À sombra do horror, guardas da SS
relaxam e brincam
Neil A. Lewis
Em Washington
Em dezembro do ano passado, Rebecca Erbelding, jovem arquivista do Museu
Memorial do Holocausto dos EUA, recebeu uma carta de um ex-agente de
inteligência do Exército americano, na qual dizia que queria doar
fotografias de Auschwitz, encontradas por ele há mais de 60 anos na
Alemanha.
Erbelding ficou intrigada: apesar de Auschwitz ser o mais famoso dos
campos de morte nazistas, há apenas um pequeno número de fotos
conhecidas do lugar antes de sua liberação, em 1945. No mês seguinte, o
museu recebeu um pacote contendo 16 folhas de papelão com fotos coladas
dos dois lados; seu significado rapidamente tornou-se aparente.
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| Oficial Karl Hoecker e
funcionárias nazistas descansam em região próxima a Auschwitz |
Enquanto Erbelding e outros arquivistas revisavam o material, entenderam
que era uma espécie de álbum do dia-a-dia dos altos oficiais da SS em
Auschwitz, que foi mantido por Karl Hocker, ajudante do comandante do
campo. Em vez de mostrar os homens desempenhando suas tarefas no campo
de concentração, as fotos retratavam, entre outras coisas, um grupo de
homens da SS cantando alegremente, acompanhado de um acordeão; Hocker
acendendo a árvore de Natal do campo, jovens mulheres da SS brincando
alegremente e oficiais relaxando, alguns sem suas vestes, fumando um
cigarro.
Ao todo, são 116 fotografias, a começar com uma foto de 21 junho de
1944, de Hocker e o comandante do campo, Richard Baer, ambos com o traje
completo da SS. O álbum também contém oito fotos de Josef Mengele,
médico do campo famoso por participar nas seleções de prisioneiros e por
seus experimentos médicos bizarros e cruéis. Essas são as primeiras
fotos autenticadas de Mengele em Auschwitz, disseram os membros do museu
do Holocausto.
As fotos fornecem um contraponto impressionante do que até agora era a
única grande fonte de fotos anteriores à liberação de Auschwitz, o
chamado Álbum Auschwitz, uma compilação de fotografias tiradas por
fotógrafos da SS na primavera de 1944 e descoberta por uma sobrevivente
em outro campo. Essas fotos mostram a chegada ao campo de um transporte
de judeus húngaros, que na época eram a última comunidade judia de
tamanho razoável que restava na Europa. O Álbum Auschwitz, propriedade
do museu do Holocausto de Israel, Yad Vashem, retrata o processo de
seleção ao lado da linha de trem em Birkenau, onde os trens chegavam
para o campo e os agentes da SS forçavam os novos prisioneiros a
entrarem nas filas.
As comparações entre os álbuns são ao mesmo tempo tocantes e óbvias,
pois justapõem a vida diária confortável dos guardas com a realidade
tenebrosa dentro do campo, onde milhares estavam morrendo de fome e 1,1
milhão de pessoas morreram.
Por exemplo, uma das fotografias de Hocker, tirada no dia 22 de julho de
1944, mostra um grupo de jovens mulheres alegres, que trabalhavam como
especialistas de comunicações da SS, comendo pratos de mirtilos frescos.
Uma delas vira o prato e faz uma careta brincalhona, porque tinha
terminado sua porção.
