A gordura de Ronaldo, a tireoide e a paixão
A felicidade que Ronaldo deu ao Brasil é um patrimônio emocional que ninguém
nos tira. As grandes arrancadas, os dribles desconcertantes, a agilidade, a
rapidez, e a força fizeram, em três Copas do Mundo, cada brasileiro se sentir um
camisa 9. O tempo passou, o Fenômeno engordou, mas será ídolo para sempre. Não
precisava, no dia em que anunciou a aposentadoria, tentar justificar o corpo
roliço com aquela historinha mal contada de hipotireoidismo. Foi bola fora.
Ronaldo mencionou o hipotireoidismo como se ele fosse um atenuante. Como se a
disfunção da tireoide pudesse explicar os cerca de 20 kg que engordou desde
2002. “Muitos devem estar arrependidos de terem feito tanta chacota com meu
peso”, disse aos jornalistas.
A coisa não é bem assim. O hipotireoidismo ocorre quando a glândula tireoide
(localizada no pescoço, logo abaixo do Pomo de Adão) não funciona de maneira
correta. Ela passa a liberar hormônios (T3 e T4) em quantidade insuficiente. A
disfunção facilita o aumento de peso porque provoca retenção de líquido - e não
o aumento da gordura corporal. Por causa do inchaço, o ponteiro da balança sobe
três, cinco, seis quilos. Não é coisa de 10 kg. Muitos menos de 20 kg.
“É improvável que o ganho de peso do Ronaldo tenha sido provocado pelo
hipotireoidismo”, diz Ricardo Meirelles, presidente da Sociedade Brasileira de
Endocrinologia e Metabologia.
Ronaldo disse também que não se tratou porque o remédio poderia ser detectado no
exame antidoping. Era a segunda bola fora. No mesmo dia os especialistas
esclareceram que o remédio não consta na lista de substâncias proibidas pela
Agência Mundial Antidoping.
O tratamento do hipotireoidismo é simples e barato (de R$ 11 a R$ 40 por
mês). A substância levotiroxina é igual ao hormônio natural produzido pela
glândula. Basta a pessoa tomar um comprimido por dia em jejum. Se respeitada a
dose correta, não há nenhum efeito colateral. Muitos brasileiros passam por isso
sem maiores dificuldades. O problema é mais comum no sexo feminino. Anualmente,
quatro mulheres a cada 1.000 têm o problema. Para cada oito mulheres, um homem
apresenta a disfunção.
Dois meses depois do início do tratamento a maioria das pessoas se recupera
completamente. Mas precisa fazer avaliações periódicas e continuar repondo o
hormônio de acordo com a necessidade.
A terceira bola fora de Ronaldo foi ter escondido o fato de que, na verdade,
havia se tratado. A doença diagnosticada em 2007, quando ele estava no italiano
Milan, foi tratada com levotiroxina. Assim como o Milan, o Corinthians comunicou
a Fifa e a Agência Mundial Antidoping que Ronaldo estava tomando o remédio.
Julio Stancati, médico do Corinthians, declarou que o tratamento foi retomado em
janeiro deste ano.
Por que esconder isso? O tratamento de uma doença simples, comum e de fácil
controle em nada comprometeria a imagem e o desempenho do Fenômeno. Por outro
lado, ficar sem tratamento produziria riscos inaceitáveis: fadiga, raciocínio
lento, desânimo, colesterol alto etc.
Ao tentar atribuir o ganho de peso ao hipotireoidismo, Ronaldo reproduz um
costume popular. Quem não conhece alguém que já recorreu a esse expediente? Essa
tradição vem do tempo em que o diagnóstico das doenças da tireóide era muito
difícil. Sem os exames atuais que são capazes de dosar a quantidade de hormônios
T3 e T4 no sangue, muitos diagnósticos eram errados. A pessoa engordava por
outras razões, mas a tireóide era responsabilizada. Virou uma desculpa
disseminada.
Ao dizer que tem problemas de tireoide, os gordinhos se sentem perdoados. É como
se reafirmassem que, se não emagrecem, não é por falta de força de vontade. O
discurso cruel da força de vontade sustenta o julgamento que lançamos sobre os
obesos o tempo todo -- explicitamente ou em silêncio.
Estamos cansados de saber que dieta equilibrada e atividade física é a melhor
forma de combater a obesidade e manter o bem-estar. Mas insistir em dizer que só
é gordo quem quer é uma tremenda bobagem. Metade dos obesos não consegue
emagrecer fazendo apenas o que os malhadões da TV nos dizem para fazer. Precisam
de remédios, psicoterapia e -- em casos graves -- cirurgia.
A obesidade é uma doença. Complexa, multifatorial, mal compreendida por
grande parte da sociedade. Não podemos permitir que, em função da nossa
ignorância a respeito dos fatores que a desencadeiam, os obesos sejam encarados
como fracos e preguiçosos.
Os gordinhos, os gordos, os gordões já enfrentam problemas demais nesse mundo
cada vez mais obesofóbico. Não precisam carregar também a culpa. É preciso
entender que a sina da humanidade é engordar. Ninguém está livre disso. Uma
pessoa de 30 anos que faz tudo certo e tem peso pena raramente chegará aos 50
com o mesmo corpo. Alguns conseguem, é claro, mas representam a absoluta
minoria.
A obesidade é o preço que pagamos pelo conforto que não tínhamos no tempo das
cavernas. Queremos tudo à mão.Comida farta, controle remoto, carro com
ar-condicionado, direção hidráulica e vidros elétricos. Tudo isso engorda.
Se qualquer um está sujeito ao ganho de peso, o que dizer dos jogadores de
futebol? Eles fazem tanto exercício que chegam a gastar 5 mil calorias por dia.
Quando estão prestes a se aposentar estão cheios de lesões que limitam a
atividade física. Eles se despedem do futebol, mas os hábitos alimentares não
mudam. Continuam ingerindo a mesma quantidade de calorias. Ou muito mais, quando
se esbaldam nas festas cheias de comida e bebida. São inúmeros os exemplos de
jogadores que engordaram ao final da carreira ou logo depois dela. Ronaldo não
está sozinho nessa.
Os últimos lances dele foram melancólicos. Por força das circunstâncias foi
encerrar a carreira justamente num time do povo, construído sobre um valor
fundamental: a raça. Eu, que tenho um corinthiano doente lá em casa, demorei a
entender esse conceito. Acompanhei a paixão sofrida dele inúmeras vezes. Sempre
quietinha, perto do telefone, esperando para ligar para o SAMU no dia em que ele
infartar. Depois de tantos anos de convivência, acho que entendi. Para o
corinthiano, o jogador não precisa ser craque. Não precisa ser o melhor do
mundo. Mas precisa se doar, correr, lutar, dar a alma pelo time. Demonstrar
vontade, dedicação e sofrer em campo como o bando de loucos do lado de fora.
Raça é tudo isso junto.
Tudo o que Ronaldo não podia mais oferecer. Ele sai para uma segunda carreira
sem perder as glórias do passado. Foi um craque de primeira grandeza e será
sempre lembrado por isso. Não precisava se embananar na tentativa de explicar
seu ganho de peso. Podia ter se poupado de suas três últimas bolas fora.
E você? O que achou das declarações de Ronaldo? Conhece alguém que teve
hipotireoidismo ou luta contra a obesidade? Conte pra gente. Queremos ouvir a
sua opinião.