A incrível jornada da vida

Um bebê “conta” a aventura de nascer desde a fecundação. São mais ou menos 280 dias de muitas e fantásticas transformações

Patrícia Cerqueira

 



 

 

Oi. Eu sou um bebê. Poderia ser o seu filho, o da sua irmã ou do seu primo. Seria diferente em cada situação, mas não no meu desenvolvimento. Desde a fecundação, a gestação segue dentro de parâmetros mais ou menos definidos. Acho que o que muda são só a cor dos olhos e o sexo. Não dizem que todo recém-nascido tem cara de joelho e família é tudo igual, só muda de endereço? Brincadeirinha. Vou contar a minha história. E vocês imaginem que é a do filho de vocês. A jornada será longa. "A gestação humana é a mais demorada entre os seres vivos porque é a mais complexa", explica o ginecologista e obstetra Paulo Sérgio França, da Universidade Federal de Brasília. São mais ou menos 280 dias de incríveis transformações. Não há um sem novidade.

Na multidão

Minha vidinha começou 14 ou 15 dias depois da última menstruação da mamãe, quando uns 300 milhões de espermatozóides do meu pai viajaram dentro dela com uma missão. Nadando feito loucos, estavam atrás do óvulo na trompa. Parte dessa multidão dançou logo: acabou grudada em entranhas. Os outros acharam o alvo cerca de duas horas depois, atraídos por pistas químicas liberadas por ele. A distância era longa - mais ou menos 18 centímetros entre a vagina e a trompa. Se parece curta, para esses competidores, que medem cerca de 0,05 milímetro, é longe demais. E eles nadam rápido - de 2 a 3 milímetros por minuto. Então a galera corria e o óvulo estava lá, flanando na trompa, à espera dos visitantes. Transparente e gigantesco! Por volta de 85 mil vezes maior que um espermatozóide. Muuuito grande, cara! Mas tamanho não é documento para o "superespermatozóide", com sua capa-cauda. Ele tem o poder da fecundação! É um super-herói. Não vacila diante da acidez hostil do útero da mamãe nem se intimida com o tamanho descomunal do óvulo. Consegue penetrá-lo, alcança o centro dele e ali se mistura ao núcleo para dar origem a um ovozito. Bonitinho o nome, não?

Dessa façanha nascem duas células: eu e meus penduricalhos (placenta, membranas da bolsa e cordão). O campeão que deu conta dela é recompensado: determina a cor dos meus olhos, da pele e dos cabelos. E também o meu sexo. Ah, não vou contar qual é, não. O serviço é ultrapersonalizado. A chance de meus pais gerarem outro bebê igualzinho a mim é de uma em 70 bilhões. "Cada gameta (espermatozóide e óvulo) vem com uma informação diferente. É quase impossível um ser igual a outro", diz a química Maricilda Palandi Mello, coordenadora do Laboratório de Genética Molecular e Humana da Unicamp.
 

Fotos: Reprodução
A placenta e a pele que se fecha sobre o cérebro (à dir.)

Em busca de um teto

Uma vez fecundado, eu precisava de um lugar para me encostar, crescer e virar gente. Na trompa não havia espaço. Iniciei a jornada em busca de um teto no útero. "O óvulo demora entre três e quatro dias para chegar lá. Durante essa viagem, o desenvolvimento celular é absurdo", diz Eduardo Isfer, ginecologista e obstetra, especialista em medicina fetal do Laboratório Elkis e Furlanetto, de São Paulo. A cada 12 ou 15 horas minhas células se dividiam. Mais ou menos 60 horas depois da fecundação, eu já era um montinho de oito células. "Essa divisão ocorre, em média, até a 33a semana. Depois o feto passa a engordar. Entre as poucas células que não param de se multiplicar estão as do cérebro", diz o médico.

Bem, quando cheguei ao meu destino final, com 16 células, era um elemento geneticamente estranho à minha mãe. O sistema de defesa dela poderia desencadear um ataque. Significaria minha expulsão. Mas, enquanto eu estava a caminho, mamãe, sempre tão prestativa, enviou mensagens ao cérebro, que as retransmitiu ao útero: "Ninguém toca neste intruso! Ele é do bem". Todo mundo ficou quietinho. Eu era bem-vindo... e abusado. Fui logo liberando uma substância de nome difícil, a gonadotrofina coriônica (HCG), aquela que provoca enjôos, náuseas e vômitos nas grávidas. A secretária Renata Oliveira Pereira, na oitava semana de gestação, ainda sofre com o HCG. "Às vezes estou com fome, mas só de pensar na comida já vem aquela náusea", conta. Como porta-voz dos bebês, sinto muito, mas isso vai durar umas quatro semanas até que esse HCG se estabilize. Minha mãe, além de náuseas, ficou com os seios maiores, como os da comerciante Rachel Lima, grávida de 17 semanas. "Foi o principal sintoma do início da gravidez. Depois, tive também azia, que só parou no fim do segundo mês", lembra. Há outros sintomas, como sono e indisposição. "Nem todas as grávidas sentem as mesmas coisas. Depende de cada organismo. Raro é não sentir nada", diz o ginecologista Isfer.