Naquele dia, 150 novos prisioneiros chegaram a Birkenau, disse Judith
Cohen, historiadora do museu do Holocausto em Washington. Do grupo, 21
homens e 12 mulheres foram selecionados para o trabalho, o resto foi
imediatamente enviado para as câmaras de gás.
| IMAGENS DE NAZISTAS |
Nazistas em Auschwitz: a partir da dir., Josef Kramer, Josef
Mengele (de braços cruzados), Richard Baer, Karl Hoecker e um
oficial não identificado
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Oficiais nazistas e ajudantes femininas correm em ponte de
madeira em Solahutte
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Um oficial da SS segura a pata de seu cão, Favorit, próximo ao
campo de concentração de Aushwitz
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Oficiais nazistas reunidos em mesa proximo a Aushwitz
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Mulheres que trabalhavam para a SS chegam de ônibus em
Solahutte
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Trabalhadoras da SS viram seus pratos vazios após comerem
blueberries
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Grupo de oficiais alemães cantam em Solahutte
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Essas matanças faziam parte dos esforços frenéticos finais dos nazistas
para eliminar os judeus da Europa e outros considerados indesejáveis na
medida em que a guerra se aproximava do fim. Naquele verão, os
crematórios quebraram por excesso de uso, e alguns corpos tiveram que
ser queimados em valas abertas. Um grupo separado, porém pequeno, de
fotos anteriores à liberação registrou clandestinamente essas cremações.
Auschwitz foi abandonado e evacuado no dia 18 de janeiro de 1945 e
liberado pelas forças soviéticas no dia 27 de janeiro. Muitas das fotos
de Hocker foram tiradas em Solahutte, um albergue de recreação de estilo
alpino que a SS usava, nos limites do complexo do campo, ao longo do rio
Sola.
Apesar de ainda não terem planos de exibir o álbum de Hocker, os
curadores do Museu Memorial do Holocausto criaram uma apresentação
on-line delas em seu site da Web (ushmm.org) que estará disponível nesta
semana. Em muitos casos, eles contrastaram as imagens de Hocker com as
do Álbum Auschwitz. Em uma, mulheres da SS descem de um ônibus em
Solahutte para um dia de recreação; enquanto isso, em uma fotografia do
Álbum Auschwitz tirada na mesma época, mulheres maltrapilhas e cansadas
de viajar saem com seus filhos de um vagão de gado para o campo de
concentração.
Curadores do museu evitaram descrever o álbum como "o lazer dos
monstros" ou "assassinos se divertindo". Cohen disse que as fotos eram
instrutivas, pois mostravam que os matadores eram, de alguma forma,
pessoas que se comportavam como seres humanos comuns. "Em sua
auto-imagem, eram bons homens, bons camaradas, até civilizados", disse
ela.
Sarah J. Bloomfield, diretora do museu, acredita que existem outras
fotografias ou documentos relativos ao Holocausto não descobertos,
perdidos em sótãos, que logo desaparecerão para a história.
O doador, que pediu para permanecer anônimo, tinha mais de 90 anos
quando contatou o museu e morreu neste verão. Ele disse aos curadores do
museu que encontrou o álbum em um apartamento em Frankfurt, onde morou
em 1946.
As fotos do Álbum Auschwitz foram descobertas por Lili Jacob, judia
húngara que foi deportada em maio de 1944 para Auschwitz, perto de
Cracóvia, na Polônia. Ela foi transferida para outro campo,
Dora-Mittelbau, na Alemanha, onde descobriu as fotografias em uma mesa
de cabeceira em um alojamento abandonado da SS.
Ela ficou chocada ao reconhecer retratos dela mesma, do rabino e de seus
irmãos de 9 e 11 anos. Mais tarde descobriu que ambos tinham sido
imediatamente enviados à câmara de gás ao chegarem.
Hocker fugiu de Auschwitz antes da liberação do campo. Quando foi
capturado pelos britânicos, carregava documentos falsos que o
identificavam como soldado de combate. Depois do julgamento de 1961 de
Adolf Eichman, em Israel, autoridades da Alemanha Ocidental encontraram
Hocker em Engershausen, sua cidade natal, onde estava trabalhando em um
banco.
Ele foi condenado por crimes de guerra e ficou preso sete anos; foi
liberado em 1970, quando foi recontratado pelo banco. Hocker morreu em
2000, com 89 anos.
Tradução: Deborah Weinberg
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