A Outra Carmen Miranda

 

Foto rara de Carmen e Aurora 1929



    Quando falamos de Carmen Miranda nos vem à mente a figura da baiana estilizada, com um turbante de frutas e dançando alegremente. Porém, existe outra, pouco conhecida por várias pessoas: a da Carmen Miranda que, aos 21 anos obteve fama nacional com sua graça e um modo especial de interpretar nossa música, uma das intérpretes mais bem pagas na MPB, quando o samba ainda era marginalizado, a colega generosa que estava sempre pronta a ser solidária.

    Carmen, ou melhor, Maria do Carmo Miranda da Cunha, nasceu a 09 de Fevereiro de 1909, na Freguesia de Várzea da Ovelha, pertencente ao Concelho de Marco de Cavavezes, no Distrito do Porto, em Portugal. Seus pais eram José Maria Pinto da Cunha e Maria Emília Miranda da Cunha. O nome Maria do Carmo foi uma homenagem a Nossa Senhora e à sua madrinha de batismo D. Maria do Carmo Pinto Monteiro.
Em busca de melhores condições de vida, José Maria vem ao Brasil, onde passa a trabalhar como barbeiro. Pouco tempo depois, em 1910, D. Maria Emília vem com as filhas Olinda (1907-1931) e Maria do Carmo, com um pouco mais de um ano de idade. No Rio de Janeiro, então a Capital Federal, nasceriam seus outros irmãos: Amaro (1911 - ?), Cecília (1913), Aurora (1915) e Oscar (1916-?).

    A família Miranda da Cunha passa a morar na Lapa. Em 1919, Carmen é matriculada na Escola Santa Tereza, dirigida por irmãs vicentinas. Uma de suas professoras, a irmã Maria de Jesus, se referia à aluna, anos depois, como disciplinada, solícita e alegre.
A menina Carmen era solicitada sempre a declamar e cantar nas festinhas da escola.

 

    Em 1925, a família se mudou para um sobrado na Travessa do Comércio. Lá, foi aberta uma pensão, dirigida por D. Maria Emília, que era auxiliada por seus filhos. No local, também se serviam refeições às pessoas que trabalhavam nas redondezas, e Carmen viria a conhecer alguns dos futuros compositores de suas músicas.


    Olinda havia adoecido de tuberculose e enviada a Portugal, para tratamento. Para ajudar nas despesas, Carmen empregou-se na loja de gravatas “A Principal”, onde passou a ser balconista. Depois, trabalhou na loja de modas “La Femme Chic”, situada na Rua do Ouvidor, onde era frequentemente surpreendida pela gerente da loja, cantando à meia voz as canções populares de seu agrado. Madame Boss, apesar de gostar da voz da garota, a advertia brandamente, para manter a disciplina: “Menina, aqui não é lugar para se cantar”. Carmen soltava uma gostosa gargalhada, mostrando os dentes perfeitos, e voltava sua concentração à confecção de chapéus.

    Aos 17 anos, tinha vontade de trabalhar no cinema. Mas, nessa época, só conseguiu fazer alguns extras ou participar de algumas filmagens como figurante. Em 1926, sua foto aparece na revista Selecta, porém, não menciona seu nome. Apenas vemos, abaixo de sua foto, mas numa alusão a ela: “Uma ‘extra’ da nossa filmagem... E depois ainda haverá quem duvide ai podemos ou não ter estrellas?”.

    Nas festas familiares sua presença era fundamental. Ela cantava, era divertida, sabia todo o repertório de Carlos Gardel e imitava as cantora populares da época.
Sua melhor imitação era da cantora e atriz Aracy Côrtes, o grande nome do Teatro de Revista e da MPB, que foi responsável pelo lançamento de Ai Yoyô, nosso primeiro samba-canção, da autoria de Henrique Vogeler, em 1928.

 

    E foi com uma música do repertório de Aracy Côrtes que Carmen se aproximou de seu “descobridor”, o compositor baiano Josué de Barros. Em uma ocasião, ela cantou a toada “Chora Violão”, que havia sido gravada por Aracy em 1928. O próprio autor da música acompanhou Carmen ao violão. Ao final, a jovem amadora comentou: “Estou encantada com a maneira com que o senhor me acompanhou. O senhor acompanha maravilhosamente com o seu violão”. Josué, emocionado, apenas disse: “É que eu sou o autor da letra e música...”.

 

Parte 2