 

Depois de buscar um teto, eu precisava de um cantinho aconchegante para me aninhar. Enquanto procurava, minhas células se multiplicaram. Já eram mais de 100 e eu com apenas 6 dias! Algumas iriam dar origem ao cordão umbilical, outras à placenta e o restante tudo meu. No terceiro e último dia de busca (era o sétimo após a fecundação), cavei um buraco minúsculo no útero da mamãe. Grudei ali, e as coisas foram se organizando. A placenta começou a se desenvolver. Ela fazia as vezes de pulmão e rim para mim, além de me alimentar. Assim acabei promovido a embrião. Perdi o aspecto de bola e fiquei comprido como uma vagem. Já estava envolto numa bolsa d'água e pendurado por um cordão em formação. Com 3 semanas, parecia um camarão, dos pequenos. Mas mudava rápido. Uma semana depois, no final do primeiro mês, esboços de outros órgãos surgiam. O coração, por exemplo, era um calombo que já pulsava. O útero da mamãe ganhou o tamanho de uma laranja. A placenta ficou prontinha por volta da 12ª semana e, a partir daí, só cresceu junto comigo. Essa "amiga do peito", na 38ª semana, era um disco esponjoso de 20 centímetros de diâmetro e pesava mais ou menos 600 gramas.

Com 5 semanas e meia, eu era uma semente de maçã, com cérebro, espinha e sistema nervoso. Tudo simples, porém honesto. Meus sistemas digestivo e urinário surgiam. Só meu visual não melhorava. Nem minha mãe me acharia lindinho com olhos onde deveriam estar as orelhas, nariz e boca numa coisa só, dando-me um ar de porquinho. Mas tudo acontecia tão rápido que em dois dias minha feição estava, digamos, melhorzinha. Os olhos, selados, "caminhavam" para a parte da frente do que seria a minha face. A boca adquiriu lábios finos. Mas as narinas, ai, ai, ai. Pareciam um pé de pato. E a cabeça? Enoooorme! Correspondia a um terço do meu tamanho. Os tecidos para formar os dentes começaram a aparecer. Eu, minhonzinho ainda, com 6 semanas, só flutuava leve e solto no líquido amniótico. Santo líquido, produzido pelas membranas da bolsa em que vivo. Ele me protege de batidas e me ajuda nos movimentos, tornando-os mais suaves. "Contribui no desenvolvimento do sistema gastrointestinal porque o bebê engole o líquido e faz xixi", acrescenta o ginecologista Isfer. A partir da 17a semana, eu começo a interferir na produção do líquido amniótico. "Com 20 semanas, cerca de 66% do volume vem do xixi do feto", diz o médico. Não, não é tão ruim quanto pode parecer.

 

Mais humano

Agora estou na sétima semana, dando largada à parte mais importante da formação interna dos órgãos, cérebro, sistema nervoso e esqueleto. Um trabalho pesado que vai até a décima semana. Cerca de 5 mil células neuroniais são produzidas por segundo nessa fase. E eu já sei, mas ainda não vou contar, se sou menino ou menina. "A chave dessa diferenciação é o gene SRY que está dentro do cromossomo Y. A partir da sétima semana, ele começa a gerar os futuros testículos", explica Maricilda Palandi. Meus pais só verão resultados palpáveis disso lá pela 16a semana. Mas o que interessa é que minha aparência está mais humana, com duas saliências para os olhos e outras duas para os ouvidos. Braços e pernas cresceram. Pequenas depressões na ponta das mãos e dos pés indicam o início dos dedinhos. Minhas papilas gustativas estão em formação. Dá para me medir. Tenho longo 1,3 centímetro, tão grande quanto uma uva verde. Mas me movimento bem. Faço lentas flexões e extensões da coluna vertebral e mexo braços e pernas. Mamãe não sente.

