conectem em alta velocidade com a internet em ligações sem fio. Essas redes locais de alta velocidade sem fio são chamadas de wi-fi. O raio de ação delas chega a algumas dezenas de metros, dependendo da arquitetura do recinto onde estão instaladas. Elas estão se tornando onipresentes no Brasil e no mundo. Os especialistas deram-lhes o nome em inglês de hotspot.
Em julho de 2003, eles eram 45. Atualmente, são cerca de 790. A alavanca desse crescimento deu-se com a entrada da Telefônica no mercado. A empresa investiu 10 milhões de reais e instalou numa só tacada 440 hotspots em 25 cidades do Estado de São Paulo. Até o fim do ano, promete criar outros 60 pontos de acesso. No Brasil, os hotspots estão presentes no lobby de hotéis, em restaurantes, bares, cafés, centros de convenções e até no Maracanã, no Rio de Janeiro.
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Fabiano Accorsi
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Cópias de filmes são transmitidas via satélite para 27 salas de cinema em São Paulo, Rio e Brasília |
Em outras partes do mundo, o ritmo é ainda mais frenético. Estudos das consultorias Pyramid e Gartner indicam que no fim deste ano serão 80.000 pontos em todo o planeta para um público de 30 milhões de pessoas, o equivalente à população do Canadá. A conexão sem fio invadiu até mesmo os aviões. Em algumas aeronaves da Boeing, os passageiros já podem aproveitar o tempo de vôo para acessar a internet de seus assentos com os próprios computadores. Tudo sem fio. Em todo o mundo, três quartos dos clientes das companhias aéreas que viajam a trabalho carregam um notebook. Até 2006, a previsão é que nove de cada dez computadores portáteis devam sair das fábricas equipados com a tecnologia wi-fi.
Muitos freqüentadores de cinema de Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro devem desconhecer que são usuários de um tipo de tecnologia sem fio chamada de KinoCast, um sistema que permite a distribuição de filmes via satélite. No Brasil, 27 salas exibem fitas transmitidas em formato digital via satélite. Esse sistema possibilita o gerenciamento remoto das sessões e uma redução de custos de distribuição da ordem de 1.500 dólares por rolo de filme.
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Divulgação |
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Carrinho de supermercado que soma os preços dos produtos e os transmite por ondas à caixa registradora |
No Curso Oswaldo Cruz (COC), instituição de ensino em Ribeirão Preto, no interior paulista, que conta com 11.500 alunos da pré-escola até as turmas de MBA, a equipe de técnicos em informática desenvolveu uma classe virtual com a ajuda da tecnologia sem fio. O sistema, em fase experimental, inclui uma lousa digital que funciona como uma tela de computador. Os estudantes acompanham tudo simultaneamente em computador portátil conhecido pelo nome de tablet, que permite que se escreva na própria tela. O conteúdo de toda a aula é gravado e fica disponível. "A grande vantagem do ambiente sem fio é que as máquinas podem ser usadas com a mesma mobilidade e a mesma praticidade de verdadeiros cadernos on-line. Com uma diferença: os recursos são incomparavelmente maiores", explica Gustavo Hubaide, diretor de informática do colégio.
Na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), o emprego de tecnologias que dispensam cabos poderá salvar vidas. Um aparelho que integra câmera e microfone está sendo utilizado na transmissão de dados sem fio para computadores e telões. Isso permite que juntas médicas ou grupos de estudantes acompanhem entrevistas com pacientes, exames clínicos e até mesmo cirurgias. "No futuro, podemos imaginar esse tipo de ferramenta sendo empregado em atendimentos de emergência em prontos-socorros ou mesmo em resgates na rua. Nesses casos, um profissional ou equipes teriam condições de prestar atendimento a distância", diz o professor Chao Lung Wen, coordenador da disciplina de telemedicina.
No Japão e na Coréia do Sul, a telefonia celular do dia-a-dia já é feita majoritariamente por aparelhos de terceira geração – ou 3G. Eles oferecem transmissão de dados em alta velocidade. Isso significa que, com o celular 3G, o usuário pode assistir a programas de TV ou navegar em alta velocidade na internet – transmitindo e recebendo som e imagem com qualidade de cinema. Em Tóquio, dois em cada dez telefones móveis já estão conectados por banda larga à internet. Eles funcionam como cartões de débito e são usados para pagar contas. Recebem informações sobre a chegada de ônibus e permitem a disputa de jogos eletrônicos em rede.
A Samsung anunciou, no começo deste ano, que lançará na Ásia um telefone que capta sinais de satélite e transmite quarenta canais de TV. Um levantamento realizado com garotos e garotas sul-coreanos em escolas de ensino fundamental mostrou que metade desejava um celular como presente no Dia das Crianças – 20% queriam um cachorro e 10%, um computador. Na Itália, foi feita recentemente uma pesquisa com 300 pessoas para medir o nível de dependência do celular. Os voluntários foram impedidos de usar o aparelho durante quinze dias. Um grupo de psicólogos acompanhou os trabalhos e estudou as reações. Apenas 30% dos voluntários não sentiram nenhuma falta do celular. De cada dez, sete disseram que "não conseguem viver" sem o telefone.
A tecnologia sem fio está em muitos supermercados da Europa – e em alguns poucos no Brasil. Carrinhos computadorizados permitem que os clientes somem os valores das compras na velocidade com que vão tirando os produtos das prateleiras, enquanto os preços vão sendo transmitidos instantaneamente para a caixa registradora. No Brasil, carros estão saindo de fábrica equipados com o sistema Bluetooth, que faz chamadas por comando de voz, o que facilita a vida de quem dirige e conversa ao telefone ao mesmo tempo. Mesmo os mais reticentes em relação a novas tecnologias (os que não conseguem pilotar nem mesmo o controle remoto da televisão) dificilmente terão como escapar do avanço da revolução sem fio. É provável que em pouco tempo a piada do avô e do neto comece com a seguinte pergunta: "Vô, é verdade que quando o senhor era criança os celulares não passavam filmes nem programas de televisão?".
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