Na nona semana, muitas novidades. Meus olhos chegaram ao devido lugar. Os dedos cresceram e se soltaram. Fígado e baço trabalham na produção dos glóbulos vermelhos. Minhas mãos tocam o rosto. Bocejo e movimento a língua. Mamãe ainda não percebe. Estou com uns 3, 4 centímetros e peso 2 gramas. Pouco? Maior que um morango, ora essa. E dobrei e tripliquei essas medidas até a 12a semana: 6,5 centímetros e 7 gramas que resultaram em nova promoção. Sou chamado de feto. É justo. Todos os meus órgãos estão formados. Mamãe e papai já puderam ver pelo ultra-som que estou bem. Não, nada de sexo ainda. Mas mamãe, obviamente, foi às lágrimas. Papai ficou caladão. As grávidas são tão choronas, como a nutricionista Alyne Alves Antunes de Figueiredo. "Chorei de emoção nos exames, quando podia ver meu bebê se mexer", lembra ela, que agora está no quinto mês de gestação e já sabe que está esperando o João Carlos.

Reprodução
Quando o feto aprende a levar a mão à boca, suga o dedo e engole líquido amniótico

Durante todo esse primeiro trimestre, mamãe parou a ginástica, comeu melhor, abandonou os sanduíches, reduziu o ritmo. O médico pediu moderação. "A fase mais crítica da gestação são as 10 ou 12 primeiras semanas", afirma o doutor Isfer. Bom, essa fase já era. Mamãe está se sentindo melhor e menos tensa. A barriga dela começou a ter um pequeno volume - eu, que a essa altura, com 16 semanas, tenho uns 16 centímetros e peso entre 100 e 135 gramas. Um pãozinho de padaria! Minha aparência mudou. Está tudo no lugar: boca, narinas formadas, olhos. Tenho até cabelos. Mas a minha pele, de tão transparente, revela os ossos e o coração, que bate pra caramba, 120 a 160 vezes por minuto. Mexo os olhos, na tentativa de abri-los. Adoro sugar meu dedo, treinando a sucção. Engulo líquido e soluço. Os movimentos são mais coordenados. "Estou ansiosa para meu bebê mexer. Fico imaginando como será", diz Rachel Lima. Minha mãe pensava igual. Mais bem disposta, seu humor melhorou. Sentia-se feliz, em estado de graça. Meu pai agradeceu.

A partir da 17a semana, meu corpo começou a ser coberto por uma meleca, chamada vernix caseoso. Era mistura da secreção das glândulas sebáceas (argh!) e descamação de células da pele (aaaargh!), mas ajudava a minha pele a não enrugar no líquido amniótico. Só perdi essa "manta" bem no final da gestação. Na 18a semana, tentando ser um pouco dono do meu nariz, comecei a tomar certas iniciativas. Chupava o dedo, esticava as pernas, empurrava os braços, segurava o cordão umbilical.

O maior som

Com 20 semanas, uma tremenda surpresa foi ouvir. Até então, eu era, digamos, surdo. Demorei algumas semanas para reconhecer a voz da mamãe. Não ouvia com nitidez - tipo alguém que está mergulhado numa piscina. Mas ela conversava bastante comigo, assim como a relações-públicas Soraia Latini Resende, de oito meses, faz com as suas gêmeas, Isabella e Jacqueline. "Acho que elas já captam muita coisa." Um outro lance me surpreendeu. Imagine que meu rosto já media 6 centímetros, o mesmo tamanho que o corpo todo com 12 semanas. Uau! E meu cérebro ganhava 90 gramas por semana. Poderoso! O quinto mês foi magnífico para a minha mãe. Ela percebeu meus movimentos, como se uma bolha de ar tivesse estourado.

Aos 6 meses, gente, eu já tinha cílios, sobrancelhas, cabelo grosso, unhas e impressões digitais. E finalmente traços perfeitos. "Lindinho", disseram meus pais no ultra-som, mas sem qualquer conotação sexual. Para azar de vocês, eles não quiseram saber o que eu era. Guardaram-se para uma surpresa total na hora do parto. Por mim, tanto fazia. Estava lá com meus 33 centímetros, pesando 570 gramas, pulmões ganhando força. Sabe de uma proeza? Eu engolia entre 210 e 760 mililitros de líquido amniótico por dia - um belo de um exercício para expandir o tórax. Ouvi mamãe falar de uma pesquisa que mostra que engolimos mais líquido se ele estiver doce e menos quando está amargo. Então, mamães, prudência no jiló!

Associated Press/Create Healthcare
Entre a 24ª e a 26ª semana, o bebê sorri, num movimento reflexo

Bom, meu negócio agora é crescer e ganhar peso. A receita? Primeiro dormir, muito. Entre a 24ª e a 28ª semana, eu ficava acordado apenas 14% do tempo. Depois, me alimentava bem. Aos 7 meses bebia até 4 litros de líquido amniótico por dia - o equivalente, em nutrientes, a meio copo de leite. Não enxergava direito, apesar de já abrir os olhos. O útero e as membranas são muito densos e dificultam a passagem de luz. O espaço, aliás, começava a ficar pequeno. Será que eu sorria? Realmente não lembro. Ouvi mamãe contar que um médico britânico divulgou as primeiras imagens, de ultra-som 4D, de um feto de 26 semanas sorrindo. O especialista disse que era uma reação reflexa. Não importa. A imagem bastou para minha mãe achar que eu me sentia feliz. "A alteração nos batimentos cardíacos é o principal indício de que o feto reage a um estímulo", diz Márcia Regina Pedromônico, professora da Unifesp e vice-presidente da Associação Brasileira para Estudos do Psiquismo Pré e Perinatal (Abrepp). Eu não sei dizer das minhas emoções. Crescia apenas. Estava com 37 centímetros e 900 gramas. Mamãe reclamava dos pés, que inchavam. Com 28 semanas, eu controlava a minha temperatura corporal. Com 30, pesava 1,5 quilo e media 40 centímetros. Não conseguia me mexer muito, mas era flexível. Colocava o pé quase na cabeça. Minha pele agora era rosada, feito a de um boto.
 

Reprodução
Um creme recobre o feto para proteger a pele. Aos 9 meses, não há mais espaço para a criança chutar

Que virada!

Resolvi agitar entre a 32ª e a 34ª semana. Virei de cabeça para baixo. Minha mãe reclamou porque meus pés empurravam as costelas dela. O espaço é cada vez menor nessa fase, apesar da expansão do útero - ele passa de 50 ou 60 gramas para 1 quilo; de mais ou menos 6 centímetros de altura para, em média, 33; e de 2 a 3 mililitros de capacidade para até 5 litros em nove meses. Eu ainda não ocupava todo esse potencial. Estava com 45 centímetros e 2 quilos, tudo em cima da bexiga da minha mãe. Não havia banheiro que desse conta. E continuava a ganhar peso: 28 gramas por dia a partir da 36ª semana. Aquele vernix sobre o meu corpo foi caindo. Com 38 semanas, já tinha cocô no meu intestino. Não conseguia mais me mexer, apesar das tentativas. Estava oito meses maior e 600 vezes mais pesado que no início. Mamãe amenizava as dores lombares com banhos mornos.

Com 39ª semanas e os pulmões bem amadurecidos, estava pronto para deixar o ninho. Depois de oito horas de contrações, que mais pareciam massagens em meu corpo, nasci de parto normal, com 52 centímetros e 3,2 quilos. Chorei bastante. Mamãe até perguntou se eu, o garotão dela, havia ficado triste por ter saído. Não, mamãe. Lá dentro já estava apertado demais. Chorei de susto. Tudo é muito diferente aqui fora. Mas estou feliz por estar em seus braços!


 

 

Papai fecundou mamãe. A fusão gerou duas células. A cada 12 horas, elas se dividiam. Quando grudei no útero, era um amontoado de 16 células
Com 3 semanas, tenho rabo. Com 4 sou uma massa disforme, mas o coração bate. Ao final da 6a, minha aparência começa a ficar menos assustadora
 
Com 7 semanas, aparecem as pálpebras. Uma semana depois, já estou com um corpo bastante formado. Ao final de 12 semanas, está tudo completo. Sou feto
Com 14 semanas, minha cabeça está menos desproporcional em relação ao corpo. Na 16ª, pêlos ralos cobrem minha pele. Estou com 140 gramas na 18ª

Ilustrações: Flora Award

 

O desenvolvimento do bebê - Continuação

Patrícia Cerqueira

 


 

 

 
Com 20 semanas, o sexo está visível. Na 22ª semana, surgem as unhas e as impressões digitais. Duas semanas depois, as sobrancelhas são aparentes
   
Com 26 semanas, chupa o dedo, engole "água" e tem soluço. Na 28ª, abre e fecha os olhos. O espaço fica bastante apertado na 30ª semana de gestação
Com 32 semanas, minhas unhas estão grandes. Ganhava 28 gramas por dia a partir da 36ª semana. Finalmente chega o momento de sair

Ilustrações: Flora Award

 

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